O Plantonista - por Luiz Amato

O Plantonista - por Luiz Amato

O Plantonista

 

A vida passa em um segundo

 

♣♥♣

 

Nesta noite eu não faria mais nada, estava encantado com as luzes.

A miríade era um espetáculo.

Fez-me lembrar do meu nascimento. Do útero para a vida.

Aquela claridade, de início, incômoda. A mão pesada, o tapa. O aconchego no colo de minha mãe. Que saudades tenho de você. Das canções quando me embalava. Do primeiro banho. Do leite gostoso.

Os primeiros passos. Sua mão, uma guia sempre segura. Lembro-me de você mãe, como se fosse hoje.

Também de você pai, sempre sisudo, mas que me mostrou como um homem correto deve ser.

 

♣♥♣

 

– O que acha doutor, alguma chance?

– Ele está muito machucado. Continue pressionando o ferimento na barriga. Preciso de uma pinça.

 

♣♥♣

 

Saudade dos meus amigos de infância. Brincadeiras todos os dias. O futebol no campinho. Eu chegava imundo em casa. Minha mãe sempre distribuía cascudos. Doíam, mas eram impregnados de carinho.

Logo chegou a escola. Primeiro a paixão pela professora. Tão bela, tão gentil. Depois a primeira namorada. Nós tínhamos apenas onze anos, o primeiro e inesquecível beijo.

 

♣♥♣

 

– Temos um forte sangramento também na perna direita.

– Veja se há fratura.

 

♣♥♣

 

Chegou a puberdade. Como se dizia na época, eu era galinha. Mas eu adorava isso. Os bailes da vida. Corpos grudados e rostos próximos.

Um beijo roubado, de diferentes garotas, diferentes beijos, diferentes amassos.

Aí, chegava em casa, uma dor que não dá para aguentar, com certeza vocês sabem onde. Correndo para o banheiro, para o alívio. Que sensação ótima

 

♣♥♣

 

– Como está a barriga?

– Ainda sangrando muito doutor. Na perna é uma fratura exposta.

– Droga.

 

♣♥♣

 

Meu primeiro emprego, como a maioria dos rapazes, foi de office boy. Isso me levou a minha primeira conquista. Meu carro, velhinho, mas era meu. Às vezes, eu e meus amigos tínhamos que empurrar. Mas ele era adorado.

Daí foi um passo para namorar a sério. Ela era especial, nós nos conhecemos, descobrimos todas as nossas necessidades. Encontramos o amor.

Casar foi só uma questão de tempo. Lua de mel. Novo trabalho. Apartamento financiado. Filhos. Opa, filhos, foram quatro. Exagerado? Sou não.

 

♣♥♣

 

– Não seria melhor removê-lo?

– Nessa situação crítica acho que não suportaria. Como estão os batimentos?

– Fracos, doutor.

 

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Como foi linda essa época. Em três anos tivemos dois casais de gêmeos. Herança genética da família de minha esposa.

Vacinas nos bebês, consultas com pediatras. Viroses e viroses, sempre em finais de semana ou feriados longos. Noites sem dormir a contar histórias ou brincado com um deles.

E quando pensávamos que todos dormiam tranquilos, um vinha para a nossa cama. Às vezes dois. Quando chovia e ventava muito, os quatro.

Depois o leva e busca no maternal e pré. Festas de fim de ano. Escola básica. Faculdades. Estágios. Namorados e namoradas.

 Foi difícil, foi suado, mas faria tudo de novo com um sorriso no rosto. Mil vezes, se possível.

O tempo não espera. De repente, já eram adultos. Quando dei por mim todos estavam casados. Que imensa felicidade senti aos vê-los completos, com seus amores e suas certezas.

 

♣♥♣

 

– Não estou conseguindo conter a hemorragia. Os batimentos estão caindo mais.

– Continue pressionando. Senão iremos perdê-lo.

 

♣♥♣

 

Logo os netos chegaram. Mais alegria para a nossa casa.

Um dia a “velhice” chegou e minha companheira se foi. Doeu muito. Dói até hoje, mas assim é a vida.

Uma constatação muito interessante: Fiz oitenta e seis anos a semana passada, mas é como se eu tivesse vinte. Isso é muito bom.

 

♣♥♣

 

– Ele está convulsionando.

 

♣♥♣

 

Nada tenho a reclamar. A vida para mim foi muito especial. Não fui uma pessoa cheia de posses, dinheiro. Mas tive o que de mais precioso se pode ter. Uma linda família e muitos amigos.

Eu sempre adorei viver. Como dizia minha mãe, tem pessoas que são tão velhas, que parecem querer ficar para semente. Tenho vontade de rir ao lembrar isso. Se eu pudesse, também ficaria.

 

♣♥♣

 

– Não acho mais o pulso.

 

♣♥♣

 

É tudo tão belo. Essas lindas luzes, parecem que me chamam. Mas para onde?

 

♣♥♣

 

– Doutor, faça algo, estamos perdendo-o – o plantonista do resgate tinha lágrimas nos olhos.

 

 

 

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