O poeta e o tempo - por Regina Alonso

O poeta e o tempo - por Regina Alonso

O poeta e o tempo
 

Regina Alonso

 

     Fogos de artifício grafitam de luz e cor o céu de um novo ano. No silêncio que se faz em seguida, talvez você se pergunte: afinal, o que é o tempo? Albert Einstein afirmou que o tempo, como é conhecido, não passa de uma "invenção".

     Voltando no tempo, constatamos que desde a pré-história, o Homem ficou deslumbrado pela sucessão dos dias e das noites e pelo desenrolar das fases da Lua. A primeira aplicação da Astronomia à vida dos homens foi a medida do tempo e sua organização sistemática: o calendário. A noção de ano é menos evidente que a de dia e noite: só com o desenvolvimento da agricultura os povos primitivos se aperceberam do ciclo das estações. Os calendários baseiam-se nos movimentos aparentes do Sol e da Lua.

     No calendário gregoriano, convencionalmente adotado para demarcar o ano civil no mundo inteiro, os anos começam a ser contados a partir do nascimento de Jesus Cristo, em função da data calculada, no ano 525 da era cristã, pelo historiador Dionísio. Os cálculos não são precisos: é provável que Jesus Cristo tenha nascido no ano 749 da fundação de Roma, e não no 753, como sugeriu Dionísio.

     Diante da imprecisão, entendemos Einsten: “Espaço e tempo são modos pelos quais o homem pensa o mundo, e não condições sob as quais ele vive".  Talvez daí a poesia-memória do nosso Manoel de Barros... No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do quintal: Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra dentro. Afinal, a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.

     Para ir atrás do tempo, o poeta tenta pegar o rabo do vento, que escorrega... O pai acha que o menino teve um vareio da imaginação e manda-o estudar em livros. Ele vai. Acha que os eruditos nas suas altas abstrações se esquecem das coisas simples da terra. Encontra Einstein que lhe ensina: A imaginação é mais importante do que o saber. O menino põe um pouco de inocência na erudição. Vê as borboletas: elas dominam o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no corpo. Podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as próprias asas. E o menino vê que o homem não tem soberania nem pra ser um bem-te-vi!

     O mundo do poeta-menino é pequeno: um rio e um pouco de árvores. A casa de costas para o rio. Formigas recortam roseiras da avó. Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os besouros pensam que estão no incêndio. O menino-poeta inventa a natureza através de sua linguagem, transfigurando o mundo e o tempo. O menino é: “quando o rio está começando um peixe, ele me coisa, ele me rã, ele me árvore”.

     O menino é pequeno, é grande, é velho, é novo... De tarde, o menino inventor do tempo toca sua flauta para inverter os ocasos. E todos (poetas) aprenderão essa linguagem madruguenta, desde que voltem às crianças que foram, às rãs que foram,
às pedras que foram.

     Nesse tempo inaugural, choverá torto no vão das árvores.
O rio ficará de pé e nos olhará pelos vidros. Alcançaremos com as mãos o cheiro dos telhados. Crianças para fugir das águas se esconderão na casa com janelas de aurora e árvores no quintal. No tempo que não para, as árvores na primavera ficarão cobertas de flores e ao crepúsculo ficarão cinzentas como a roupa dos pescadores

     Tempo-Poesia a voar fora da asa...

 

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