O que tem que ser é! - por Glauce Leite

O que tem que ser é! - por Glauce Leite

O que tem que ser é!

 

Deise adorava bichos, passava horas brincando e observando o comportamento deles na chácara em que morava desde criança, não se via fora daquele ambiente. Quando adulta resolveu assumir o papel de mulher do mato e sozinha transformou a chácara da família em um rancho onde aconteciam exposições agropecuárias, provas de laço, rodeios, etc. A família não se envolvia, mas ficava muito satisfeita e orgulhosa com a menina que se transformara em empresária.

Num dia Deise resolveu anunciar seu negócio na rádio da cidade e de cara o Sr. Orlando, dono da rádio, encantou-se  com a moça, tão nova e tão independente, com uma força que ele nunca vira em jovem nenhum. Seu Otávio era um homem rico, meio avarento como todo mundo que faz fortuna, mas gostava da moça e torcia para que ela se interessasse pelo seu filho mais velho de oito que tinha com três esposas. Caio era seu companheiro nos negócios, trabalhava com o pai, bastava andar na linha que tudo corria como desejava, às vezes era preciso reclamar o salário gordo atrasado, mas nunca fora desamparado. Caio era inteligente e divertido, mas não tinha muita sorte com as mulheres que escolhia... Seus relacionamentos sempre terminavam com grandes decepções ou brigas, até mesmo na justiça. A última foi para pagar a pensão da filha que tivera três anos atrás.

Caio e Deise  tinham essa afinidade, pois ela também não acertara no amor. Dois casamentos e dois filhos. Os filhos vieram para balancear as más escolhas dos maridos. Os dois se transformaram em grandes amigos, trocavam confidências sobre tudo, amores, sonhos, angústias e segredos.

Durante quinze anos nos intervalos dos relacionamentos de Caio e Deise, a dupla se fazia companhia, iam a festas juntos, saíam para tomar sorvete, uma vez chegaram a ir ao cinema, mas não rolou mais, cinema é coisa de namorado, quase andaram de mãos dadas pelo shopping naquele dia, opa! Claro que os comentários não poderiam ser diferentes, todos pensavam que existia um romance entre eles e que não assumiam. O pai de Caio sonhava que os dois ficassem juntos, sempre que podia soprava algo no ouvido do filho a respeito de Deise. Acontece que nunca acontecera nada entre os dois, nenhuma troca de olhar, nenhuma insinuação ou sinal. A verdade é que eles eram amigos e pronto, eram tão amigos que pareciam irmãos, almas gêmeas... Sempre que alguém dizia algo para ela, respondia:

- Caio! O que é isso, adoro Caio, mas somos muito amigos é só isso! E ele dizia:

-Deise? Que é isso, ela já é mãe, gente! Mais respeito!

Durante a segunda gravidez de Deise ele sempre dava um jeito de encontrá-la, adorava vê-la grávida, achava-a linda. Um dia chegou a levar a noiva, na época, ao rancho com o pretexto de apresentá-la à amiga. Nem ele percebeu que, aí sim, estava olhando diferente para Deise. A moça voltou do rancho calada e dois dias depois disse que queria um tempo, pois não tinha certeza se ele gostava dele a ponto de se casar... Caio começou a se questionar sobre que amizade era aquela. Deise estava muito ocupada com o bebê novinho e o marido “mala”.

Um dia apareceu uma festa beneficente em que a presença de Deise era importante, afinal de contas o beneficiado era a comunidade em volta ao rancho e Caio ofereceu uma carona, ele queria conversar sobre a noiva que fora embora. Ela aceitou, mas Caio chegou atrasado trinta minutos, pois perdera seu número de celular e endereço. Chegou a incomodar um colega de Deise que morava do outro lado da cidade para guiá-lo até a casa dela.

A festa foi como o esperado, comida, coquetéis e muitos olhares direcionados aos dois que se divertiam com a imaginação do povo. Sr. Orlando sorria de orelha a orelha. Lá pela meia-noite e quinze Deise disse que estava cansada e preocupada com o bebê que ficara com uma babá adolescente. Caio levou-a prontamente para casa. Quando ela estava para sair do carro, ele muito discretamente insinuou o desejo de um beijo sem palavras, só com um olhar inédito para Deise. Ela, pela primeira vez, ficara sem chão perto do amigo, sentiu um calor na coluna e o sangue pulsar no corpo... Deise não conseguiu pensar em nada, fechou os olhos e se entregou àquele beijo que estava guardado há anos.

Naquele mesmo dia, por telefone, Caio terminou com a noiva que morava há duzentos quilômetros de distância e Deise fez o que já estava ensaiando há um tempo, mandou o mala embora.

À noite a nova família, agora com o pai e marido perfeitos.

 

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