O Segredo da Cachoeira - por Anchieta Antunes

O Segredo da Cachoeira - por Anchieta Antunes

O   SEGREDO   DA   CACHOEIRA

 

            Dom Albuquerque, cidadão já avançado em idade (60 anos), com a pele engelhada, e com sulcos abissais, é um homem ensimesmado, caviloso e com um tremendo bom humor. Adora pregar peças nos amigos e até mesmo com desconhecidos, coisa que já o deixou em palpos de aranha, mas ele, que não dorme de botas, logo consegue uma saída ardilosa. A vida o deixa cada dia mais experiente, o que é obvio, e por isto e outras atitudes suas, ele é muito respeitado na região, não só respeitado como conhecido por todos.

            Bom! Dom Albuquerque é proprietário de uma propriedade bastante grande; são muitos hectares, não sei quantos, e creio que nem mesmo ele sabe quanta terra possui. Lá pras bandas dos confins da sua posse tem um pedaço grande de MATA   ATLANTICA, motivo de orgulho para toda a família. Todos são fieis à preservação da natureza.

 Filhos? Ele precisa consultar seu misterioso caderninho para “descobrir quantos são, e os seus nomes”. Homem de tempera sertaneja, criado no campo iluminado por raios rudes e brilhantes, tem seu caráter forjado pelas intempéries da vida, do acaso, de circunstancias aleatórias e imprevisíveis. Dom Albuquerque é um monumento à sobriedade, à justiça, e, por que não dizer, ao bom humor.

            Na sua fazenda, distante da casa grande, existe uma pequena cachoeira, com aproximadamente 8 metros de altura, com um pequeno lago abaixo, onde todos gostam de banhar-se, matar o calor, molhar o suor, lavar o cabelo, bem como todas as outras partes do corpo calejado de trabalho. Naquela água translúcida nadam pequenos lambaris, e talvez algumas traíras que só nadam e não traem ninguém. Aos domingos o velho patriarca vai, com a família, de caminhão naturalmente, fazer grandiosos convescotes às margens do lago, escutando o incessante sussurro da cachoeira que salpica sossego, veludo e felicidade. Como todo remediado de vida, o fogo logo é aceso para a preparação de um churrasco universal.

            Naquele recanto de harmonia toda a família passa o dia com os pés enterrados na areia molhada, como se precisassem limpá-los da sujidade da metrópole. Dizem os estudiosos do comportamento humano que ter os pés em contato direto com o solo, seja ele qual for, descarrega toda a energia negativa, o que é um alívio para o espírito dos homens de ação; esta teoria não é válida para os preguiçosos porque estes não têm energia acumulada, não têm vigor transbordante, não têm vitalidade muito menos tônus muscular,  não têm nenhum tipo de carga de qualquer tipo, acumulada, nem em expectativa de acontecer.

            Assim que, naquele recanto de sossego, quase que era uma obrigação e de aceitação tácita, recarregar as baterias orgânicas e espirituais do “consorcio Albuquerque”. Ninguém usava nada envolvendo os pés. Eram momentos de absoluto relaxamento; até dormiam sobre esteiras jogadas à margem úmida do lago. Terminado o dia, estavam todos recompostos e prontos para recomeçar as atividades na segunda-feira. Os pés estavam recompostos, a alma lavada na cascata milagrosa, o espírito saltitando de alegria e vitalidade, e “as vontades em alta”.

            Um dia qualquer da semana, o velho Albuquerque saiu de casa sem dizer a ninguém para onde ia. No seu velho e insubstituível caminhão encaminhou-se para a sua pequena cascata. Quando de longe descortinou o pequeno lago, confirmou as suspeitas do que haviam lhe advertido.

            Lucinha a Anita eram as irmãs mais lindas da região; cobiçadas por todos os jovens em idade de se aventurar em empreitadas desastrosas; Os Dom Juan’s interioranos, desfalcados de charme e argumentos conquistadores, não eram inescrupulosos o suficiente para chamar a atenção das jovens irmãs.  Elas desdenhavam todos eles, como se fossem de uma elite superior, duas princesas sem coroas. Luzia, a amiga de sempre,  não era consangüínea, porém parecia mais uma irmã do clã Pereira.

            As três moçoilas não se separavam para nada; para onde ia uma, as outras acompanhavam. Amizade forjada em seus espíritos fortes e inabaláveis havia muitos anos.  Luzia soube através de seu irmão, Carlinhos, que na fazenda do velho Albuquerque havia uma cachoeira, com um lago a seus pés, que era uma maravilha para banho. A informação complementar foi que a família do fazendeiro só freqüentava aquele bucólico recanto aos domingos, e assim mesmo, nem todos os domingos. Durante a semana estava livre para ser visitada por quem quisesse desfrutar da natureza pura e exuberante.

            Uma vez de posse da informação, só restava marcar uma data para irem desfrutar do banho de cascata. Resolveram ir na próxima quinta-feira. Por que este determinado dia? Nem mesmo elas sabiam, coisas do destino.

            Uma vez de frente para o lago, ouvindo o barulho da água caindo de tão alto, a avidez pelo banho proibido, já que não era nas terras de suas propriedades, a concupiscência banhou a imaginação das jovens que resolveram tomar banho sem roupa, ou seja: nuas. Afinal, estavam sozinhas, não havia uma alma a menos de dois quilômetros, o perigo de alguém aparecer para olhá-las era remota, quase impossível, então porque não aproveitar o céu azul, a água quentinha e o isolamento pulcro?

            Uma vez deliberada, foram à ação imediata e ao banho maravilhoso. A água estava uma delicia, e brincavam alegres e libertas, puras e sacras; mergulhavam, nadavam e jogavam-se água mutuamente, iam até a pequena cachoeira tomar massagens com a força da queda d’água. Que tarde esplendorosa, livre de qualquer tipo de jugo doméstico; estavam vivenciando uma aventura perfeita até que... Lucinha pareceu ter visto um caminhão aproximando-se pela estrada de areia solta. Não tinham idéia de quem poderia ser, mas por via das duvidas, avisou às suas amigas e resolveram ficar na parte mais funda do lago, com apenas a cabeça de fora. Quando o intruso se aproximasse mandariam que ele fosse embora imediatamente, sob pena de chamarem seus pais. Como iam conseguir fazer isto, ninguém ficou sabendo até esta data.

            O pícaro Albuquerque desceu do caminhão na maior calma do mundo; não tinha a menor pressa, pois havia tirado a tarde para esta incursão à sua cachoeira. Do fundo da carroceria tirou um imenso balde e o carregou em direção ao lago, sem abrir a boca, sem dizer sequer uma palavra, olhando para as arvores, ouvindo o trinar dos pássaros, desfrutando da paisagem de “seu pedaço de terra”, assobiando ÁSA  BRANCA”  quando de repente ouviu gritos estridentes, raivosos, revoltados e juvenis.

            _Vá embora imediatamente, nem olhe para nós, estamos armadas e somos perigosas. Mais um passo e “você” (que ousadia chamar Dom Albuquerque de você) vai se arrepender de ter nascido. Estamos avisando, e só avisamos uma vez...

            _Pelo que posso ver daqui, vocês são três mocinhas corajosas e estão sozinhas. Não tenham medo de mim, sou da paz e se vim aqui, como faço todas as tardes foi só por um imperativo motivo...

            Lucinha, a líder do pequeno grupo, perguntou afobada:

            _Qual motivo o trás por estas bandas todas as tardes, isto aqui não é Capela onde se vai rezar, não é banco onde se vai  sacar dinheiro, não é bar, onde se vai tomar uma branquinha, não é cinema onde se vai assistir filme; então seu velho tarado, o que vem fazer aqui? Diga rápido e vá imediatamente embora.

            Albuquerque desfrutando de toda aquela situação e morrendo de rir da coragem da jovem Lucinha, continuou pitando seu cigarrinho de palha de milho antes de, com a maior calma do mundo, disse:

            _Meninas, fiquem à vontade, tomem seu banho em paz, não tenham pressa, eu já estou indo embora, e se estou demorando um pouco é porque queria ouvir o que vocês tinham a dizer. Façam de conta que este lago é seu, nem precisam pedir licença ao proprietário, ele é um homem compreensivo, não vai se aborrecer com uma coisa tão boba, apenas me dêem tempo de jogar na beira do lago a comida do jacaré, coisa que faço todos os dias.

            Albuquerque virou-se e vagarosamente foi caminhando em direção ao seu querido caminhão. Não chegou a dar dez passos quando viu passarem ao seu lado a três meninas nuas, molhadas, brancas como leite, e com as bundinhas balançando do sabor da corrida.

            Albuquerque bolava de rir, e no balde só havia uma carga grande de

                                                           EXPERIENCIA.

 

 

ALAOMPE

Anchieta Antunes

Copyright

Gravatá- 07/06/14.

 

 

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