O Suspense Nosso de Cada dia... - por Rô Mierling

O Suspense Nosso de Cada dia... - por Rô Mierling

O Suspense Nosso de Cada dia..

 

O suspense é considerado um sentimento de ansiedade frente a determinado fato, imagem, cheiro e até mesmo som. Todos ficam tensos, a respiração e o coração aceleram, tudo para até que o ato dramático, fonte do suspense, se descortine ou se esclareça. Livros policiais, em geral, são focados no suspense, mas também existem contos, crônicas e até mesmo dramas e romances com um forte apelo para o suspense.

Grandes nomes do suspense literário se destacam no mundo:

Dan Brown (O Código da Vinci, Anjos e Demônios e Símbolo perdido);

Stephen King (O Iluminado, Dança da Morte, A Coisa, A Hora do Vampiro, O Cemitério Maldito, A Zona Morta);

Agatha Christie (O Caso dos 10 Negrinhos);

Stieg Larsson (Trilogia Millennium);

Dean Koontz (Do fundo dos seus olhos, Lágrimas do Dragão, Fantasmas, Velocidade);

O livro Silêncio dos Inocentes - Thomas Harris foi eleito o melhor livro de suspense de todos os tempos.

Mas a lista não para aqui. São muitos os autores que a cada dia chegam às prateleiras das nossas livrarias nos dando sustos e acelerando nossos corações.

Abaixo, deixo um conto meu, uma humilde contribuição para o suspense nosso de cada dia.

 

EU SABIA

BASEADO EM FATOS REAIS

Rô Mierling

 

Todo dia quando eu ia dormir, sentia uma sensação estranha com relação àquela porta.

- “Mas, tudo bem, eu já sou adulta e posso tirar da minha cabeça um pensamento infantil como esse” – pensava eu.

Eu acordava, me vestia, tomava meu café e ia trabalhar, o dia passava e eu não me lembrava da sensação estranha que sentia de noite.

Tudo começou quando me mudei para aquela casa, ao lado dela havia outra casa, em demolição, uma casa meio queimada, meio destruída, restos de uma construção um dia habitada.

Procurando saber da história da casa vizinha, me informaram que ali morou uma senhora bem idosa, que teve problemas com agiotas e que uma noite invadiram a casa dela, deram uns tiros nela e ela veio a falecer, infelizmente. Uma semana após sua morte a casa dela pegou fogo na madrugada, sem ninguém saber direito como isso aconteceu já que ninguém morava mais lá.

Mas isso não me intimidou, era uma violência urbana com um toque de lenda, é normal em cidades pequenas. E a vida continuava. Mas toda noite quando eu me aprontava para dormir, preparava meu chá, meu livro, lâmpada do abajur, tudo devidamente posicionado, eu sentia aquele frio na espinha e uma sensação estranha vindo daquela porta.

A tal porta ficava no canto do meu quarto e de uma forma meio que sem explicação dava para o quintal lateral da minha casa que por sua vez dava exatamente de frente com a porta da casa vizinha.

- “Porque fariam uma casa de frente para a lateral da casa ao lado?” – perguntava eu, a mim mesma.

Mas enfim, isso não importava, a sensação ia e vinha, durante meses, mas não passava disso. Era uma sensação aflitiva, um aperto estranho no peito, uma vontade de olhar a porta toda hora. Eu até me distraia do livro que eu lia, mas o sono e o cansaço do dia a dia me venciam e eu adormecia.

Até que uma noite, véspera de feriado, eu sem sono, escolhi um filme para ver. Morando sozinha, sem namorado e sem muitos amigos, fiz minha pipoca e fui ver o filme no meu quarto.

O filme era um daqueles antigos com um terror infantil e sem muitos efeitos. Eu gostava, ria e me divertia sozinha com filmes assim. Mas aquela noite não.

O filme começou e um cheiro estranho de queimado invadiu o quarto, primeiro de leve depois mais forte.  Eu dei pausa no filme e fui olhar a casa, a cozinha, para ver se nada estava queimando. Nada.

Voltei ao quarto, religuei o filme e continuei assistindo. O cheiro persistia e eu tive a leve impressão de ter escutado uma batida na tal porta.

Ela tinha uma fechadura emperrada, uma maçaneta daquelas enferrujadas que há muito não era usada, logo eu nem poderia tentar abrir a porta para ver se alguém estava batendo mesmo.

Pensei ser minha imaginação e tente esquecer, mas foi impossível, a batida continuava bem de leve e o cheiro de queimado dominava meu quarto. A sensação estranha que toda noite eu sentia vindo da tal porta já estava insuportável.

Agora mesmo escrevendo esse relato me arrepio toda e olho várias vezes para trás, aqui sentada na cadeira em frente ao computador, para ter certeza de que estou só. É melhor eu fechar a porta atrás de mim.

Fechei! Bem onde eu estava?

Ah sim, o cheiro, a sensação ruim e o pior: a batida na porta.

Eu não sou medrosa, mas também não sou o símbolo da valentia, de qualquer forma não daria para continuar naquela situação.

A rua onde eu morava era meio deserta, sem muitas casas, já era tarde, alguns postes queimados não me ajudavam muito, mas mesmo assim criei coragem e sai da casa rodeando-a para verificar se havia alguém batendo na tal porta. Nada.

Voltei para dentro, desliguei a droga do filme, que a essa altura já não tinha a menor graça e pensei em ligar para a polícia.

Mas o que eu diria? Que estava com uma sensação estranha ou que já sabia que algo estava errado ali naquela casa?

Não era uma solução plausível. Sentei na beira da cama, de frente para a tal porta e me segurando dentro de mim esperei. A batida veio tão forte que eu quase caí da cama: BUM BUM.

Olhando para a porta achei que estava saindo fumaça de baixo dela.

- “Eu não acredito nisso” - pensei já apavorada.

Eu de novo saí da casa e fui para a parte da frente, rodeei a casa e nada. Nem cheiro, nem fumaça, nem ninguém. Mas eu sabia que algo estava errado, tinha certeza. Mas eu não via nada realmente digno de chamar alguém para me ajudar.

Sabe quando você tem aquela sensação no fundo do seu coração que alguém está te olhando ou que alguma coisa negra está te rodeando ou vindo por trás de você? Pois era isso que eu sentia.

Entre na casa com pressa, peguei minha carteira, troquei rápido de roupa, sai da casa, tranquei a porta e sai correndo pela rua abaixo até chegar a um ponto de taxi. Fui para a casa de uma colega. Óbvio que chegando lá eu não disse o real motivo da minha chegada a uma da manhã na casa dela. Inventei uma desculpa, ela acreditou e me deixou dormi no sofá.

-“Afinal de dia tudo é mais fácil” – pensei eu.

Na verdade eu mal dormi, quando amanheceu o dia de forma indireta pedi a ela que me levasse em casa para eu trocar de roupa e ir trabalhar, alegando que estava sem dinheiro para táxi ou ônibus. Na verdade eu não queria voltar lá sozinha. Minha colega acreditou e me levou de volta a minha casa no carro dela.

Na minha rua, dois carros de polícia e um do corpo de bombeiros estavam parados em frente a minha casa. Eu nem vou dizer que era uma grande surpresa, porque não era. Eu sabia.

Minha casa estava parcialmente queimada. Perdi quase tudo.

Os policiais me interrogaram rapidamente, eu disse que nada sabia, eles não acharam indícios de nenhuma explosão, nem gás, nada aceso, eu nunca fumei, enfim. Não deram motivos para o incêndio. Só não queimou tudo porque uma vizinha do fim da rua viu o fogo alto e chamou os bombeiros.

Minha amiga dizia horrorizada:

- Que sorte você ter saído de casa né?

E eu balançava a cabeça de um lado para o outro, olhando firme e fixamente para uma das únicas coisas que ficou em pé na minha antiga casa: aquela porta. Lá estava ela, firme, em pé, sem uma chamuscada sequer.

Eu sabia, de algum modo, durante meses a fio, sempre que sentia aquela sensação estranha vindo da porta, eu sabia: algo estava errado ali.

 

Publicado em 06/05/2014

 

 

 

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