O velho Armindo - por Francisco Luis Fontinha

O velho Armindo - por Francisco Luis Fontinha

Era quase meia-noite, o velho Armindo às voltas com a manivela da mudança dos dias, o sábado de 22 de Janeiro de 1966 quase a despedir-se e o domingo em espera entre a Mutamba e a ilha do Mussulo, o velho Armindo em esforços braçais e gritos que cuspia da garganta contra a pesadíssima roldana, a manivela em fios de navalha terminava o ciclo de vinte e quatro horas, era quase meia-noite, sábado, e era verão, e do mar vinha o suor das gaivotas, uma mulher na maternidade enrolava-se na madrugada e em pequeníssimos gemidos que se ouviam no corredor disparava vogais contra as janelas da enfermaria, e uma voz Puxe, puxe, e no corredor um homem às curvas e fitando as ondas do Mussulo engolia os cigarros sem os acender, nervoso, e a parteira Puxe, puxe, e o homem Menino ou menina?, o velho Armindo muda o dia e o domingo aos poucos a erguer-se como um girassol, sorrindo, sem nuvens, e era verão, e nascia o sol, o homem impaciente, o homem pensava Que se passa que eles não dizem nada, e às sete horas e trinta minutos  da manhã de mãos ensanguentadas, o velho doutor Camacho, médico e amigo do homem, rompe a porta, abraça-o e segreda-lhe Parabéns, Fernando, é um menino e estão bem, e estão bem a mulher e o filho, e os berros do rapaz que não se cala, e já o velho Armindo se pendurava na manivela da manhã quando o homem olhou pela primeira vez o filho, espantou-se por ele ser tão pequeno Ele é tão pequenino, doutor, e o doutor Camacho responde-lhe que é normal e que são todos assim,

Todos não, todos não, às voltas o velho Armindo com a manivela para o homem que saía da maternidade e se dirigia para casa, tomar um banho, comer qualquer coisa, e dizer aos sogros que a filha estava bem, que era um rapaz, que era muito pequenino, e berrava muito, e o doutor Camacho São todos assim, não te preocupes, são todos assim,

E o velho Armindo diz que não Não, não são todos assim,

E ainda não tinhas nascido, e o céu de Luanda tão azul e tão límpido, e as nuvens pareciam pedacinhos de algodão, e ainda não tinhas nascido, e o mar calmo do Mussulo, os coqueiros, as mangueiras e bananeiras, e ainda não tinhas nascido, e a minha primeira entrada numa tenda de circo, e não, não foram os palhaços que me alegraram, e não, não foram os trapezistas que me contentaram, e não, não foram os animais que me fascinaram, e ainda não tinhas nascido, e foram a luzes, sim, precisamente as luzes que me despertaram o interesse,

Tinha, e tenho, deixei de ter, não sei, medo da noite, não por ser escuro, mas porque no tecto do meu quarto não tem, e ainda não tinhas nascido, e nunca teve estrelas, e pergunto-te Imaginas-te num quarto sem estrelas?, claro que não dizes-me tu, e ainda não tinhas nascido e perdia-me nas tarde a olhar os aviões, e os pássaros, e o infinito, e ainda não tinhas nascido, tinha medo da noite, e não sei porquê, mas a noite parecia-me maior que o dia,

E ainda não tinhas nascido, e o céu de Luanda tão azul e tão límpido, e as nuvens pareciam pedacinhos de algodão, a ainda não tinhas nascido quando vi pela primeira vez um barco, fiquei incrédulo Não vai ao fundo…, e é tão grande!, e o meu pai, e ainda não tinhas nascido, todos os domingos me levava a ver os barcos, os treinos de hóquei nos Coqueiros, e ainda não tinhas nascido, e olhava a estátua da Maria da Fonte, e depois do circo, ainda não tinhas nascido, sentava-me na esplanada do Baleizão, olhava o céu e tinha estrelas, e comia um gelado, e ainda não tinhas nascido, regressava a casa, e olhava o tecto, e não estrelas e não barcos e não estátua da Maria da Fonte, e ainda não tinhas nascido,

Descobri que eu sou apenas um sonho, e ainda não tinhas nascido, e deixaram a criança em Luanda e trouxeram outra coisa qualquer, e ainda não tinhas nascido, e percebo agora que eu não sou e nunca fui a criança que, e ainda não tinhas nascido, olhava o céu azul e límpido de Luanda, os barcos, o circo, a estátua da Maria da Fonte, o Mussulo, o estádio dos coqueiros,

E ainda não tinhas nascido, e possivelmente na confusão trouxeram outro miúdo que não eu, e ainda não tinhas nascido, quando pela primeira vez vi um papagaio de papel a brincar no céu azul e límpido de Luanda,

E ainda não tinhas nascido,

As gotinhas ténues da chuva poisavam na minha mão, e no meu quintal voava um triciclo com acento de madeira, e as pombas corriam, e ainda não tinhas nascido, eu adormeci a olhar as nuvens de algodão,

E o velho Armindo diz que não Não, não são todos assim...

Assim como, pergunto-lhe,

Assim, verdes, círculos verdes com dentes de marfim.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó - Portugal

 

Publicado em 20/03/2014

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