O velho do asfalto - por Marcelo Garbine

O velho do asfalto - por Marcelo Garbine

O velho do asfalto

 

Não havendo nenhum outro carro na estrada, o caminho parecia estar aberto. Se num passado próximo ainda era hora de plantar as sementinhas da esperança, chegara o tempo da colheita. Todos os sonhos de menino concretizavam-se como num passe de mágica. Pra bater aquela adrenalina prazerosa de uma sensação única que nunca mais seria repetida, durante as décadas em que Uriah permaneceria neste mundo, faltava apenas aumentar o volume do rádio e olhar pro sol, enquanto dirigia, rumo à Herzlia.

Notaram-no, afinal. Que Uriah era um exímio roteirista, os amigos já bradaram à exaustão, fazendo-o decorar. Porém, como ele costumava falar - quase num tom de autoconsolo - "ninguém é bom até que digam que é bom". E só diz quem é ouvido. E só é ouvido quem tem credibilidade. E esse dia chegou: um respeitável diretor do círculo cinematográfico dissera que Uriah é bom.

E, então, a  guitarra de Slash e a voz de Axl Rose preencheram o espaço interno do carro no momento em que o sol refletia no para-brisas. O silêncio era relegado à época em que uma árvore caía no meio da mata e Uriah questionava-se se houvera estrondo, dado que não existia ninguém na floresta pra ouvi-lo. Agora, todos ouviam! Bastou o alerta do cineasta Yanni Ygor pra que os olhos e os ouvidos voltassem-se a Uriah.

Mas "Sweet Child O' Mine" deixou, bruscamente, de ser emanada aos quatro ventos. Foi um pedaço de arame farpado que fez o veículo parar. Coito interrompido. O mesmo mormaço que dava a nuance do regozijo passou a ser nada mais que um maldito calor infernal e o "pen drive" que continha a gravação da saudosa fita cassete de sua adolescência fora reduzido a um emissor de ruídos.

Ao trocar o pneu, devaneou acerca do epílogo que escrevera pro seu longa-metragem: Gamaliel, o personagem principal, acabou recluso numa clínica psiquiátrica, sonhando em como poderia ter sido diferente, se não tivesse ficado tão obsessivo pela consumação de sua vontade. O fim era triste porque Uriah cria saber como emocionar e porque os espectadores gostam de encontrar conforto na desgraça alheia e poesia nos infortúnios da própria vida insossa, projetando-a nos entes fictícios de uma tela de cinema.

Gotas de suor de sua testa caíam no asfalto, enquanto ele girava a porca com a chave cruz e, compenetrado no serviço mecânico, nem se deu conta de que, do Lada Niva emparelhado com o seu automóvel, saiu a pessoa que, supostamente, oferecer-lhe-ia socorro. E o auxílio vinha em instante exato, pois o estepe que, com tanto esforço, colocou estava danificado. O gentil cidadão doou o seu e Uriah poderia seguir viagem.

Ao dar a partida, enxergou, pelo retrovisor, o idoso tranquilo e inerte. Percebeu uma roda a menos em seu Niva. Engatando a marcha ré, Uriah retornou pra averiguar.

– Você me cedeu um dos pneus do seu carro, senhor? Presumi que fosse o seu estepe.

– Dei o meu estepe pra outro motorista que precisou de um, há cinco léguas daqui. Posso aguardar o guincho. Você necessita dele mais que eu. Vi isto pela doçura infantil das suas pupilas. Com certeza, está perto de uma grande realização e...

O indivíduo solitário proferiu mais algumas dezenas de palavras que Uriah não escutou. Quando o misterioso ancião mencionou que captara a conquista do querer de Uriah em seu semblante, o encanto foi tamanho que ele só conseguiu ouvir, novamente, "Sweet Child O' Mine" tocando em sua cabeça. Uriah apenas certificou-se de que o sujeito possuía um aparelho celular pra acionar o resgate, agradeceu e foi embora.

Somente novecentos metros adiante,  Uriah lembrou-se das frases do velho.

"Espera... Ele me chamou de Gamaliel? Este é o nome do meu personagem...".

Uriah chegou, enfim, à reunião no estúdio. Surpreendeu-o o fato de haver um terceiro integrante. Yanni Ygor estava munido com dois escritos: o de Uriah e o do ser estranho que por lá aparecera. Depois de elogiar ambos os profissionais, Yanni comunicou a sua decisão: o escolhido foi Ethan.

– Você é hábil com as letras, Uriah, mas a linguagem de Ethan tem vitalidade.

Derrotado, Uriah pegou o seu automotor no estacionamento. Observou que uma das rodas traseira do veículo vizinho era discrepante se comparada às outras três. Era de um jipe russo, que, por seu turno, era idêntica a uma das suas, que também destoava das demais de seu carro. Regressou, pois, à sua aldeia, após percorrer os mesmos mil e duzentos quilômetros da ida.

Transcorridos onze meses, pelo jornal, teve acesso à notícia do lançamento do filme de Yanni Ygor. A sinopse era sobre um octogenário em uma rodovia que ajudava o protagonista desprevenido. Dando o braço a torcer, Uriah aceitou que, deveras, o script de Ethan era mais vívido por razões óbvias: a história era verdadeira e pulsava.

Uriah relacionava-se bem com as suas frustrações, mas elas se tornavam indigestas se ele não lograva perdoar-se ao imaginar que seria possível ter feito igual à concorrência. Atordoado, viveu o "déjà vu" de um manicômio. Contudo, nele, lecionava-se dramaturgia. Uriah participou de todas as aulas e divertiu-se entretendo os seus colegas. Um sorriso no seu rosto trouxe à tona as recordações de suas fantasias de criança.

Assim como o homem da autopista, Uriah sentiu-se no lugar certo e, por linhas tortas e insanas, fez acontecer o desejo de ter o seu roteiro transformado em película num ambiente onde havia mais carência por ela.

 

Marcelo Garbine

 

 

 

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