O Viajante - por Anchieta Antunes

O Viajante - por Anchieta Antunes

                                O     V I A J A N T E

 

Quando perco a fé na minha cama, levanto para vadear a aurora em busca de antigos acontecimentos. Estórias asiladas nos mais recônditos dos escaninhos, prontas a serem deflagradas ao mundo aberto para ideias.

Assim aconteceu hoje muito cedo da manhã. Lembrei-me de meu cunhado/pai Elino Torquato do Rego. Sertanejo de boa cepa, não conseguiu um curso superior porque na época não havia Universidades no sertão. Autodidata e curioso como maré alta que avança praia acima em busca dos segredos da vida, cavando a areia, indo buscar lá no fundo os conhecimentos enterrados pelo tempo que corre solto.

Era junho de 1978, em plena Copa do Mundo quando chegou minha transferência para Roraima (ainda território). Elino chegou pertinho de mim perguntando e definindo sua companhia em, agora, nossa viagem. De mala e cuia partimos para um mundo desconhecido. Primeira escala:  MANAUS – AM. No aeroporto “Eduardo Gomes” esperava por mim uma jovem loura artificial cheia de “amor pra dar”.Ela queria dar mesmo, não duvidem. Dar amor, não deturpem...Quem era eu para me negar beber no cálice da paixão, no oráculo da juventude o néctar da volúpia.  Nem pensar!

Elino dizia: _”Chetere” dispensa essa menina, isto não vai dar certo, pense enquanto é tempo. Éramos só nós dois, por que agora essa “cunha”? Ele  esposo dedicado e pai amantíssimo não poderia nunca concordar com um relacionamento extra conjugal, se bem que eu já havia rompido meu primeiro casamento.

O ímpeto ofuscou meu raciocínio e lá fui eu com duas pernas a mais para me deixar canhestro. Conhecemos Manaus em taxi e ônibus. Caminhamos muito pela “Zona Franca”, onde ele comprou um “barzinho” domestico no formado de um auto antigo. Cabia uma garrafa e dois copos. Ainda hoje está na casa de minha irmã viúva, em perfeito estado.

Seguimos para Boa Vista-RR, ela com um filho em amamentação. Ficamos no hotel de Euzébio, um paraibano que havia migrado para a terra dos diamantes, em busca de fortuna. Ganhou uma mulher e um filho. Euzébio pesava 150 quilos, a mulher, uns 60. Não me perguntem da “mágica da prática”, não saberia dizer.

Boa Vista foi em seus primórdios uma cidade previamente traçada; uma praça no centro, de onde saem todas as ruas formando uma circunferência raiada, como se fosse uma rodela de abacaxi. Não tinha muito para ver e tudo para descobrir. Segredos ocultos nas serras brilhantes de minérios, de onde brotavam pepitas de ouro que serviam como moeda de troca; pedrinhas cintilantes e transparentes permutavam das mãos dos garimpeiros para as dos comerciantes. Diamantes sem lapidação abundavam no coração das serras.

Passada a copa do mundo que assistimos no “lobby” (chique, não?) do hotel aos jogos da seleção brasileira, Elino, que a despeito de gozar da aposentadoria, queria varrer a poeira do mundo em busca de novos conhecimentos. Se mandou sozinho, desta feita, de ônibus, pois queria colocar a mão no obelisco da linha do equador. Desejo satisfeito prosseguiu viagem pelos restantes 500 km, num total de 800 km. A mesma viagem, que fiz tempos depois, tive oportunidade de observar a floresta e uma faixa continua de “areia branca” digna das mais belas praias do nordeste. Contam  os historiadores que a Amazônia foi um dia, milhões de anos atrás, coberta pelo oceano. A areia branca denuncia esta possibilidade. A floresta tem de solo fértil uma camada de aproximadamente 20cm; pra baixo é pura areia de praia. Isto é fato.

Essa viagem que demora dezoito horas, passando por dentro de uma reserva indígena- MACUXI – só pára uma vez para almoço. Sem saber comi carne de cobra. Elino havia levado um estoque de bolachas e bananas. Não queria arriscar uma indigestão, no que acertou em cheio.

Em Manaus hospedou-se novamente no Hotel Encontro das Águas (Solimões e Rio Negro), no centro da Zona Franca de Manaus. Caminhou quilômetros de lojas, observando e descobrindo a Europa, USA e Ásia. Tudo importado, tudo novidades para nós do 3º mundo. Uma vitrine de tecnologia e encantamento. Os olhos saltam para os aparelhos sofisticados e desconhecidos dos “tupiniquins”. O dinheiro coça no bolso para ser trocado por quinquilharias que na maioria das vezes só as usamos enquanto é novidade, entre quatro paredes. Depois, quarto de despejo.

Elino embarcou num “catamarã” construído com chapas de ferro formando paredes duplas com departamentos estanques para evitar alagamentos em caso de perfuração localizada na parte externa.  Barco grande, confortável e seguro para viagens em rios da região.

No encontro das águas dos rios Solimões e Negro a água escura demora a tornar-se barrenta, contudo perde a luta para o caudaloso e veloz rio de águas profundas. Após o encontro das águas o Solimões muda de nome e passa a ser “Amazonas”.  Ele - Elino -  deparou-se com a fantástica visão dos “NAVIOS  GAIOLA”, pérolas engastadas nos turvos redemoinhos do grande rio, hoje desconhecidos pelos jovens. O descaso das autoridades constituídas relegaram ao abandono o transporte de milhares de pessoas. Ainda hoje no Rio Mississipi “os gaiola” servem de atração turística, antanho como luxuosos Cassinos.  Os nossos devem ter servido para grandes churrascos de comemoração de eleições ganhas.

No convés daquelas embarcações as redes são armadas uma a uma pelos passageiros que viajam embalados pelo balanço das águas. Alguns catamarãs têm três  ou quatro camarotes para quatro passageiros; nada de conforto. O consolo está restrito aos olhos, que não param de admirar a maravilhosa  paisagem que muda metro a metro, nas margens que parecem dar uma imagem televisiva sem programação definida. Não há sossego de espírito diante de tanta belezura. Minuto a minuto  surpreendemo-nos  com uma nova tela da natureza selvagem.

No “Baixo Amazonas” os viajantes vêem os “curumins e cunhantãs” (tupi: meninos e meninas)  remando pequenos botes cavados em troncos; aproximarem-se do navio à procura de comida; sacos  plásticos com alimentos são atirados pelos passageiros para o rio que corre célere, e de imediato são apanhados pelos pequenos “caboclos” famintos de gêneros, reconhecimento e amor. Aqueles pequenos seres e suas famílias existem á deriva da vida. Não há proteção, apenas carências. Essa gente navega um mundo d’água e sente sede de clemência. Pede o perdão por viver miseravelmente, do que têm vergonha. Eles estão escondidos no limiar da floresta, escutando o murmúrio das arvores  dividindo o vento e o farfalhar da folhagem. A música amazônica.

Enquanto Elino descia o Rio Amazonas eu estava indo de avião para Belém do Pará, a trabalho. Soube quando o navio dele atracaria e fui buscá-lo, uma vez que ele não conhecia a capital do “açaí”.

_”Chetere” é você mesmo? Perguntou assombrado.

_Sou eu mesmo, Elino. Vim a trabalho e me informei de sua chegada.

_ Você é mágico ou santo, “pra ta” aqui me esperando. Era a ultima pessoa que esperava ver hoje!

_Vamos “simbora” pro hotel. Já reservei um quarto para você.

_Viajar assim é muito bom! Onde chego tem uma pessoa para me acolher. Sinto saudade de casa e ao mesmo tempo pesa-me encerrar esta viagem surpreendente em todos os sentidos; no sentido de paisagens distintas das do nordeste, cidades com traçados originais, gente e sotaques  desconhecidos para mim, comidas nunca d’antes mastigadas no meu torrão natal e o grande “Rio Mar”. Quantas lembranças guardo em minha memória!

Percorri com ele a “Metrópole da Amazônia” ou “Cidade Morena”; fomos à feira de “Ver o Peso”, ao Jardim Botânico Bosque Rodrigues Alves, ao Teatro da Paz, considerado um dos mais bonitos do país; comemos iaçás e provamos o tracajá e o muçuã (pequenos  quelônios de rio).  Elino não gostou de nenhum deles, eu lambi os “beiços”.

Nas praças de Belém vêem-se filas de pessoas esperando para serem servidas de “TACACÁ”. Uma gororoba preparada com os seguintes ingredientes:

4 xícaras de água

½ xícara de polvilho azedo ou goma de mandioca

1 xícara de chá de sal

500 g.de camarão salgado (seco)

5 folhas de chicória

4 dentes de alho espremidos

4 pimentas-de-cheiro

 

2 maços de jambu*

2 litros de tucupi**

Provamos, mas não gostamos; que os paraenses deleitem-se com seu tacacá.

Dias depois ele voltou para o nordeste e eu para Roraima. Senti muita saudade daqueles dias de pura alegria e descobrimentos.

Nesta madrugada sem fé e de vadiagem caseira, sua pergunta volta a mim com toda força.

_”Chetere” quando vamos fazer outra viagem desta?

Anchieta Antunes

*jambu: erva, ingrediente do tacacá, que provoca um efeito semi-anestésico na boca, ao ser ingerida.

**tucupi: molho que se faz por evaporação, ao fogo ou ao sol, da “manipueira”*** dando um suco azedo e amarelo. Deve ser bem fervido.

***manipueira: suco leitoso da mandioca brava, ralada e obtida por compressão e que contem o veneno da planta. Sem fervura a manipueira mata com extrema rapidez.

Gravatá – 18/11/10

 

 

 

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