O voo da graúna - por Maria Dilmar

O voo da graúna - por Maria Dilmar

O voo da graúna

 

Tarde lenta feita de agonia. Solitária desde sempre e agora mais ainda. Assiste da janela a chuva. O cheiro gostoso da terra molhada e aquele vento trazendo pra dentro de casa todos os cheiros conhecidos dos períodos de inverno.

Bem ao lado da casa, nas resistentes mangueiras cinquentenárias, canta a graúna, que num dia de muita melancolia foi posta em liberdade pelo Titico depois de muitos apelos e reclamações.

Mesmo liberta, jamais voou pra longe. Vez ou outra entra pela janela e canta para quebrar o silêncio e espantar também o ar de tristeza da casa.  

A chuva sempre foi e continua sendo uma bênção na sua vida, assim como do povo do sertão nordestino. A presença dela por esses lados representa o renascimento, a esperança de vida farta, e o motivo de lindas romarias de agradecimentos e festejos para todos os santos cuidadores dessa gente forte, resistente e perseverante.

Essa janela há mais de sessenta anos, é seu porto seguro. É dela que desde criança assiste tudo que acontece ao redor. Ela é apenas uma das quatro janelas que dão vista para o caminho de quem vem na direção do casarão.

Construída em 1927, com tijolos imensos, a casa foi montada em cima de um pequeno morro, e há ao redor de toda casa um lindo alpendre com vigas grandes de madeira maciça e o piso de tijolos fortes que resistem ao tempo ainda com beleza. Para completar, há também sobre todo alpendre, seis batentes que formam uma bela escadaria   na frente da casa, tornando-a imponente e bela.

Pertenceu aos seus avós, depois aos seus pais e foi sempre com paixão e encantamento o seu verdadeiro abrigo.

Cresceu ouvindo histórias sobre esta casa, sua importância na vida daquele lugar, bem como das visitas ilustres e registradas em algumas fotos. Além, é claro, das intrigantes e inesperadas passagens dos cangaceiros e caçadores de Lampião.

Seu avô era considerado uma pessoa abastada e por essa razão, uma figura muito requisitada pelos moradores do povoado e das redondezas.

Pessoa religiosa, estava sempre presente nas louvações, novenas e ladainhas, era inclusive, o patrocinador oficial das festas juninas quando havia inverno e dos festejos de natal, já que bancava do próprio bolso as danças do pastoril e as corridas de cavalo.

Seus pais, casaram-se e por ali ficaram desfrutando de todas as benesses sociais e financeiras, uma vez que sua mãe era filha única e recebeu de presente de casamento um enorme quarto construído ao lado de uma das varandas da casa, mas com acesso direto as todas as demais dependências da casa.

Lembra-se bem de quase tudo, principalmente da alegria que reinava por ali.

Aprendeu a ler e escrever com ajuda da sua tia, irmã do seu pai que ensinava também aos meninos e meninas filhos dos trabalhadores de seu avô. Solteirona, veio logo cedo morar com seus pais e ajudava em tudo que podia. Alegre e de bem com a vida, sempre que podia juntava a meninada para contar as belas histórias, que aprendeu segundo ela, com sua mãe.

Era maravilhoso, ouvi-la contar tais narrativas. Descrevia os lugares com tanta veracidade que dava a impressão de ter estado lá. Como aquela, do amor impossível de Don Marinho e Daguimar. Até hoje está na sua memória aquela passagem dos carneiros que estavam sendo levados para a festa do casamento dele com outra e o condutor falava para o rebanho “Anda, anda carneirinho não te esquece de andar não faz como Don Marinho que esqueceu de Daguimar” (Segundo a história, quando Don Marinho, ia passando na comitiva para o casamento, ouviu aquele bordão. No mesmo instante recuperou a memória e sem contar conversa, largou tudo e foi a procura de Daguimar desesperado)

Agora estava ali, todos esses anos depois. Como sempre na janela. Até parece que foi um sonho ou como uma das muitas histórias que ouviu na infância. Não pode ter passado tudo tão depressa assim. Seus avós, seus pais, sua tia e muitos dos moradores dali já viajaram para outra galáxia.

E pensar que nunca saíra dali! Viu tudo acontecer nesse lugar. Alegria, correria, brincadeiras, festas e despedidas.

E sua vida? Toda vivida nessa casa grande! Sua infância, seus sonhos, suas brincadeiras e seus poucos amigos e amigas. Até mesmo seu único amor. Como ele era lindo! Filho do compadre de seu pai. A pediu em namoro no dia de seu aniversário, em 2 de maio. Mês das noivas. Seu pai orgulhoso e cuidadoso, consentiu, mas fazendo todas as recomendações de praxe.

Namoraram, fizeram planos e estava tudo certo que também morariam ali na casa grande. Reformaram todo o quarto que foi dos seus avós e onde inclusive a janela, a mais bonita da casa ficava de frente para a estrada.

E tinha que acontecer logo aquela tragédia? O pai do seu amor foi assassinado num dia de feira. Questão de família. Que horror! E então todos tiveram que sair às pressas daquele lugar. E o seu amor? O casamento marcado? Os papeis da igreja? E suas lágrimas intermináveis? Oh desengano!

São Paulo. Esse foi o destino. Promessas, tristezas, adiamentos. Desarrumação total e uma solidão gritante e indescritível.

Após os primeiros meses, silêncio, angústia e uma seca impiedosa que fazia com que o vento inconformado, arrastasse aqueles tufos de gravetos secos de um lado para outro como se quisesse distrair o sol causticante que rachava a terra.

Da janela, enquanto suspirava e esperava, dava para ver quando Titico apontava montado em sua égua Truvona. Quando se aproximava sorrindo e apeava nos batentes da casa. Trazia carta e os dias daquele mês ficavam bons demais!

Mas quando ele, passava direto circulando os batentes e ia apear no fundo da casa. Nada trazia, nem mesmo sorriso. Só as compras da semana.

Cartas! Tão desejadas! Palavras doces, cheias de promessas que a enchiam de esperança e fazia nascer lindos pensamentos e muitos planos. Beijava com ternura, aqueles finais das cartas onde falava: “Por favor não me esquece. Me espera que logo vou te buscar. Um beijo eu te amo, amo, amo, amo...!

Foi-se a seca, veio um inverno. Depois mais invernos, e Titico nunca mais apeou na frente de casa. Calado, cara fechada, arrumava as compras e sumia para dar agua pra sua égua e o gado. Por lá ficava.

Da janela tudo foi ficando amarelado e sem graça. Algumas vezes fazia crochê para espantar os maus pensamentos. Outras, contava para si mesma, velhas histórias dos tempos de criança e se divertia ao repetir: “entrou na perna do pinto, saiu na perna do pato, senhor rei mandou dizer que contasse vinte e quatro”

Sua vida ficara assim, empoeirada tal qual o seu casarão de quatro lindas janelas viradas para a nascente. Seus passos hoje, já eram tão lentos quanto as horas que se arrastavam penosas tornando o seu dia interminável.

Foram tantos os desenganos, que já não havia mais dor nem tristeza em seu coração. Acostumou-se à aquela rotina sem surpresas.

Resolvera não mais chorar nem reclamar. Melhor seria olhar o dia, as tardes e as noites e esperar a hora. Sem drama e sem desespero.

Dali, daquela janela, uma hora alguém passaria com carneiro ou sem carneiro e a levaria, sabe Deus pra onde. Assim: entrando na perna do tempo e saindo na perna do vento...  A moça da casa grande voou junto com a graúna.

 

 

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