Oito cantos sagrados - por Marcelo Garbine Mingau Ácido

Oito cantos sagrados - por Marcelo Garbine Mingau Ácido
 
Oito cantos sagrados
 
 
Plantei, na terra, mágica semente
 
Notei que berra, tragicamente
 
A serena Flor que vejo que brota
 
E que pena a dor, beijo idiota.
 
 
 
Néscio é o beijo desse jardineiro
 
Cresce o desejo, vê-se o corpo inteiro
 
Regozijar prazer do nascimento
 
Peculiar é o ser, novo rebento.
 
 
 
Tento explicar tamanha euforia
 
Vento do mar com sanha viria
 
Soprar a folha da ímpar Florzinha
 
Pra lá se recolha. Ela é só minha.
 
 
 
Ficam no ar, oito cantos bradados
 
A fecundar, coito santo sagrado
 
Primeiro, o semear dessa semente
 
Certeiro a cavar, apressa somente.
 
 
 
Pra que, prematura, ela nasça tão linda
 
Buquê de ternura com taça se brinda
 
Champanhe derrama-se naquela raiz
 
Estranhe a grama se tão bela Flor diz:
 
 
 
Que não é mais só verde aquele jardim
 
Em vão queres, mas vedes, que nasceu, enfim
 
Colorida, minha Flor, que exala perfume
 
Na vida tinha dor. Cala e acostume.
 
 
 
Com a doce umidade do ar que respiro
 
Como fosse a cidade brotar desse lírio
 
Eis que surgem abelhas voando nas flores
 
Tal que fulgem vermelhas, trocando as cores.
 
 
 
Em segundo, o despontar da primeira folha
 
Vem pro mundo estourar do champanhe a rolha
 
Comemora, em terceiro, o crescer fina Flor
 
É Senhora em canteiro e crê ser sina a dor.
 
 
 
A dor que, até no vegetal, forte lateja
 
Se for a pé pro verde, tal norte almeja
 
Diz: dói meus pés a caminhar florida vereda
 
Destrói deus, fés e meu altar: ferida de seda.
 
 
 
A dor suave, eu diria, é o quarto canto bento
 
Louvor, um Ave Maria, tão farto que me sento
 
No gramado. Apóio queixo e olho botão abrindo
 
E, cansado que dói, eu deixo o óleo escorrer, tão lindo.
 
 
 
Fúcsias oleosas fluem como rio no rosto abaixo
 
Núpcias tão gostosas como não se viu, meu gosto, eu acho
 
Casamento complacente foi entre Flor e homem
 
Tormento estridente, no ventre, e dor somem.
 
 
 
O quinto é a Flor banhando-se na chuva
 
Eu sinto minha dor virando-se na curva
 
Ternura: água macia que cai do firmamento
 
Já cura a mágoa e mania de “ai, que sofrimento”.
 
 
 
O sexto é, aqui, o sol que já raia amarelo, carmine
 
Contexto do si bemol que espraia Marcelo Garbine
 
Os raios que brilham e secam a ímpar Florzinha
 
Lacaios se humilham e pecam por coisa tão minha.
 
 
 
Canta o sete a fria brisa muito fresca advinda distante rochedo
 
E remete e suaviza à nababesca e tão linda amante, mais cedo
 
Minha amante é a Flor com as suas pétalas bruxuleantes que missiva malversa
 
Doravante, eu vou com minhas metas, mas puxo, antes, a flertiva conversa.
 
 
 
Carta roubada me fora, pois, se sabe Ela os meus mais íntimos segredos
 
Farta e cansada, a Flor é dois D: donzela e deus, tais ínfimos os medos
 
Pavor da pureza e do majestoso mesquinho é pequeno comparado ao cansaço
 
Repor à minha mesa meu tão gostoso vinho chileno comprado no paço.
 
 
 
O Flerte meu com a Flor no festim do palácio de malvo
 
Asserte meu que a dor no meu rim errasse o alvo
 
E fosse parar bem distante do descanso que desfrutamos
 
Tão doce e tão zen, amante, sem ranço, me escuta: te amo.
 
 
 
Enfim, o oitavo soneto sussurro à hemácia do sangue
 
O fim de um bravo dueto: casmurro e iridácea exangue
 
Florzinha bela e ereta, no fulgor da lua calma, se deleita em absinto
 
Adivinha Ela, tão certa, o amor por sua alma que, na espreita, eu tanto sinto.
 
 
Mingau Ácido (Marcelo Garbine) - @mingauacido - mingauacido.com.br 
 
 
 
 

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