Olhos de vidro - por Regina Alonso

Olhos de vidro - por Regina Alonso

Olhos de vidro

 

   Casa sempre trancada.  Janelas e portas. Nenhuma correspondência.  Vizinhança estranhava. Ninguém sabia nada. Tudo chegava por entregadores.  Pela porta dos fundos. Ninguém via nada. Alguns velhos moradores diziam que antes, dantes, ainda tempo de empregados quase escravos, a casa vivia aberta, janelas e portas escancaradas, gente indo e vindo... Festanças. Assados lá nos fundos, terra a perder de vista. Contam que eram dois os filhos. Mais pai e mãe. E o avô materno. Muitas mucamas. Cozinheiras três, e outras tantas de arrumadeiras e babás. Sem contar o cocheiro e o velho que cuidava do jardim. Ah, e o bando de crianças, filhos dos serviçais. A caçula vivia em meio dessa garotada. O primogênito, sempre esquivo. Contam que não participava das caçadas ou de qualquer diversão masculina que o pai propusesse. Tudo para ficar com a mãe.  Agarrado feito um carrapato. Assim que o pai saía, subia pelas mãos maternas até o quarto do casal. Carmela, certa vez, tentou abrir a porta. Impossível! Trancada a sete chaves. Curiosa como qualquer criança, lembrou-se da porta lateral que comunicava os quartos. Entreabriu-a e parou estarrecida. Cassiano – teria então uns oito anos no máximo –com saia e corpete de cigana, os cachos louros dos cabelos sedosos  escapando do lenço vermelho, dançava em rodopios no assoalho do quarto. No velho gramofone, a música forte invadia o espaço. A mãe, lânguida entre almofadas na cama, acompanhava os movimentos com a cabeça e um sorriso de aprovação nos lábios. Os olhos não se desviavam de Cassiano. Confusa, Carmela retrocedeu em passos furtivos. Por que a mãe não a vestira com os trajes femininos? Ela era a menina... – pensava com o entendimento possível de uma criança de cinco anos.

   E assim foi desde então, sempre que o pai se ausentava. Às indagações da filha, a mãe respondia de forma evasiva ou silenciava. E certa vez, quando à hora do jantar, Carmela interpelou-a diante do marido, queixou-se – Esta menina tem muita imaginação, Agenor! Precisamos ficar atentos!  O pai sorriu conivente. Era um homem alheio aos acontecimentos do dia a dia na casa. Vivia para caçar, cuidar dos negócios na Bolsa do Café e passar noitadas nas casas de mulheres, no centro. Desde então, a menina era constantemente vigiada. Os olhos da mãe pareciam penetrar-lhe as entranhas. Amedrontada foi silenciando, fugindo para o jardim, quando percebia a mãe e o irmão subindo a escadaria que levava aos aposentos do casal. Mas à noite, os pesadelos tornaram-se constantes – seus gritos e palavras desconexas atravessavam as paredes. A mulher sugeriu ao marido que Carmela deveria ir para um colégio interno. Ele só observou – E Cassiano não deveria também aprimorar seus estudos? E ela rápida, com uma voz disfarçada – Agenor, só lhe faço este pedido porque Carmela é muito tímida. Na escola a mestra queixou-se de seu comportamento esquivo e de suas notas cada vez mais baixas... Cassiano terá educação com preceptores aqui em casa. Francês ele aprenderá comigo! Não se preocupe!

   Nas semanas seguintes, providenciou o enxoval da filha para o internato. Carmela estava com dez anos. Alva de pálida não expressava a mínima reação. Nem quando a levaram à estação para pegar o trem, acompanhada de sua velha babá. Nem pai nem mãe nem Cassiano para o último adeus. Despediram-se em casa – a mãe, sem disfarçar o alívio; o irmão com um abraço frouxo e o pai distraído, pensando nos negócios e no último xodó que o esperava na cidade.

   Dois anos já se haviam passado. Aquela era a primeira carta. Em poucas linhas, a mãe avisava que o pai morrera numa caçada. Nenhuma visita, nem o convite para Carmela passar uns dias em casa. Irmã Lúcia percebera,  desde sua chegada, que a menina era inteligente, sensível e traumatizada. Não conseguiu que a pequena lhe contasse seus tormentos, mas com sua presença e carinho, Carmela começou a abrir os olhos para o mundo. Embora discreta, fez amizade com as colegas e com as freiras, especialmente com Irmã Lúcia. Foi crescendo, demonstrando grande facilidade para as línguas e para História. Interessava-se especialmente por tudo o que se referisse às outras raças. Irmã Lúcia escreveu à mãe explicando-lhe que a filha deveria cursar uma faculdade no exterior. Após alguma resistência, a mãe finalmente concordou e a Diretora do internato foi ao casarão tratar de tudo: viagem, passaporte, despesas. Carmela nunca mais se encontrara com o irmão nem com a mãe e já haviam se passado oito anos! Embarcou para a Europa, despedindo-se apenas de Irmã Lúcia e algumas amigas do internato.

   Na França, nenhuma dificuldade de adaptação. Habituara-se a ser só. Formada com mérito, uma editora contratou-a como tradutora. Tornou-se independente. O passado cada vez mais distante. Não recebera resposta de nenhuma das cartas que enviara à mãe. Desde então, nunca mais enviou ou recebeu notícias. Conheceu o amor. Algumas desilusões. Nada que não pudesse enfrentar. E numa viagem de férias à Espanha, conheceu Eduardo. Passou a residir em Sevilha. Ainda não tinham filhos... Carmela não se sentia preparada para tê-los.  Foi quando chegou o telegrama remetido pelo Doutor Inácio de Souza e Melo, advogado. Precisava retornar à cidade natal para resolver problemas de herança. Eduardo não poderia acompanhá-la. A firma de construção exigia sua presença, pois estavam dando andamento a vários projetos. Carmela embarcou. No aeroporto, mais uma vez sozinha.

   No longo trajeto da capital até a cidadezinha, não lhe afloravam lembranças daquelas paragens. Um estranhamento. Quando o carro se aproximou dos arredores da morada, percebeu os olhares curiosos da vizinhança. O Doutor Inácio já estava no alpendre. Carmela percebeu o abandono. O mato invadindo o jardim, agora sem nenhuma flor. O portão de ferro rangendo. Um vitral da porta de entrada rachado. O advogado levantou-se da cadeira capenga e entregou-lhe um molho de chaves. Carmela não disse uma palavra. Ao girar a chave na fechadura, abriu a porta e viu a escadaria. O olhar da mãe parecia atravessar-lhe a alma. Cambaleou. Apoiou-se numa poltrona, enquanto o advogado procurava o quadro de luz. O pó invadiu a sala. Os panos encobriam os móveis e no lusco-fusco da tardinha a casa assumia um aspecto fantasmagórico. Inácio estendeu-lhe uma pasta, logo que conseguiu iluminar a sala. Ela agradeceu num murmúrio, sentando-se e fazendo-lhe sinal para acomodar-se. Dentro da pasta, os atestados de óbito – do pai, da mãe e do irmão; este falecera há uma semana. – Não conseguimos localizá-la em tempo!... Em sua cabeça, um turbilhão. Não conseguia esboçar  qualquer reação, explicar-lhe que nem sabia da morte da mãe.  O advogado continuou – Quem nos ajudou foi a filha de uma criada que mora num arrabalde. Ela nos avisou do internato e pudemos rastrear você. E vendo o olhar perdido e as mãos trêmulas de Carmela – Bem, eu espero lá fora, se você quiser visitar a casa... Não mexemos em nada! A partir de amanhã, tratamos do inventário.

   Carmela estava atoleimada entre o desejo de correr para fora e o de percorrer a velha morada. Caminhou até a cozinha. Um prato lascado e um garfo torto na pia. Abriu um dos armários – só enlatados. O velho fogão à lenha coberto por espessa camada de gordura indicava que não era limpo há muito tempo. No tampo de madeira da mesa, entre restos de comidas, baratas faziam a festa! Voltou-se apressada e começou a subir a escadaria. Não havia mais tempo para hesitações. Empurrou a porta entreaberta do quarto dos pais. Uma luz difusa penetrava vagamente pelas cortinas da janela. Sentia mil olhos espreitando-a. Suando tateou pela parede. Nada. Até que as mãos trêmulas encontraram o interruptor.  A luz invadiu o aposento. Sobre a larga cama, sobre os tapetes laterais, criados-mudos, penteadeira, poltrona, em cima do guarda-roupa e até pelo chão, milhares de olhos fitavam-na. Olhos fixos de bonecas de todos os tipos e tamanhos! Carmela gritou deixando extravasar o medo de tantos anos! Foi escorregando até o chão, onde num espaço exíguo rente à parede, um colchão rasgado e um roupão feminino puído indicava que alguém dormira ali por muito tempo.  – Foi aí que encontraram seu irmão. Ele delirava! Tentava erguer-se e dançar. O rosto ferido. O corpo esquálido. A ambulância logo chegou. Morreu naquela noite... Inácio falava,erguendo-a. Carmela respirou fundo  buscando forças para ir ao quarto contíguo. Nas camas, só roupas da mãe, vestidos, xales, lenços, roupas íntimas, chapéus, sapatos de salto, meias de seda... Nos armários idem, nenhuma peça masculina. O advogado monossilábico e discreto – Bem, o enterro... Um terno e camisa providenciamos...

   Desceu as escadas apoiada no braço do advogado. Trancaram a casa. Impossível trancar o passado, Carmela pensava no trajeto de carro até o hotel. Agradeceu a carona e combinou com Inácio reunião em seu escritório para o andamento do inventário. Ligou para o marido. Iria demorar-se mais do que esperava... Inácio ajudou-a a localizar o internato. A nova Diretora agradeceu a doação. A casa e o terreno serviriam para abrigar necessitados, especialmente crianças e jovens dos arredores. Papéis assinados. Malas prontas. Carmela fez a primeira visita ao cemitério da cidade natal. Um ramo de flores na sepultura. Uma prece pelos que a precederam. Uma prece à vida que retornaria enchendo de luz a velha morada. Apressou os passos. Precisava chegar logo ao aeroporto. Retornar à casa. À sua casa. E espalhar novas sementes.

 

 

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