Os Meus Becos - por Lígia Beltrão

Os Meus Becos - por Lígia Beltrão

                                           

Os Meus Becos

 Lígia Beltrão

 

       Lembro os becos da minha infância, cortando a rua ladeirosa em que morava. Eram estreitos e escuros. Lugar perfeito para o esconderijo da meninada nas suaves noites de verão, quando brincávamos de escondermo-nos uns dos outros. Noite alumiada pelas estrelas dos nossos olhos de crianças, com risos soltos a perderem-se pela cidade que nos viu crescer. Alguém contava até trinta e um, enquanto os outros corriam a esconderem-se no lugar mais difícil possível, para não ser encontrado por aquele que ficou contando. Coitado do que fosse achado logo, seria o próximo a contar e procurar os outros. Era uma turma tão grande. Tão alegre.

       Quando não estávamos a nos esconder ficávamos todos sentados no meio fio da calçada cantando, aplaudidos pelo vento que sorrateiro, trazia a brisa da noite para acariciar nossos rostos cobertos de felicidade. E os pobres vizinhos, como sofriam conosco, quando todos, valentes, invadiam os jardins cobertos de rosas de todas as cores e surrupiavam algumas, tocando em seguida as campainhas, assim mostrando a grande coragem de desafiar a brabeza dos mais velhos, pobres incomodados, para sairmos depois em desembalada carreira com o calcanhar quase batendo nas bundas... Corajosos?  Pois sim, naquele momento era salve-se quem puder, era cada um por si. Era tão bom!

Recolho-me nos versos de Cora Coralina para recordar, porque parece que todos os becos são iguais, seja lá onde for.

       “Beco da minha terra... / Amo tua paisagem triste, ausente e suja./ Teu ar sombrio. Tua velha umidade andrajosa./ Teu lodo negro, esverdeado, escorregadio. / E a réstia de sol que ao meio-dia desce fugidia, / e semeia polmes dourados no teu lixo pobre, / calçando de ouro a sandália velha, jogada no teu monturo. / Amo a prantina silenciosa do teu fio de água, / descendo de quintais escusos sem pressa,/ e se sumindo depressa na brecha de um velho cano./ Amo a avenca delicada que renasce / na frincha de teus muros empenados,/ e a plantinha desvalida, de caule mole / que se defende, viceja e floresce / no agasalho de tua sombra úmida e calada”.

       Hoje caminho pelos meus becos da saudade. Estou só. Os meus amigos daquele tempo escondem-se agora, em outros becos. Os becos espalhados pela vida. Foram arruar pelo mundo. A nossa infância escondeu-se, no manto do tempo. As recordações fazem-me enxugar os olhos, agora perdidos nas imagens do inconsciente, guardadas como um tesouro. Percorro os meus becos em silencio. Não sei em que parte deles eu me perdi. Onde estão escondidos os meus amigos? Alguns eu ainda encontro de quando em vez. Muitos, a distância levou. O meu tempo está chamuscado de cinzas de um passado tão presente. A ansiedade me rouba as horas como se a vida estivesse por acabar, mas uma inesgotável vontade me leva a começar de novo. Quero apreender o mundo inteiro em minhas mãos. Ao menos o meu mundo. Eu sei que só eu posso molda-lo e vive-lo como se deve. Apesar dos medos que me fizeram recuar tantas vezes, há dentro de mim uma força inexplicável que me impulsiona pra frente. Preciso vencer o escuro dos meus becos. Encontrar a saída e correr, para não ser vencida pela estagnação do tempo. Preciso encontrar as alamedas abertas e floridas, onde o sol se derrama em dourado com o atrevimento da sua luz. 

 

 

 

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