Para ser... - por Regina Alonso

Para ser... - por Regina Alonso

Para ser...     

                                                                                                                      Regina Alonso 

   Barriga enorme! Apostava que seriam gêmeos. A ginecologista comentou sobre a quantidade excessiva de líquido amniótico... olhou para seus pés inchados e recomendou que fizesse um aborto. Então ela não sabia que carregava esse filho há sete meses por decisão própria de ser mãe? Mesmo solteira. Não sabia que amava o filho desde a notícia confirmando a gravidez, que a vida habitava em seu berço-útero? Saiu do consultório indignada.

   Aos oito meses, a cesárea inesperada. Nas camas ao lado, as mães amamentavam os filhos. O seu, no berço ao lado. As enfermeiras alegavam que não podia levantar, pois estava com sonda. Ela olhava o bebe inerte.  Desesperou-se. A médica autorizou, por telefone, a retirada da sonda. De pé, aproximou-se do filho. Estranhou sua quietude, ainda sem abrir os olhos, sem mamar...  Nela, a percepção de algo diferente, mas ninguém lhe explicava nada. E apressaram-se em dar-lhe alta. Em casa, o filho não sugava o seio, não sugava a chuquinha...  Continuava sem alimentação, nem mesmo água e ao trocar a fralda, o xixi com sangue! A corrida ao hospital, a negativa em receber a criança recém-nascida com a desculpa “esfarrapada”: ela ainda não tinha a carteirinha do plano de saúde! A amiga que a acompanhava lembrou-se de  outro hospital, onde ela e o filho foram internados. Ali a palavra DOWN pronunciada. Nela a imagem do filho de uma vizinha, que diziam ser mongol, sempre de língua para fora, babando... E desabou num choro convulsivo.

   – Por que está chorando? – perguntou-lhe um médico da equipe.

   – Down não é retardamento?! – ela , entre soluços...

   Ele recomendou que fosse a uma ONG. Foi atendida por um rapaz digitando... um down, que lhe revelou:

   – Tenho trabalho. Estudo, nado, sou surfista...

   Agora ela entendia as outras palavras do médico:  “Seu filho vai ser o que você quiser”!

   No hospital, o ensinamento. O filho aprende a sugar. Com a psicóloga, ela aprende a  “enxergar” o que está acontecendo e o que ainda virá... No retorno à ginecologista para retirar os pontos da cesárea, questiona o silêncio na hora nascimento de seu filho.

   – Não se diz à mãe, assim, de chofre, que seu filho é Down.

   – É... melhor  deixá-lo morrer de fome e sede...

   Aprende a olhar o filho de frente. Olhar as pessoas de frente e dizer:

   – Meu filho é Down!

   Incentiva-o desde sempre. O preconceito à espreita... Fisioterapia pelo plano de saúde é negada ao filho. Ela não desiste. Observa que o menino tem muito ritmo; provoca-o em todas as situações possíveis. A família também, estabelecendo-se uma relação amorável. E continua na busca de alternativas para desenvolver e educar o filho, equilibrando o orçamento! Descobre que tem direito a um salário normativo, quando ele já está com três anos. Contrata uma babá para o período em que está trabalhando. Tenta novas matrículas. Novas escolas. Particulares. Públicas. E a rejeição explicita-se num laudo expedido por uma dessas instituições: “criança sem memória, com ruídos animalescos, sem sentido...” 

   Entra em depressão. Mas não desiste!

   – Ele é bonitinho – alguém comenta com expressão de repulsa.

   – Ele tem Síndrome de Down – responde sem pestanejar.

   E recomeça a busca pelo direito de seu filho ser matriculado, ser educado. Novas recusas até em escolas particulares e caras. Não desiste. “Seu filho vai ser o que você quiser”, ainda martelando em sua cabeça. No local onde trabalha, cria um Projeto de responsabilidade social, preparando e inserindo no mercado de trabalho, jovens com síndromes. Sabe que é preciso somar forças, fazer cumprir o ECA, garantindo-lhes seus direitos para que possam cumprir seus deveres.  Com o apoio do dono da padaria de seu bairro, solicita que o filho faça compras, lide com dinheiro, aprendendo a ser independente.  Porém, na escola, novos traumas: o filho cada dia mais agitado... por oito meses, impedido de freqüentar o recreio, preso em sala de aula, sob acusação de proferir frases indecorosas... ele que nem completava uma frase sequer! Retira-o, decepcionada desse espaço deseducativo, mantendo-o somente numa ONG local.

   Finalmente consegue matrícula em escola municipal. De mangas sempre arregaçadas, mantém estreita relação com a professora auxiliar, para que troquem observações e lidem da melhor forma com a educação das crianças. Do contato com outra mãe de filho down, chega ao Espaço “ROLIDEI”. O filho matricula-se no Projeto Encontros. Ali, as aulas de teatro com todos: “normais” e... Down, Asperger... pretos, brancos, pardos... gordos, magros, altos baixos... Seu filho torna-se cada vez mais disciplinado, organizando sua agenda: futebol, escola... ”Rolidei”! Dias antes do Encontro, já começa a se preparar e não admite faltar! AMA O ESPAÇO! Aos sábados, ela e o filho retornam para novo encontro, agora, transformado numa “ balada”, não só com amigos do projeto, mas com pessoas da comunidade, as mais diversas, conversando, dançando... participando por inteiro! Juntos, celebram a vida!

    Aos domingos, em seu triciclo, o adolescente entrega nas proximidades, pacotes entre as casas. Está cada vez mais desenvolvido e independente. Essa constatação acalma a mãe, que também organiza melhor sua vida e seus horários, para juntos irem ao “Rolidei”. Ali o calor humano, o convívio franco e respeitoso entre todos é a prática! ECA é AÇÃO! O filho ainda grudado nela, pois o down tem essa ligação intensa com a mãe... Mas hoje, com sua convivência naquele espaço, exerce direitos e deveres, cada vez mais independente: reconhece os caminhos, faz referências com a casa de familiares, amigos, escola... Tem respostas imediatas, pensamento mais rápido e capacidade de decidir. Em seu aniversário, à hora dos Parabéns, pediu silêncio e agradeceu aos familiares, professores, amigos, de forma pertinente e amorosa. Ela vê o filho formando personalidade própria, com segurança e o principal: feliz! Ele sabe que tem síndrome de Down e enfrenta com tranqüilidade, os obstáculos e discussões provocados pelo preconceito.  Os medos maiores são da mãe... ela sabe!

   Hoje se percebe bem mais fortalecida - no ROLIDEI entende o ECA constatando: ali a inclusão é real e pode ser exercida em todos os espaços! Ali o que é para seu filho é para todos: regras, combinados, atividades iguais. Direitos respeitados. Deveres cumpridos.

   O filho está um adolescente em desenvolvimento pleno! Quer acontecer, quer viver, contar histórias... no “Rolidei” e no mundo. Sua mãe, agora com o coração acolhido, exercita e replica junto! Ao lado das outras mães aprendeu a dividir e compartir! Juntas, no convívio, nas oficinas de reciclagem e costura, as experiências trocadas, as dores, os risos, os fazeres com seus pares e outros...outros tantos que virão para  “ser”  e acontecer a cada novo dia feliz!

 

Obs - o texto é baseado em fato real e foi autorizada a publicação pela responsável.

 

 

Publicado em 09/04/2014

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