Parede - por Alvaro Giesta

Parede - por Alvaro Giesta

Parede, 20/03/2009

 

Meu caro Mestre

 

Hoje caí nesta reflexão: "Pensar, não é dizer o já pensado ou esclarecer o esclarecido".

Li isto em qualquer lado, penso. Ou então acordei de qualquer sono mal dormido com esta máxima sonhada, que me fez pensar e decidir-me por escrever-lhe.

Sei que temos muito a dizer um ao outro. Nestes tempos que correm pouco o temos feito, distanciados que começamos a estar - embora habitemos paredes meias no amontoado de papéis sobre a mesma secretária.

 

O meu caro Mestre tem-se mantido fiel à velha forma de escrever, com as palavras obedecendo às relações gramaticais. Teima em não separar o significado do significante, e é isto que lhe confere, reconheço, ser a sua poesia do melhor quilate.

Mas... você pensa o já pensado; esclarece o já esclarecido.

Este seu velho e teimoso amigo, teima em dizer que - em dizer-lhe que - "pensar, não é dizer o já pensado" ou "esclarecer, não é afirmar o já esclarecido". Desculpe-me, mas parece-me que, de alguma maneira, eu evoluí na forma de pensar poesia e você ficou parado no tempo. Estático. E, forçoso é evoluir, ainda que tenhamos de regressar às origens para, a partir daí, desvendarmos novos sóis.

 

Entendo - e penso que entendo bem! - que as forças condutoras dum poema, devem ser "impulsões de linguagem"; devem ser palavras escritas no espaço e no tempo, que não obedeçam às relações gramaticais - sem serem desconexas e desprovidas de sentido, como o faziam, na 2.ª metade do século passado, certos poetas da nossa praça - mas que "condensem, em si, as múltiplas virtualidades significativas".

Dizia eu, acima, que as palavras que constroem o poema, conquanto não obedeçam às regras gramaticais, não devem ser desconexas e desprovidas de sentido! E dizia, e digo, muito bem. Porque, se isto se verificar, proliferará no texto a falta de coerência. E falta disso - de coerência - já nós temos em excesso nos escrevinhadores de hoje.

O poema, embora escrito sob o signo da liberdade, furtando-se ao constrangimento das normas para dar toda a liberdade de pensar a quem o interpreta, não deve prescindir da sua coerência interna, para poder transmitir aos outros a experiência vivida pelo poeta, no momento da sua criação poética. Creia, meu velho amigo e mui digno mestre, que é esta a minha forma de pensar actual, mas não nego que já pensei como você, no antigamente.

 

Dir-me-á que fui contaminado pela modernice... e dirá muito bem! Dir-me-á que é para fazer crer a quem me lê que vou "na onda" ou que é para fazer dar um certo "volte face" nos editores que proliferam por aí, à procura de coisas novas, se bem que muitos só para seu proveito o façam... dirá muito mal!

Sabe o meu amigo, que já me conhece há quase seis décadas, que não embarco em futebóis, arbitrados por outros. O futebol, que eu jogo, é meu, e o árbitro dos meus jogos, sou apenas eu e mais ninguém!

Talvez a minha massa cinzenta se tenha desenvolvido, não sei em que sentido, com o passar dos anos (normalmente acontece o inverso) mas, afianço-lhe, que tudo isto é mais fruto dessa evolução encefálica, do que influência dos poetas actuais que quase não leio, e de quem, até, quase nem sei nomes.

Isto, sim, é que é falta de conhecer e caminho para que prolifere em mim a ignorância. Mas não tenho paciência para ler "coisas" que não entendo, tão descontextualizadas elas se apresentam ao meu entendimento...

Bem: hoje fico-me por aqui, nesta escassa dúzia dúzia de cartas que há tempos pensei em lhe escrever - curtas cartas para não o maçar na leitura, de que esta é a primeira. Sempre vou preenchendo, da maneira que gosto, os meus dias que estavam correndo tão vazios. Pois o meu amigo sabe que nada me apraz mais do que a escrita, e de que não existe passatempo, mais culto e útil, do que rabiscarmos os nossos pensamentos, que mais não seja para os legarmos aos vindouros.

 

Atentamente, o seu pseudónimo

Alvaro Giesta

 

PS: mando-lhe “os sonhos dum tempo novo” que escrevi, numa dessas viagens de meia hora, do Cais do Sodré à Parede, ao som do pouca-terra do comboio eléctrico, num fim de março ventoso. Talvez, um dia, integre um livro de poemas…

 

“doem-me os dedos de silêncio

crispados

na ânsia de ser tempo,

 

dentro

da hora ainda absorta

inexplicavelmente dos porquês.

 

incompreensivelmente

nasce trovejante no meu mar interior

de marés intensas,

a esperança

de nascer breve e ser

a lucidez

 

onde a noite se estilhaça

e ganha o dia a sua infância.

 

não há manhãs exaustas

no secreto tempo,

 

apenas sonhos por sonhar

e de, no criar,

ser ânsia”

 

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© Alvaro Giesta (poesia e crítica literária)

Não escrevo segundo as normas do novo acordo ortográfico
in "Palavras Críticas" (crónicas, a publicar)

 

 

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