Partiste sem mim - por Carmen Jacques Larroza

Partiste sem mim - por Carmen Jacques Larroza

 Partiste sem mim

 

Eu vi. Já esperava. No entanto, não acreditei. Chegara o fim. Partias. E, pior, sem chance de regresso. Poderia gritar, suplicar de joelhos e não me darias uma segunda oportunidade de continuarmos a dois. 

Na hora do adeus, olhaste para mim. Olhos de vidro, fitavam-me. Não me viam. Simplesmente, contemplavam a nova vida, que te esperava. Braços abertos, além de um horizonte, só teu. Fui excluída. 

Olhar fixo, perdido no nada e, no nada, se fechava. Sem me ver. Pergunto o que não posso calar. O que contemplavas, quando tuas retinas se fecharam num peso de morte e olhavas para mim? Contudo, sei que me viste, ainda que por um milésimo de segundo, na hora do adeus, a fim de guardares, para a eternidade, um par de olhos, que muito te contemplaram, brilhantes de amor. 

Tua última imagem da vida foi vista com olhos serenos,calmos... 

A minha foi uma imagem molhada, salgada, desaguada na boca. Visão de dor, porém, resignada. Era o adeus dito pela última vez, embora, fosse suspirado a cada dia, porque te foste devagarinho.

E, assim, se deu, profundamente, teu último sopro de vida; sob essas mãos que deslisavam em tua face sem vida, em um último toque . Mãos que te acariciaram e deslizaram apaixonadas, durante uma vida.

Contudo, parecias feliz, porque deixavas, para sempre, o sofrimento, as injeções, o soro, as veias rompidas, os medicamentos, a dor... Porém, deixaste, também, a quem, jamais, vai esperar o teu regresso, ao lar, nos fins de tarde. Deixaste, no relógio, a hora marcada da volta rotineira. Deixaste uma casa vazia, um lugar vago à mesa e o frio em uma cama no quarto.

Vi , naquele instante, que na estação da vida, embarcavas para uma viagem sem volta. Era o fim de uma hospedagem terrena. Aqui, eras estrangeiro peregrino. Por isso, o retorno à Casa Paterna; no último lugar, do Trem das Onze, conforme diz a música,que gostavas de cantar. 

Parecia mentira que eu, ali, em pé, bem juntinho de ti, à tua cabeceira, acariciando teu rosto, tão querido; era testemunha ocular, do teu voo de liberdade, do teu planar nas alturas rumo ao lugar, ao qual teu "Jesus foi a frente, preparar um lindo lar" para ti. Era assim, que crias. É assim que é. É, lá, que vives agora.

Por vezes, pensei viver, um sonho mau. Agora, no meu dia-a-dia, vejo que não é um pesadelo. É a minha realidade que segue rumo à Estação do Trem das Onze, até ... que me reste um lugar e viaje para "um lindo lar, construído por Ele. Quando? Não sei...

 

 

 

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