Perna de pau - por Regina Alonso

Perna de pau - por Regina Alonso

Perna de pau                                                                                  
 

Regina Alonso

 

 Toque toque da perna de pau nas Calçadas do Mercado. O barulho atraía donas de casa às sacadas dos sobrados,  esquecidas agora, de seus tantos afazeres. Crianças e marmanjos "empoleirados" faziam a viagem nas alturas, quase acrobatas tocando o céu... Risadas explodiam. Vendedores ambulantes afastavam-se para a passagem do cortejo de gigantes. Nos porões dos sobrados a molecada preparava o "trampolim" com restos de madeira das marcenarias do bairro, martelo e pregos das caixas de ferramenta dos pais... experimentavam entre tombos e zombarias, até acertar a altura do pedal, apoio para pés de tantos tamanhos.

Ao longo do Rio do Bugre, Zona Noroeste de Santos, revejo as pernas-de-pau. Pernas que não me trazem o toc toc alegre dos tempos de menina. Pernas do Dique, conjunto de favelas erguidas em 700mil m² entre os municípios de Santos e São Vicente. Pernas de estreitas vigas de madeira, que sustentam frágeis barracos e a esperança de milhares de moradores marginalizados da sociedade.  Sobre as palafitas o crescimento perverso de bairros operários sem nenhum planejamento urbanístico. Favelas, bolsões de miséria para onde os trabalhadores desempregados ou as pessoas de baixíssima renda são expulsos.

Convivendo com alguns desses moradores através  do Instituto Arte no Dique e Ong TamTam, adentro a região da Vila Gilda pela via do teatro. Teatro-reflexão. Teatro-denúncia. Teatro-palafita ressoando no palco o toc toc da (des)construção da cirurgia para a extinção das pernas frágeis... para o reerguer do homem sobre bases sólidas. O importante não é a casa em que habitamos... O importante é a casa que nos habita e na dramaturgia coletiva ouvimos a voz dos moradores...

 As águas do Bugre pulsam com a maré, enchendo ou vazando... Vaza também o grito dos excluídos que aprendem a cidade real. Ao ritmo do mar, sobre a vegetação nativa, moradias... entulho lixo dejetos... homens crianças urubus.  Atores viventes dos caminhos de São José, e São Sebastião ultrapassam, no palco, esses caminhos do Dique  e conhecem em si mesmo, suas faltas e lutas. Verminoses, doenças de pele e pulmonares.

Entre as sombras do trançado de fios elétricos, o ar pesado como o bafejo da maré... a terra a lama... rampas de ripas de madeira... tábuas podres, placas de zinco, lonas plásticas. Súbito a bicicleta, o vaso de flores, os varais estendidos num pequeno largo... Também inesperado o morrer das passarelas numa sacada, num trapiche, num ancoradouro... sobre as águas putrefatas, barcos coloridos... Ar denso, misto de fedor de esgoto, de sal da maré e fumaça do lixo queimado.

Sambaiatuba não é samba, irmão! Montanha de lixo, 34 mil m² que ocupam parte da margem de São Vicente do rio.  Principal responsável pelos baixos índices de oxigenação das águas do Bugre. Famílias sobrevivem como catadores de lixo, retirando material reciclável e até alimentos para consumir.

Lixo e entulho no cotidiano do Dique, cotidiano que entre as frinchas mal vedadas dos casebres vaza como as águas da maré. Nenhuma privacidade, nem para amar... E fora, nos caminhos, uma bala perdida, um corpo (nem sempre de boneca) boiando na maré... As águas vão engolir o mangue? Maré cheia quer entrar pelo chão, casa-quase-barco ao balanço da ventania destelhada...

Águas-quintal de crianças que navegam em pranchas de tocos de madeira, olhando a cidade-mangue através de lunetas inventadas com garrafas plásticas... piratas na conquista do espaço real entre os castigos das mães, que temem os perigos dessas brincadeiras. Crianças reclusas nos barracos... de olhar tímido como os animais enjaulados. Crianças que crescem, casam-se ali, repetindo de geração em geração, o toc toc surdo das pernas de pau (imóveis?) fincadas no mangue: Mãe, a maré encheu... levou meu barroco! Perdi tudo...

No teatro, Renato Di Renzo amplia a viagem no tempo-história... escravos, ... história do Carnaval, tempo possível de alegria, de esperança. História que se confunde com a voz do mangue das palafitas...  Dique e a travessia da Última Ponte. Lixo vira luxo. Toc toc na lata, estandarte na mão! O Dique pede passagem, mano!

 

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