Pessoas Invisíveis - por Mirian M. de Oliveira

Pessoas Invisíveis - por Mirian M. de Oliveira

Por Mirian Meneses de Oliveira

Uma lanchonete de rodoviária, uma garçonete... e uma ficha em minha mão. Pronomes indefinidos, cena definida e crônica por fazer!

A cena nem é tão interessante assim... mas meu ser teima em refletir! Luto contra o tempo: olho para o relógio e para a garçonete... tento pronunciar algo e ela me “dá as costas”! Sou invisível naquele momento!

Nem sei por que estou ali, se nem mesmo um sanduíche consigo comer. Acho que entrei no local errado, por acaso, para refletir sobre a “invisibilidade dos seres”. Que coisa mais ridícula acabei de pronunciar! Entrei, porque estava com fome. Só isso! Mas a reflexão foi inevitável. Durante longos minutos, decorei “detalhes” das paredes: buraquinhos, teias de aranha, quadros e tabelas de “coisas”, entretanto fui incapaz de prender à mente a fisionomia da moça.

Não sei quem foi mais invisível naquele momento! A moça ou eu?

Não lemos, somente, “letras”! Isso é fato! Lemos o mundo, imagens, cenários, pessoas...

Lemos pessoas? Boa pergunta!

Seres humanos entravam e saíam da lanchonete, como formigas de um tronco de árvore... É interessante esse nosso lado formiga! Esbarramos umas nas outras e, através de uma espécie de radar, “copulamos”, ou desviamo-nos silenciosamente. Pois bem!... Ao acionar seu radar, a garçonete me viu, mas não me enxergou (ou vice-versa). Desviou-se de minha fichinha “balançante” e vislumbrou um vasto horizonte, através de minha carne transparente.

Não briguei com a garota-formiga, tão transparente quanto eu... Não briguei com ninguém, para falar a verdade!

Naquele momento patético, em que a ficha se balançava, praticamente, sozinha, percebi que a lei da ação e reação é, extremamente, comum em nossa rotina “humanicóide” (neologismo estranho). Dezenas de pessoas passam todos os dias pela lanchonete e observam detalhes das paredes, dos quadros, do cenário... enfim... poucos veem a garçonete, tão invisível em sua humana condição, como qualquer um de nós! Afinal de contas, esquecemo-nos de “ler” as pessoas! Normal que ela também deixe de enxergar!

As coisas se humanizam e as pessoas se coisificam. A fichinha adquiriu vida própria e, sem perceber, como ocorreu de fato, vi-me com o sanduíche entre os dentes, em uma atitude-mecânica. Triste? Podemos tentar outra história...ou ficar com as reticências...

 

Publicado 20/12

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