Pindorama, na (pré) visão de Isaias - por Antonio Eustáquio Marciano

Pindorama, na (pré) visão de Isaias - por Antonio Eustáquio Marciano

 Pindorama, na (pré) visão de Isaias

 

Ontem, junto com outros, fui a um barzinho comemorar o aniversário de quarenta anos do nosso amigo Jonas. É muito bom estar por perto das amizades verdadeiras. Tenho grande admiração pelo Jonas. Competente profissional, é amigo dos amigos e sempre boa companhia. Procura estar constantemente elegante, sabe se vestir bem e se manter com aparência jovial. Ontem usava calça jeans azul marinho, camisa gola polo laranja, sapato esportivo preto de cadarço e meias azuis, tudo da melhor marca. Em casa, antes de dormir, sem querer, me pus a refletir sobre algo que eu não havia pensado ainda: quarenta e um anos atrás, nada do Jonas existia. Daqui a 80 anos, certamente nada mais dele existirá, a não ser os elementos químicos que compõem o seu corpo físico. Estes, aprendi na escola, não mudam nem se desfazem jamais. Inferi que o Jonas pode escolher as roupas que vai usar e faz isto muito bem. Isto significa que Jonas é senhor da sua vida, no que tange ao vestir, ao comer, em onde passear, onde trabalhar. Mas o Jonas, pensei, não foi senhor da escolha da cor da sua pele, do tipo e cor dos cabelos, da estatura, tampouco se queria nascer homem ou mulher. Ele também não pôde escolher onde, de quem ou em que lugar deveria nascer Entendi que o meu amigo é senhor apenas de parte da sua vida, a parte menos importante. Indo adiante na minha elucubração, conclui que somos todos senhores de uma parte da nossa vida. Mas e da outra parte, quem ou o que é o senhor?

Confesso que fiquei assustado. Quem é este que é senhor da minha vinda pra este mundo e é senhor também da minha ida?

Lembrei-me da minha mãe, há muito tempo falecida. Ouvi muitas vezes dela coisas do tipo: “filho é deus quem manda!”. Conclui, então que, para minha mãe, o senhor de tudo era o que ela chamou “deus”. Sim, ela sempre estivera convicta que era deus quem mandava em tudo. Minha mãe morreu cedo, então não tive tempo de discutir este assunto com ela. Que é deus? Quem é deus? Fui atrás da origem da palavra deus. Encontrei algumas pistas: “fonte”, “origem”, “chamar, invocar”, “aquilo que é” e mais alguns outros. O certo é que não consegui ver sentido em se usar a palavra deus em minúscula ou maiúscula, pelo simples motivo de que ela tem vários significados etimológicos, morfológicos e subjetivos. Em algumas falas ou escritos antigos ou recentes, vi a palavra sendo usada num sentido muito pessoal: “meu deus”. Deduzi que talvez haja um deus ou vários deuses para cada ser humano. Achei melhor desistir da palavra deus.

Volto ao meu amigo Jonas, no qual pensei muito antes de dormir, para dizer que me convenci de que há, sim, algo ou alguém que é senhor nosso. Ele mandou Jonas pra cá da forma que quis, não foi o Jonas que escolheu vir. Ele vai levar Jonas quando quiser. Não posso concluir que haja outro senhor que não este. Aceitei esta realidade. Nós todos temos um senhor que nos manda e nos requer de volta.

Mas eu não estava satisfeito. Faltava saber se este senhor, que eu descobri analisando Jonas, era bom ou mau, confiável ou não. Pensei novamente em minha mãe. Eu gostava dela. Foi muito duro vê-la partir para sempre. Eu era garoto ainda. Eu confiava muito nela. Ela gostava muito de mim. Lembro-me agora de que me disseram: “Deus quis assim”. Eu pensei: tudo bem, mas por que este deus tinha que escolher pra levar logo minha mãe? Mas depois esqueci o assunto até este momento. Lembrei que minha mãe era cristã. Ela ia à Igreja. Tentou me levar, mas eu era meio rebelde. Não gostava de ver o padre falando. Nada me acrescentava, pensava eu. Aquele rito me cansava nas poucas vezes que fui.

Eu não conseguia dormir. Minha mãe parecia estar ali perto de mim naquele momento. Ela fora uma pessoa feliz, só foi ficando triste quando adoeceu. Pensei de novo no enigma da vida do meu amigo. Quem o trouxe para aqui? Quem o levará daqui? Lembrei-me do livro de mamãe: a Bíblia. Fui buscar uma Bíblia grandona que mamãe costumava deixar sobre a cômoda da sala. Ainda estava nas coisas dela que eu preservei por mais de vinte anos. Eu pouco sabia sobre aquele livro, então resolvi abrir em qualquer parte. Não custava nada mesmo. A página dizia ser do profeta Isaias, capítulo 8, 5-12. À medida que ia lendo o texto, percebia que eu compreendia e me identificava com o que o autor dizia. Fui ficando cada vez mais pasmado. Voltei ao início do texto. Uma nota dizia que talvez ele tivesse sido escrito no século VIII antes de Cristo. Isto foi a dois mil e oitocentos anos. Contudo, parecia que eu estava lendo um texto da minha década!

 

Ele dizia que se esvaziaria a autoridade dos homens e mulheres de poder, das Forças Armadas, do Judiciário, do Padre, da Freira, do Pastor, do Pai e da Mãe de Santo, do Médium. Os que falam a verdade, os que têm poder de prever as catástrofes, pela experiência e pelo estudo, o idoso e a idosa, estes não teriam autoridade. Também não seria mais respeitada a autoridade dos comandantes, empresários, homens e mulheres de bem, o que fala com eloquência e coerência.

As crianças serão obedecias como grande autoridade e governarão seus pais, vizinhos e até as autoridades. As crianças não respeitarão os anciãos e as anciãs. As pessoas não confiarão umas nas outras. Escrúpulo será palavra sem sentido e não se perceberá nobreza. Acontecerá o desgoverno e não haverá quem possa conduzir o povo. A “pátria amada, idolatrada” caminhará para a ruina. Tudo isto acontecerá porque o bom senso não estará prevalecendo. O sentimento de pertença à pátria estará num processo de desaparecimento das almas cidadãs, porque perceberão estar sendo governadas pelo engano e pelo engodo. Os jovens perdem a capacidade de sonhar e se embrenham no caminho das drogas ou de qualquer outro prazer. O hedonismo e o individualismo serão normas.

 

Dobro o livro e o coloco sobre o criado mudo. Reflito. Parece que Isaias fala do meu tempo, do meu país. Suspiro. Respiro fundo. Tento dormir, não consigo. Lembro me do noticiário: carros de luxo são retirados pela Justiça da casa de um senador da república porque teriam sido adquiridos com dinheiro surrupiado dos cofres públicos; há um esquema criminoso de poder que rouba o povo, tudo por culpa do governo da Terra de Santa Cruz. Parece que o estado e o governo não se dão ao respeito. Temendo pelo futuro da Terra de Pindorama, pego o livro de novo e continuo a leitura.

 

O bom senso virá, por bem ou por mal, diz o escritor, com outras palavras. O carro apertado é que canta, diz o ditado popular rural. Lembro me de que li em algum lugar que o ouro é provado é no fogo. Temos que ter esperança, confiança em nós mesmos e ver, julgar e agir. Quando isto acontecer será o juízo contra tudo que existe por força do mal. Quanto maior a altura, maior o tombo, enuncia o dito popular. Os reis e os príncipes ficarão nus.

Viajando pelo meu passado, me lembro de quantos subiram na vida à custa da opressão, da mentira e da deslealdade! Quantos conseguiram acumular riquezas à custa dos mais simples, ignorantes e que não tinham poder de barganha. Todavia, eu vi também estes, que subiram muito alto, de lá se despencarem, esborrachando se na desonra e no opróbio, envergonhando seus filhos e netos.

Após a minha reflexão, compreendi que talvez seja isto o senhor de tudo. O mundo foi criado para todos nós e todos fomos criados para usufruir do mundo e sobre ele termos responsabilidade. Somos também responsabilidade uns dos outros. Precisamos cuidar do mundo de nós mesmos fraternalmente. O Senhor, seja ele quem for, é senhor nosso. É necessário, pelo menos, reverenciá-lo, sob pena de infringirmos a lei da vida a qual é aceitar e fazer a vontade dEle.

 

O povo será violento, o jovem não respeitará o velho, nem o plebeu o homem honrado. Crianças oprimem. Os dirigentes enganam o povo e confundem a direção dos seus caminhos. (Isaias 3, 5 e 12).

 

 

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