Pior do que a morte, apenas o esquecimento - por Emerson César

Pior do que a morte, apenas o esquecimento - por Emerson César

PIOR DO QUE A MORTE, APENAS O ESQUECIMENTO 

 

Você irá morrer. É claro que a esta altura do campeonato você já sabia disso, mas o que talvez você ainda não saiba ou não queira saber é que sua morte virá, provavelmente, mais cedo do que gostaria. Tão certo quanto a incerteza do amanhã é o fato de que a morte têm por hábito se adiantar aos seus compromissos e, para a infelicidade das coisas vivas, ela lhe tomará de sua existência antes mesmo que acabe de tomar o último gole de café, antes que alcance o outro lado da rua, antes que acorde, antes que diga a alguém o quanto o(a) ama ou antes que leve o lixo para fora. Mas não encare isso como algo pessoal, a morte não é má. Assim como a natureza e o universo a morte é apenas implacavelmente indiferente a sua pessoa.


Todavia, se uma morte precoce pode ser frustrante para a maioria das pessoas, imagine o quão pior seria o esquecimento! Já imaginou como deve ser vazio e angustiante o limbo do esquecimento? A aterradora maldição de não se fazer lembrar por toda uma eternidade, resumindo sua breve passagem pelo mundo a algo tão insignificante que o tempo se encarregará de apagar todo e qualquer vestígio da tua inglória existência. Sim, meu(minha) amigo(a), você será esquecido(a)! Talvez teus amigos e familiares derramem litros de saudade sobre teu caixão, mas dias depois as contas de água e luz lhe substituirão em suas preocupações. Talvez tua foto no porta retrato perdure por anos sobre a prateleira empoeirada da sala, mas não se engane, o teu destino será uma velha caixa de papelão no sótão e, por fim, ao pó retornarás. Se tiveres sorte, talvez tua vaga lembrança faça breves aparições nas festas de final de ano, se não tiveres tanta sorte, bastarão duas ou quem sabe três gerações para que nem as colunas de concreto da tua antiga casa se recordem dos tempos que tu por ali perambulavas.

 

Este é o carma de quase todos os muitos bilhões de homens e mulheres que já foram contemplados com o “milagre” da existência neste planeta, assim o era quando os homens viviam em cavernas e assim o será quando o homem habitar os anéis de Saturno. O fim é a única verdade absoluta para tudo que teve um início. Será? Quando digo que a morte e o esquecimento são o carma de quase todos os homens e mulheres, o “quase” têm um sentido de grande importância nesta proposição. Tão certo quanto a incerteza do amanhã também é o fato de que nem todos os homens e mulheres morrem ou são esquecidos. No decorrer da história da humanidade houve alguns, não muitos, que descobriram o elixir da vida eterna. O verdadeiro segredo da imortalidade foi bebido por estas raras criaturas que desafiaram a navalha da morte e a inevitabilidade do esquecimento. Mas como elas fizeram isso? Todos sabemos que esta frágil carcaça de carbono encharcada de água não poderia ser feita para sobreviver por mais do que algumas décadas. Então como seria possível vencer a morte e o esquecimento?

 

Tua carne será comida pela terra ou pelo fogo, disso não tenhamos dúvida. Todavia sua existência escorre e persevera nas tuas realizações. Se audaciosos, os teus feitos ecoarão pelos séculos sem se corromper, teu nome será fundido nas páginas da história até que a escrita se perca e o último homem sobre a terra não tenha a quem repetir as lendas que ouvira de ti. Tuas façanhas encantarão crianças e adultos muito depois de tuas pegadas terem se dissipado no vento e na areia, poetas e príncipes lhe prestarão homenagens em arte e discursos, escritores, artistas e filósofos forjarão obras e mais obras sobre tuas façanhas, mestres e eruditos citarão tuas frases e pensamentos aos seus ouvintes atentos e mesmo quando mil ou dez mil anos se passarem, quando o último de nossa espécie for apenas um fóssil sepultado na rocha antiga, civilizações avançadas vindas de mundos desconhecidos escavarão o solo terrestre e encontrarão estátuas e vasos com a tua imagem. Estes serão colocados em exposição permanente em museus interplanetários para que o universo inteiro saiba que em todo o cosmos houve seres que se destacaram por sua capacidade de sobreviver a morte e ao esquecimento.

 

Mas a imortalidade não está ao alcance de todos e, tão incerto quanto a certeza do amanhã talvez não esteja ao seu alcance também. Afirmo isto, pois, os homens buscam a imortalidade com a mesma determinação e empenho que perseguem a própria morte e o esquecimento. Como a maioria deles você nasceu numa sociedade corrompida pelo imediatismo das coisas, das relações e dos feitos. Passarás a vida estudando o que todos estudaram, lendo o que todos leram, crendo no que todos creram e repetindo o que todos já repetiam muito antes de você. Terás um emprego estável, uma renda estável e um futuro terrivelmente estável e frustrante. Terás fé no mesmo deus imaginário dos teus avós e ele então escravizará tua mente, teus desejos e sonhos, prometendo-lhe para além da morte tudo aquilo que poderias ter conquistado ainda em vida. Se o suborno celestial não sepultar tua promissora rebeldia, então a ameaça de danação eterna no fogo infernal o fará. Talvez tenhas sorte e bem antes disto já estejas sepultado, usufruindo de uma boa aposentadoria e assistindo pela janela, no final de sua breve vida, a morte a se aproximar enquanto um desconhecido qualquer troca suas fraldas. Quando ela, a morte, finalmente se aproximar e você puder sentir o frio impassível de sua foice tocando o seu pescoço, então implorará por mais tempo. Mais alguns meses, semanas, talvez apenas um dia ou um minuto. Implorarás por uma única chance de deixar um legado, realizar um feito ou uma obra que perdure por mais tempo que a vela sobre o teu jazigo. Implorarás pela imortalidade, mas a morte, cansada de escutar sempre a mesma ladainha, não se dará ao trabalho de responder, tomando sua alma pelo braço e a atirando no limbo do esquecimento sem se comover com suas súplicas.

 

Se é este o humilhante destino da maioria dos homens, então sejas “homem” ao menos na morte, e não suplique! Já dissemos que a morte têm por hábito se adiantar aos seus encontros, então antes que seja inevitavelmente tarde, comece agora a tomar o elixir da imortalidade! Escreva aquele livro que há tempos à preguiça e as justificativas não lhe permitem! Componha uma música ou um poema! Não sabe compor ou escrever? Que se dane! Componha e escreva da maneira que quiser ou souber, nós não passamos de poeira cósmica que em breve será varrida desta existência, não há tempo para se preocupar com a opinião dos outros. Abra o negócio que você sempre quis! Arrisque-se! Atire pela janela a ilusão de estabilidade e abrace a imprevisibilidade caótica de um salto no abismo! Viaje apenas com sua mochila para Serendipe! Lute contra as injustiças do mundo e quem sabe morra por conta de sua luta! Se a morte virá para todos, os mártires asseguram lugar de destaque nas melhores páginas da história. Tome partido! A vida é curta demais para sermos imparciais. Desafie as grandes corporações, o Estado e a Polícia! Seja preso por defender a liberdade e a justiça! Questione a TV, o Prefeito e a Igreja, questione o Sistema! Destrua o Sistema! Construa uma ideia!

Oriente sua vida para deixar um legado, algo que seja maior que você, que perdure no tempo e que não sucumba a morte ou ao esquecimento. Morra, mas seja lembrado!

 

Fonte e imagem: http://dragaourbano.com.br/voce-vai-morrer/

 

 

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