Ponto de Encontro - por Regina Alonso

Ponto de Encontro - por Regina Alonso

 

PONTO DE ENCONTRO

 

   Pernas bambas. Corpo coberto de andrajos. Bateu palmas ao portão. O cão enorme latindo forte atravessou o jardim como se fosse uma rajada de vento. Enfiou a pata entre as grades e suas unhas afiadas ainda atingiram um dos braços de Sebastiana. Estava fraca para conseguir afastar-se com a agilidade que a ocasião exigia. O sangue escorreu e pingou, sol escaldante coagulando as marcas, grafitando de vermelho a calçada. A mulher foi escorregando ao chão. Nem mais forças para gemer. O cão latia forte, saltando alto, querendo passar para o lado de fora. Da varanda, voz firme:

   – Volte aqui, Piloto! Chega de barulho!

   O cão não atendia, os latidos atravessando a ruazinha pacata ladeada de quaresmeiras floridas. Passos lentos aproximaram-se do portão de ferro.

   – Passa Piloto! Passa! Eta cão danado! – e pondo a cabeça sobre a grade: – Meu Deus! Acudam!

   Um velho com roupa de chofer e uma empregada de avental de organdi branco engomado esvoaçando como as borboletas do enorme jardim, atenderam prontamente ao chamado. E do lado de fora, ajudaram Sebastiana a levantar-se.

   – A senhora não viu a placa?! “Cão perigoso! Não se aproxime!” – perguntou a mulher de vestido estampado cheio de flores confundindo-se com as que enchiam os canteiros. Sebastiana respondeu num fio de voz:

   – Num sei ler, minha fia!

   Os empregados carregaram-na para o interior da casa. Sentando-a numa poltrona, ofereceram-lhe um copo de água. Sebastiana bebeu-a avidamente, engasgando-se.

   – Calma, devagar! – pediu a empregada, limpando-lhe o sangue do braço, cuja ferida recebeu um curativo.

   Em frente à sua poltrona, a mulher de vestido florido vigiava entre desconfiada e solidária.

   – Qual o seu nome? – perguntou, enquanto a serviçal oferecia-lhe um prato de comida.

   – Bastiana, todo mundo me chama anssim, dona... – e começou a comer, mastigando os bocados com o apetite dos que sentem fome.

   – Eu me chamo Belinha – disse a outra e voltando-se aos empregados: – Esta é Nanci e este é o Clodoaldo. – Súbito, levantou-se apressada:– Júlia já está chegando. Fernando também! São meus netos.

   Sebastiana comia olhando a sala espaçosa e atapetada, cortinas de renda, móveis de madeira maciça torneada e quadros por toda a parede.

   – Vovó, estou faminta! –  uma jovem de cabelos compridos presos num laçarote entrou feito um foguete.

   – Olá! Vejo que o almoço está pronto!... – e dirigindo-se para Sebastiana: – Está gostoso, minha senhora? A comida de vovó é incomparável!

   Sebastiana sorriu com timidez... Providenciaram naquela noite uma cama no quarto de Nanci. Arrumaram-lhe alguma roupa limpa para trocar depois do banho. Sebastiana dormiu e só conseguiu acordar no dia seguinte, sol bem forte. Entrou na cozinha e logo foi ajudando a limpar os legumes, a picar os temperos. Nanci piscou-lhe um olho e trouxe-lhe uma xícara de café bem forte e uma broa de milho. Dona Belinha temperava o feijão. Sebastiana aproximou-se do fogão à lenha, olhos cheios de lágrimas, lembranças de outras moradas e foi refogando o alho, pegando a colher de pau das mãos de Dona Belinha, que a olhava cheia de surpresa e compreensão. Sebastiana parecia estar num lugar de onde nunca tivesse saído, movimentando-se com desenvoltura, preparando o arroz, as verduras e grelhando as postas de peixe. Arrumou a salada na travessa, tomates, alfaces, pepinos e estrelinhas de carambolas numa explosão de cores.

   E desde então permaneceu na casa. Ali mesmo na cozinha, debulhando as ervilhas, descascando as batatas, sua história contada em capítulos, dia a dia... A outra casa, velha morada onde seus pais trabalhavam e onde aprendeu a cozinhar com a mãe, ajudando-a na cozinha. O pai afogado durante uma pescaria no rio que cortava a fazenda. A mãe velha e doente não resistiu. Sebastiana nas lidas na cozinha, quituteira sem igual. A fazenda hipotecada. O café em baixa. Novos donos. Novos empregados. Sebastiana despedida. Buscando qualquer serviço. Trabalhando num albergue. Na cozinha defumando as linguiças,linguiças, mãos esfoladas no descascar sacos e sacos de batatas. A acusação de ter roubado a féria de um dos dias em que ficara no caixa, enquanto os patrões iam à vila. A expulsão como um cão sem dono. Só com a roupa do corpo. Perambulando nas estradas. Implorando. Nada!...

   A casa de dona Belinha era harmoniosa e com Sebastiana a paz foi redobrada. Agora a senhora dos vestidos estampados podia cuidar do jardim, podar as roseiras, arrancar ervas daninhas, replantar mudas, preparar as sementes... Sebastiana reinava na cozinha. Nanci cuidava da casa, Clodoaldo das compras e de levar Dona Belinha ao centro do vilarejo para compras ou consultas médicas. Mas entre às 9 e às 10 horas, os três se achegavam à cozinha para ouvir as conversas de Bastiana.

   Parecia encontro marcado e até Piloto, que também se apegara à cozinheira, participava de olhar atento, esparramado no chão de cimento.    À tardinha era a vez de Júlia e seu irmão. Chegavam esbaforidos, levantando as tampas das panelas, querendo saber o que seria servido no jantar. Depois se acomodavam nas cadeiras ao lado de Bastiana, ajudando-a a picar frutas para a sobremesa, a descascar legumes... E a conversa corria solta! Os jovens contando da faculdade, dos professores e Sebastiana imaginando como seria... Traziam-lhe revistas que à noite, deitada na cama, folheava, contornando com os dedos de pele escura e grossa as figuras e as palavras, tentando adivinhar o que estaria escrito, imagens que lhe povoariam os sonhos. E na manhã seguinte, a rotina. A cozinha transformada em espaço principal e amorável da casa, ponto de encontro para confidências e brincadeiras.

   Ali, naquela manhã de inverno, Piloto encontrou-a caída ao pé do fogão. Dona Belinha acudiu aos latidos do cão. Logo atrás, Nanci e Clodoaldo. Não conseguiram reanimá-la. A sirene da ambulância rompeu o silêncio da ruazinha. No hospital, horas depois, a notícia de sua morte. O corpo velado na sala de jantar entre soluços e lembranças daquela mulher inesquecível.  E na cozinha, Nanci coava um café, o cheiro forte e gostoso invadindo a sala, como se Bastiana chamasse todos para mais um encontro.

   Só Piloto não se moveu e ao pé do caixão, permaneceu em vigília.


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