Portas secretas - por Eliane Reis

Portas secretas - por Eliane Reis

Portas secretas


Meu amigo, as portas sempre estiveram abertas, embora quem olhasse de fora as vissem fechadas, como se guardassem um bem precioso e intocável. É claro, que a surpresa da despedida não fora assim tão súbita, pois ela já vinha se anunciando em outras estações, mesmo com todas as tentativas frustradas de reconstrução, elas iam, disfarçadas de melancolia gratuita, tirando pouco a pouco suas vestes de euforia, típicas da jovialidade da primavera.
E, assim, sem perceber a queda das folhas daquele outono e o rigor do inverno, o amor foi se despedindo como alguém que há muito sofre de um mal incurável, uma doença que tange e petrifica a alma. Embora os apaixonados costumam dizer que ele só faz bem ao coração, ao corpo e à mente, ouso dizer a ti, meu caro, que ele não é este ser supremo que toca com delicadeza a essência humana, ele tem escondido em suas garras um forte e letal veneno. E, foi, exatamente, assim que eu o senti naquela tarde seca, sem a menor expectativa de chuva. Ele se despiu e estava agora completamente nu diante de meus olhos entorpecidos.
Bem, vejamos de onde parte toda esta história tola e comum aos seus ouvidos, já cansados da minha nostalgia frequente.
Tudo começou no início do verão. As temperaturas elevadas, despojavam-se em dias longos e pouco descansavam em suas curtas noites. Assim como o calor era intenso, também se via de longe a intensidade naquela primeira impressão que tiveram. Não pretendiam nada quando seus olhos se cruzaram pela primeira vez, não buscavam aventuras, nem estavam prontos para uma nova página dentro de suas histórias que já traziam alguns rascunhos amarelados. Contudo, sabiam ambos que aquilo seria inevitável, mesmo com toda a negação que tentavam usar para sobrepor o desejo iminente.
Eram duas horas da tarde, mas o tempo não estava muito preocupado em seguir seu curso, ele se demorava nas janelas ao lado, no jardim fatigado, nos rostos cansados. Ela, Helena, também estava com um rosto um pouco abatido, todavia isso não lhe tirava o vigor e a beleza que lhe eram tão peculiares. Estava trajando um jeans claro, uma blusa de alças, levemente floral, que destacavam seus olhos negros. Os cabelos estavam soltos e deleitavam-se sobre seus ombros despidos e sua pele clara. Sua voz era doce e trazia uma energia quase que poética. Ele, Otávio, com seus trinta e oito anos esbanjava charme. Ele não era o típico mocinho das novelas, desses que derretem corações iludidos, mas um homem que dominava bem seus olhos e os usava para seduzir ou dissimular, como e quando bem quisesse. Assim, como o tempo não tinha pressa, deixou-se ficar na duração infinita de segundos daquele encontro de olhares entre Helena e Otávio, naquela tarde de verão.
Eles foram apresentados e, daí em diante, começaram aquilo que seria a razão de ser de suas vidas e a razão de um sofrimento incomensurável que, qualquer vidente poderia pressupor. Não havia possibilidade de transformar suas abstrações em algo real, concreto.
Não demorou e, perceberam que havia entre eles algo muito forte que os impulsionava a uma aproximação urgente. Trocavam olhares e eram cúmplices de uma mesma rotina de sedução. Nada, é claro, explícito, pois a delicadeza e a polidez não permitiam a violação de certos pudores. Apenas se tocavam pelos olhos, estes seres incríveis dotados de um poder indescritível. Segredavam um para o outro o amor que havia despertado em seus corações e tentavam fugas de si mesmos para poderem viver essa paixão. Todavia, as fugas nem sempre são bem sucedidas.
Mas, como eu já havia dito, meu bom e velho amigo, as portas estavam abertas e isso pode parecer para você algo positivo, mas não era. De fato, estavam escancaradas e todo tipo de vento podia entrar por elas também, tornando tudo muito vulnerável. Não poderiam abrigar este novo e velho amor entre Helena e Otávio. Entre eles havia uma lacuna tão tênue, mas que os afastava como se fosse um enorme abismo. Não havia chances para começar esta história. E, o mais patético, era estar ali, diante daquela pequena e velha janela vendo tudo isso acontecer, como se fosse comigo. Detesto estas minúcias que enterram esperanças ainda vivas!
Mas, voltemos aos nossos amantes desafortunados. Helena nunca fora mulher de meias palavras, sempre muito decidida, resolveu abrir o jogo com Otávio. Falou de seu amor, mas também da recusa de sua maldita conduta para aceitá-lo. Ele ficou um tempo imóvel a olhar para ela, ora com admiração, ora com zelo. Tomou suas mãos e revelou que sentia o mesmo, como revelou também sua dúvida diante do inevitável, o amor tinha os surpreendido e, como tinha!
Mas a vida tem certas artimanhas, convenhamos, não é mesmo? Ela apresenta para você o grande amor de sua vida, mas deixa claro que aquele ser, quase que mágico, que tem o dom de arrancar sorrisos despretensiosos, que tem o dom de tocar sua pele só com os olhos, que faz seu corpo arrepiar só de ouvi-lo e abraça sua alma com todo encanto, não pode lhe pertencer.
Então, de repente, sem o menor pudor, ela também diz e apresenta todas as ruas fechadas, todas as estações indo e vindo, todas as pontes intransponíveis e ainda quer que você entenda. Afinal a vida é assim, não é meu caro? Ela afirma que você tem o livre arbítrio, mas irá julgá-lo culpado, caso você opte por ser feliz, já que a felicidade que, muitas vezes, ela implanta não é aquela que irá, enfim, fazê-lo feliz de fato.
Assim, mais uma vez, eu fui cúmplice de uma história incrível, que mais parecia uma lenda, entre dois seres dotados de amor, de desespero e de separação. Da minha antiga e velha mesa de mogno, puder escrever este pequeno lamento daquelas portas fechadas. Aí, talvez, você me lembre: “Mas não estavam abertas todas as portas?” E eu, sem o menor constrangimento irei dizer que sim, no entanto elas estavam abertas para o vento, para o esquecimento, para a saudade, para o rompimento, menos para o amor, menos para Helena e Otávio. Para eles as portas estavam trancadas e jamais estariam abertas, mesmo que mudasse a estação.

Eliane Reis

 

 

 

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