Primeiro Capítulo completo do livro - Pelas Mãos das suas amadas - por Pedro Irineu

Primeiro Capítulo completo do livro - Pelas Mãos das suas amadas - por Pedro Irineu

I

 

Às dez horas da noite do dia 13 de maio de 1938, podia-se observar Hélio Moura caminhando às espreitas na Rua dos Desacordados, misturando-se às sombras e aos pontos obscuros das esquinas, um tipo de camaleão soturno e sorrateiro, imperceptível e silencioso, quase um espectro mais ligado ao além do que ao mundo dos vivos, saído de algum beco fantasmagórico.

Era essa a vibração que se fazia sentir através daquela capa escura e surrada que cobria seu corpo e do chapéu negro que cobria sua face, pois andava com a vista direcionada ao chão.

Aproveitava-se Hélio da péssima iluminação – os postes à gás mal haviam sido instalados e já se apresentavam com defeitos - e da ausência do brilho de uma lua cheia, para caminhar com relativo desembaraço, embora todos seus passos denotassem certa preocupação em passar desapercebido por qualquer outro desavisado que quisesse compartilhar com ele o espaço daquela rua. Observando-o atentamente, via-se que de quando em quando ele olhava ao seu redor, em direção às janelas das casas, todas com os candeeiros já apagados, para certificar-se de que nenhum olhar o acompanhava.

O fim da Rua dos Desacordados significava sair de Ouricuri [1], interior de Pernambuco, e entrar no declive da serra em cujo topo a pequena cidade se localizava. Daí então, descia-se por uma encosta acentuadamente íngreme, um obstáculo por assim dizer para que todos os moradores sempre usassem a via principal, pavimentada e com escadarias, além de rampas que diminuíam o ângulo do declive, se quisessem sair da cidade. Entretanto, Hélio sabia que se quisesse encontra-la novamente, tinha que seguir sem nenhum desvio o caminho que lhe fora ensinado durante o sonho. Assim, ele deveria necessariamente descer a encosta da serra sem o auxílio das escadarias. Após algumas ligeiras escorregadas, que lhe tiraram a aura mística emanada dos seus trajes funestos e revelaram a sua frágil humanidade, ele conseguiu equilibrar-se naquele terreno derrapante, valendo-se de galhos e tronco de árvores.

A encosta, por sua vez, era revestida por uma vasta floresta. Um exotismo geográfico em meio à caatinga do Nordeste brasileiro. A floresta era compacta, densa, formada por árvores milenares que atingiam alturas impressionantes, cujas copas frondosas impediam o brilho lunar, mesmo em dias de lua cheia, de penetrá-la o suficiente para trazer alguma claridade. No entanto, Hélio lembrava-se com exatidão o caminho mais ou menos em linha reta que deveria percorrer. Parecia que ele tinha sido gravado permanentemente em sua memória durante o sonho. Logo, a ausência de qualquer visibilidade lhe foi indiferente.

Aquela floresta incomum, cujo nome nunca se soube ao certo porque ninguém nunca se importou em procura-lo, também imprimia medo em quase todos os habitantes de Ouricuri. Devido ao chapéu que encobria a sua face, não era possível dizer se Hélio estava ou não com medo. Mas deveria estar. A floresta era iniludivelmente temível. Matriz de lendas as mais diversas, território de assassinos e salteadores, bestas e espíritos malignos, segundo a crença popular. Até o mais cético dos homens de Ouricuri, ainda que não por medo, respeitava a floresta ao menos por prudência, sendo poucos os que se atreviam a penetrá-la durante a noite.

Era o que Hélio esperava encontrar que o compelia a superar todas as superstições e temores que se imiscuíam à floresta. Nem o uivo das corujas, avisando-o da aproximação dos espíritos malignos, nem o grunhido das bestas, indicando que elas estavam de emboscada, fizeram-no recuar um passo sequer. Na mente, a promessa que se realizaria acaso encontrasse aquilo do qual acreditava cada vez mais se aproximar.

Quando o terreno tornou-se mais plano, já próximo ao pé da serra, Hélio achou ter visto uma luz diferente de todas aquelas que ele já tinha visto anteriormente. Ele sentiu que o ponto de encontro não deveria estar mais tão longe. A luz, que fazia o caminho que Hélio percorria paulatinamente menos sombrio, era transcendental, de um azul inebriante, suave e tranquilizador. Tocava na alma, e fazia da calma e serenidade atributos do qual se revestiam o semblante de Hélio, não mais escondido pelo grande chapéu negro que o encobria quase completamente. Tão próximo assim de reencontrá-la, não havia mais motivos para temer que alguém pudesse impedi-lo. Finalmente a promessa dita em forma de sonho ver-se-ia realizada. Só mais alguns passos e a reencontraria.

Ela apareceu como um anjo que desce dos céus em toda a sua glória, porém saída das águas do rio que banhava a serra em cujo cume se localizava Ouricuri. Divina, majestosa, áurea sacrossanta. Mesmerizado, Hélio se ajoelhou diante daquele esplendor e quis beijar os pés descalços dela repetidas vezes, porém ela evitou tanta veneração e pediu para que ele se levantasse. De pé novamente, Hélio pode contemplar os vivazes olhos amendoados dela, como sempre foram e como nunca deixariam de ser. Até mesmo no dia em que ele a viu no caixão, ocasião em que lhe verteu lágrimas copiosas, aqueles olhos permaneceram com o mesmo brilho amendoado e com o mesmo colorido do amor pela vida.

Hélio então se atreveu a tocar na face dela, enamorado no mais íntimo âmago. Percorreu com os dedos, delicadamente, os traços que imprimiam naquela face certa altivez e segurança de espírito. Deteve-se nos lábios rosáceos e delgados, que relembravam um pequeno coração, pueris e ao mesmo tempo sedutores, e como ele não pudesse mais resistir, abraçou aquele corpo frágil, demasiadamente magro e esguio, cuja pele pálida contrastava algum tanto a pompa com a qual ela apareceu, mas que mesmo assim não tirava a beleza da cor canelada que lhe era própria.

O fino tecido violeta quase transparente, que cobria o corpo dela, permitiu que Hélio sentisse mais uma vez o calor daquela que nunca esqueceu e com esse calor se acalentasse, relembrando tempos felizes de uma nostálgica vida conjugal. Ele demorou minutos abraçados aquele corpo, tal qual gostava de ficar quando estavam juntos na cama, nas noites silenciosas e eternas, antes dela partir. Reencontrava-a conforme lhe fora prometido em sonho. Não havia motivos para ter duvidado do que alguns chamam de ressureição.

Encontrou então seus lábios com o dela. O beijo veio de forma aguda e lancinante, com a sensação de cortes a rasgarem com facilidade a carne, ainda que superficialmente, porém da dor desses cortes retirava-se um prazer indizível para Hélio. Desde longo tempo, aquele estava sendo o momento mais feliz da vida dele. À medida que ele a beijava e a abraçava com mais intensidade, e era retribuído por beijos dela ao longo do seu corpo, o deleite crescia de forma vertiginosa, a fazer sentir na pele dele verdadeiras investidas de puro êxtase. Foi então jogado ao chão pelas mãos delicadas dela. Acometido por uma fraqueza súbita, verdadeiro torpor, caiu na relva sem oferecer qualquer resistência. Contemplou-a então tirar o manto violeta e deitar-se sobre ele completamente nua. Os seios pequenos e harmoniosos, o ventre liso, macio, e as curvas mais graciosas que ele já havia visto, corporificavam-se naquela figura ressuscitada.

Sem forças, Hélio deixou-se ser por ela beijado levemente no peito, no abdômen. Leveza no beijo, a contrastar com a dor profunda que se misturava a alegria por aquele momento. O sangue latejava pelo seu corpo, pulsando para fora de suas veias, a cada encontro dos lábios dela com a sua pele esgarçada, e a dela ainda tão jovem e tão firme.

A verdadeira apoteose para aquele reencontro, desejado por tanto tempo, fantasiado em tantos sonhos, foi quando Hélio a penetrou e viu o gozo de felicidade surgir naquela face pueril dela tal como surgiu no primeiro momento em que com ela se deitou. Hélio soube que era feliz, que era abençoado, e que a sua esposa ressuscitada era a melhor dádiva que um sonho já podia ter lhe prometido. Ele esvanecia no auge desse momento sublime, satisfeito e alegre, com um sorriso aliviado estampado no rosto, a cada movimento da pélvis dela para arrancar do seu ser, de forma sutil e já indolor, aquilo capaz de imprimir-lhe virilidade.

Se à noite a floresta que cercava Ouricuri era considerada um lugar amedrontador e perigoso pela maioria dos habitantes da cidade, pela manhã as crendices cediam espaço para várias diversões. Desde algo despretensioso como andar de bicicleta, até servir de alcova para amantes de experiências ao ar livre.

Nessa atmosfera despida de quaisquer ameaças, as risadas de Antônia, dotadas do entusiasmo típico daqueles que estão entre o limiar de uma adolescência feliz e de uma juventude que promete ser repleta de estórias para contar, reverberavam entre os troncos grossos das árvores da floresta. Para os habitantes daquela mata, aquele som deveras agudo e juvenil significava uma mera perturbação do silêncio com o qual estavam acostumados. Para Bernardo, ao revés, eram como uma melodia afetuosa e ludibriante, que o arrebatava, deixava-o na ponta dos pés, e lhe imprimia ânimo para ir ao encalço de Antônia. As peças de roupa que ela ia deixando pelo caminho, o short, a camisa quadriculada, o sutiã, só lhe aguçavam o instinto atávico. Tendo as risadas de Antônia como pano de fundo, ele a via passar agilmente por detrás dos troncos, enganando-o, despistando-o, fazendo dele um bobo.

O corpo leve e alongado, retrato de uma verdadeira ninfa, a fazer Bernardo ter uma súbita elevação de adrenalina para aguçar os seus sentidos e alcançá-la de uma vez.

Bernardo aceitou a brincadeira durante um bom tempo, até finalmente ficar frente a frente a ela. Admirou-a fazendo com que se misturasse em um só olhar um sentimento nobre e o mais primitivo dos desejos. Ela ali, a uma curta distância, com as mãos para trás, os ombros ligeiramente encurvados, a bacia um pouco inclinada em sua direção, completamente indefesa, trajando apenas uma calcinha rosa ainda de menina, os bicos dos seios voluptuosos ouriçados, as maças ligeiramente enrubescidas, um sorriso faceiro embelezado por pequenos dentes alvos. Depois de meses de um namoro inocente, em que toques ousados só eram permitidos depois de muita negociação e insistência, Bernardo iria poder compartilhar com outros amigos que havia perdido a virgindade. Seria o primeiro do seu grupo. E logo com uma das meninas mais belas da cidade, senão a mais bela. De hipnótico olhar virginal, lábios encorpados de vermelho intenso, um cabelo dourado e ondulado, que chegava à altura da cintura, a emoldurar uma face cuja beleza diáfana escondia uma lascívia pura porque ainda não completamente explorada por aquela jovem.

Faltava muito pouco. Eles estavam próximos ao rio, com o cascalho a roçar a planta dos pés de ambos. Só para alongar um pouco mais a espera, à medida que Bernardo dava dois passos para frente, Antônia dava um para trás. Quando os dois estavam apenas à distância de um corpo, com Bernardo prestes a tocar na cintura de Antônia e toma-la para si, ela tropeçou e caiu por cima de algo.

Mal se recuperou da queda, Antônia reparou no que a havia feito tropeçar e deixou escapar um grito horrorizado de espanto enquanto se afastava rapidamente do cadáver, empurrando o cascalho com as palmas das mãos. Bernardo, por sua vez, emudeceu de pânico diante do corpo horrendo e ligeiramente carcomido daquele senhor de meia-idade, corpulento e de aparência um tanto quanto familiar, que o separava de Antônia. O que prometia ser uma manhã inesquecível em razão de uma experiência nova e deleitosa para ambos transformou-se numa manhã ainda inesquecível, mas por outro motivo, traduzido por aquele repugnante cadáver lacerado por diversos cortes. A estória que Antônia e Bernardo iriam contar para as suas amigas e amigos mais íntimos, respectivamente, seria diferente daquele que eles tinham em mente contar quando saíram logo cedo para aquele passeio na floresta.

Três horas depois daquele encontro que impediu Antônia e Bernardo de terem sua primeira recordação amorosa mais vívida, o detetive Diogo Maia, ao lado do seu ajudante Irênio Tommasi e do médico-legista Aldo Carvalho, apareceu acompanhado dos jovens no local onde se encontrava o cadáver, para averiguar a veracidade do relato, que ouviu na delegacia, daqueles que pareciam ter visto a própria morte.

Antônia, naturalmente, já estava devidamente vestida. Em sua face, impregnava-se o assombro. Interessante que repugnava o cadáver, mas ao mesmo tempo não conseguia tirar os olhos dele. Ojeriza que resplandece a cada lance de olhar sobre o objeto ojerizado. Havia em Antônia uma curiosidade pelo cadáver que se imiscuía ao assombro que ele lhe causava, se não era esse assombro a própria curiosidade disfarçada por mero recato.

Bernardo, a seu turno, achava-se acuado, amedrontado. Posto ao lado de Antônia, tinha-se a certeza de que ela tinha mais estômago que ele, ainda que o porte alto e atlético dele e o corpo franzino dela pudesse confundir à primeira vista essa informação. Nem para reconfortar Antônia, Bernardo servia. Ele já tinha presenciado os dejetos da morte - o que ela deixava no mundo após retirar do corpo a alma - assim de perto outras vezes. Nunca deixaram de estar em um caixão, ora fechado, ora aberto, descoloridos e petrificados sempre, porém a cerimônia lúgubre e a relativa presença de familiares no ambiente, ainda que abatidos, distraiam-no deles, dos dejetos. Aquele que Bernardo observava nesse momento, despido de qualquer liturgia, era impactante, cru, até mesmo bárbaro. Mostrava sem subterfúgios aquilo que a todos aguarda.  

O casal relatou novamente as circunstâncias nas quais encontraram o cadáver. Esconderam apenas alguns detalhes desnecessários, tais como Antônia estar seminua e estarem se preparando para fazerem sexo. Tommasi tomou nota de tudo quanto era dito, a pedido do detetive Maia, que, por sua vez, observava os primeiros aspectos daquilo que circundava o local onde o cadáver foi deposto.

A primeira impressão que ele teve é que aquele também era muito provavelmente o mesmo local da cena do crime. Não havia indícios no cascalho ou na relva próxima ao rio que o corpo fora arrastado para ali, conforme o detetive pode perceber através da ausência de qualquer rastro que pudesse indicar o contrário. A seguir, deteve-se numa análise minuciosa dos arredores, a busca de algum objeto - fragmentos de roupas, pegadas, até fios de cabelos - que pudessem ter sido deixados para trás. Nada encontrou. Sem maiores divagações, afastou temporariamente a hipótese de suicídio. Nunca na literatura policial ouvira falar de alguém suicidar-se daquela forma tão brutal e dolorosa, em especial para um homem. Enquanto isso, o Dr. Aldo fazia suas primeiras observações acerca do corpo em decomposição. Começando pelo semblante do cadáver, fotografia do seu último suspiro, pareceu-lhe que aquela vítima havia encontrado a vida e não a morte nos últimos instantes do passamento. A macular um discreto sorriso de satisfação, o Dr. Aldo entreviu pequenos talhos particularmente distribuídos em zonas bastante sensíveis do corpo humano, como nas bochechas, no canto dos lábios, nas laterais do pescoço, na nuca. A percorrer o resto do corpo com o seu olhar analítico, o médico percebeu que os pequenos talhos prosseguiam na altura do peito, do abdômen, do interior das coxas, até mesmo na sola dos pés, como se o instrumento do crime tivesse feito às vezes de mãos para uma massagem relaxante nessa região. A julgar pela quantidade de talhos, concluiu que a vítima havia perdido muito sangue no decorrer de seu assassinato. A questão era saber se fora deixada para sangrar até a morte antes do último golpe brutal, ou se esse mesmo último golpe fora o causador da morte. O Dr. Aldo, sentindo-se na pele da vítima, preferiria a primeira hipótese.

“Você já havia visto algo parecido?”, perguntou-lhe o detetive Maia, de braços cruzados, sério diante do cadáver.

“Não em Ouricuri”.

“Interessante que, apesar da barbaridade, a extração me parece daqui bastante cuidadosa”.

“De fato. Não diria cirúrgica, mas as mãos que a fizeram cuidaram ao menos de deixa-la com uma boa aparência técnica. Nada truculento, a não ser a essência do próprio ato”.

“Algo que só poderia ser feito por um médico ou por alguém devidamente instruído por um, não é mesmo?”.

“Apenas para não descartamos qualquer hipótese, digamos que sim, detetive.”

Aquele não era o primeiro e provavelmente não seria o último cadáver a cruzar o caminho do detetive Maia, de forma que até então estava acostumado a não enojá-los. Entretanto, ver de perto e imaginar como deveria ter sido a extração dos testículos e do órgão sexual da vítima embrulhou seu estômago logo de imediato, algo que não deixou, no entanto, transparecer, ao contrário de Tommasi, que evitava a todo custo encarar o cadáver. O Dr. Aldo, por sua vez, não se admirou com o particular detalhe da execução do crime, pois a frieza com que analisava qualquer cadáver, em virtude de sua profissão, não permitia qualquer demonstração de horror.

Após Antônia e Bernardo terem sido deixados em suas respectivas casas, o corpo foi levado para o local onde seria mais propriamente examinado. Nada que se assemelhasse nem de longe a um Instituto de Medicina Legal. Parecia mais um frigorífico de cadáveres com alguns objetos, macas e equipamentos presumivelmente obsoletos. Um local condizente, por assim dizer, com o que se esperar de Ouricuri.

Por outro lado, a experiência e o conhecimento do Dr. Aldo compensavam essa precariedade de instalações. Ele era famoso na cidade por ser um tipo de médico faz-tudo, desde emplastros e medicamentos até cirurgias mais complicadas e exames com técnicas suspeitas, mas eficientes. O detetive Maia aprendera a respeitar a fama que precedia o homem. Desde que ele chegara a Ouricuri, o médico-legista fizera trabalhos excelentes em vários casos, através de análises seguras, precisas, dignas de crédito, sem as quais o encalço ao autor dos crimes teria sido mais difícil. Além do mais, ir contra a opinião popular a respeito de determinada pessoa nunca é prudente para um detetive recém-chegado a uma cidade do interior.

“Já foi possível fazer a identificação da vítima?”, perguntou o detetive Maia de forma direta.

“Logo que a vi, detetive. Trata-se de Hélio Moura. Branco, calvo, estatura baixa, corpulento, olhos que saltam da órbita, dentes amarelados, bochechas gordas. É pessoa conhecida dessa cidade. Você não chegou a conhecê-lo porque quando deu às caras por aqui, o pobre homem já tinha se feito sombra do que costumava ser. Desde que se tornou viúvo, passou a ficar sombrio, a gostar mais da noite do que do dia, e você não é boêmio, meu caro, para que chegasse a ter a oportunidade de vê-lo perambulando pelas ruas”.

“A data e a hora do óbito?”.

“Eu diria, à primeira vista e a julgar pelo estado de decomposição, que por volta da uma hora da manhã de hoje.”

“Os instrumentos do crime e a causa da morte?”.

“Você é apressado, hein? Por que simplesmente não me espera fazer o relatório...”.

“Não há tempo. Um minuto a mais que espero é um minuto a menos para pegar o cretino que fez essa barbaridade”.

O Dr. Aldo fez uma cara de contrariado, mas mesmo assim prosseguiu respondendo aos questionamentos.

“À primeira vista, foi usado um instrumento cortante. Pela forma e pela profundidade dos cortes, provavelmente um bisturi. A extração também me parece ter sido feita com o mesmo objeto. Quanto à resposta para a segunda pergunta, ainda não possa saber ao certo se a vítima teve a sorte de ter perdido sangue o suficiente antes de ter as bolas arrancadas. Caso contrário, a extração certamente tratou de matá-lo.”

“Sinais de luta ou resistência?”.

“Não está vendo a expressão babaca estampada no rosto dele? Parece-me até que quem lhe tirou os testículos e o pênis lhe fez um favor...”.

“Responda tecnicamente, por favor”.

“Claro, não há motivos para que se façam brincadeiras diante dessa atrocidade...”, disse o Dr. Aldo escondendo um sorriso maroto no canto da boca, para depois passar a responder com seriedade que não via nenhuma escoriação, pancadas, ou qualquer outra evidência de luta corporal.

“Estava drogado ou sob o efeito de alguma substância analgésica?”.

“Isso vai precisar de uma análise mais detida, mas pelo que me diz a intuição e pelo que conheço da vítima, diria que ele estava embriagado de amor, o que não deixa de ser uma droga.”

“Essa última informação pode ser importante, mas responda-me o quanto antes se ele estava ou não realmente drogado, tudo bem?”.

“Você sabe da minha presteza e agilidade”.

“Mas é sempre bom pô-la à prova. Só te peço uma última informação para me poupar o tempo de procurar nos arquivos de identificação. Você sabe para quem eu devo ligar dando a notícia do óbito?”.

“Para a irmã dele, a Sra. Allegri.”

O detetive Maia ficou sobressaltado.

 

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[1] Nota do autor: Há realmente uma cidade chamada Ouricuri, no interior de Pernambuco. No entanto, a Ouricuri retratada nesse romance em quase nada (para não dizer em nada) se assemelha a essa cidade verdadeira.

 

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