Promessa de vida - por Eliane Reis

Promessa de vida - por Eliane Reis

 Promessa de vida

 

Parecia noite, porque o céu carrancudo esquecera-se de sorrir, naquela manhã de verão, e o dia mendigava um pouco mais de vida, um pouco mais de alma. Ao longe, eu via, apenas, algumas gaivotas teimosas que insistiam no voo; talvez fossem herdeiras de Quixote, porque não temiam os moinhos de vento que encharcavam suas delicadas asas com pessimismo.

Eu, da minha onisciência moderada, avistava o mar – que também parecia absorto – e trazia, para minha varanda, um cheiro irreconhecível: era uma fusão de confusos e nostálgicos aromas que se misturavam, desordenadamente, em meus sentidos. Ora parecia ser um aroma suave e fresco, ora podridão.

Fui me dando conta que eu estava resignada à irrealidade que estava me adoecendo. Era como se eu estivesse enferma de mim mesma, e essa doença fosse me levando ao caos de modo silencioso e sutil, e o pior: com minha permissão. Havia, nessa constatação, uma sensação densa de que a vida e a morte estivessem lado a lado, no entanto, uma força personificada me impulsionava, a mesma que me embriagou de melancolia era a que, agora, puxava-me pelos cabelos tentando me levar de volta à realidade. Mas afinal, o que era a minha realidade? Era uma mentira que se fingia de razões? Nem eu mesma tinha respostas para estas perguntas. Sentia-me vazia de mim.

Assim, pouco a pouco, comecei a me sentir viva, viva outra vez, ou melhor, viva de um modo inédito, único e inexpugnável. Fui tomada por uma lucidez rude e ditadora. Fui tomada por uma força abrupta que me impelia a viver. Era uma consciência selvagem, porém sem o menor senso de superioridade. Coisa rara: eu me enxergar e dar a mim mesma aquilo que sempre dei em excessos, diga-se de passagem, a todos que me rodeavam: amor.

Então, enquanto eu olhava para o mar que insistia em me enfurecer com sua dança matinal, ao som da brisa tímida, a vida me tragava. Ela incorporou-se em mim feito encarnação e fez-se corpo, como rara e sagrada espécie de ritual, tomou-me pelas mãos, que pareciam desfalecidas. E, sem que eu tivesse a chance de recusar, convidou-me a um passeio, quis mostrar-me o segredo dessa vida.

Fui até meu quarto, peguei um chapéu por precaução e saí sem dizer nada a ninguém, mesmo porque todos estavam dormindo – era um dia de domingo – dia mais que apropriado para deixar-se esquecer na cama até tarde. Passei pelo porteiro, que também se encontrava cambaleando nas linhas imaginárias da vida. Dei-lhe um bom-dia engasgado e caminhei até a praia.

Ainda era muito cedo, por isso estava quase deserta a praia.  Tirei os sapatos e fui caminhar na areia. Andei por horas a fio, creio que sobre o fio da minha vida. Deixei-me tocar pelas ondas enérgicas que iam e vinham molhar os meus pés e beijar a areia adormecida, alimentei-me dos primeiros raios de sol (que já não estava mais de mau humor) como se eles fossem minha própria salvação. Agarrei-me nas asas de um vento bom que passava por ali, sem pressa, para não me perder. Tive medo. Um medo inusitado de não me encontrar mais. Mas todo vento tende a ir, é só um nômade. Eu poderia ficar, caso quisesse.

Comecei a sentir a pele queimar, já passava das onze horas e eu estava completamente alucinada, desvairada e sem rumo, ainda que estivesse em busca de mim mesma. Sentei-me em uma pedra e fiquei fitando o mar com sua coreografia desprovida de pudores. Ele parecia zombar da minha tristeza. Cheguei a invejá-lo por tanta felicidade.

Mas, de repente, senti, sobre meus ombros curvados e cansados, uma sensação de alívio, de contentamento sem um porquê. Lembrei-me da linda história que, um dia, a morte me contou. Da história de seu encantamento por uma garotinha poupando-a do sono eterno. Acho que fui premiada com a mesma simpatia.  Pensei no quanto a vida sempre está por um fio, que não passava de uma viagem curta. Eu me sentia, enfim, viva outra vez!

Então, o dia que amanhecera brigado comigo, poupou-me de um precoce epitáfio. Dali, de onde eu estava, pude enxergar a luz que a vida estava me oferecendo, eu pude compreender que todo mundo precisa de uma solidão para se encontrar.

Voltei para casa, no rosto um sorriso típico de um dia de domingo.

 

 

 

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