...queria só mais uma semana - Anchieta Antunes

...queria só mais uma semana - Anchieta Antunes

...queria só mais uma semana

 

para amar minha mãe  um pouquinho mais... para fazer-lhe carinhos, passar a mão em seus cabelos brancos, beijar suas bochechas.

Queria um pouco mais de tempo em sua companhia para aprender a ser um homem de bem, com atitudes retas, com o caráter formado.

Queria me embevecer com seu sorriso santo, beijar suas mãos gordinhas e sentir o carinho de seus cuidados; beber na sua fonte de tolerância, sentir o cheiro do círio de sua esperança, que nunca se apagou.

Queria só mais uma semana para dedicar todo o meu amor à minha santa mãezinha, minha mãe que tanto me amou, me cuidou, pensou minhas feridas de corpo e alma, velou meu sono agitado por pesadelos de estripulias juvenis.

Queria poder dizer que nunca lhe esqueci, que rezo por ela todas as noites, que peço a Deus que a tenha sob seus cuidados, que não a deixe sofrer, que seja sempre amada por todos os anjos. Queria pedir a Deus o perdão de minha saudade, contra a qual não tenho forças para lutar.

Queria só mais um segundo para presentear-lhe um grande beijo na  fronte coroada de atenções, de sensibilidade, cuidados, de zelo pela família; queria dar-lhe um grande abraço filial e receber o troco em abraço maternal. Queria acariciar seus braços gordinhos e dar um carinhoso beliscão nas suas papadas. Queria vê-la sorrir novamente, a gargalhada do prazer da vida na companhia dos filhos criados e educados, prontos para encarar a selva de pedras.

Queria vê-la sorrir a certeza do dever cumprido, da tarefa realizada com louvor. Queria ir com ela fazer a feira do sábado, provendo o lar de suas necessidades praticas. Ela que “arengava” com todos os fregueses por um preço melhor, presa aos cuidados de um orçamento domestico compatível com os ganhos dos filhos que trabalhavam de sol a sol.

Queria sair com ela, de mãos dadas, para passear na praça e escutar a “retreta” da Banda de Musica da Policia Militar, quando se apresentava no coreto   aos domingos. Momentos em que ela cobria sua fisionomia de candura e deleite com o ritmo dos acordes marciais. Não saía daquela posição até que o ultimo som invadisse seu momento de puro prazer, e já começava a beber na taça da expectativa do próximo domingo.

Queria com ela desfrutar da alegria de comer algodão doce e brindar nossos olfatos com a fragrância dos canteiros de rosas daquela praça encantada. Aquelas tardes tinham o néctar do enlevo da cumplicidade de mãe e filho glabro.

Para mim, aqueles momentos, eram sempre melhores que uma tarde no circo. A saudade é opaca porque não tem textura.

Queria só mais uma semana para amar, “desesperadamente” a minha mãe que está, desde os meus 17 anos, na  companhia de Deus. –

 

Anchieta Antunes

 

Gravatá – 20/09/10.


 

 

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