Questão de identidade - por Regina Alonso

Questão de identidade - por Regina Alonso

Questão de identidade                                                                                      

Regina Alonso

 

   Se alguém visse não acreditaria. Um homem ou um bicho? Pés ou patas na terra lamacenta? Cabelo ou crina? Unhas ou garras? Braços e pernas ou quatro patas? Hã... huns... ahhh... rrrr... Grunhidos ou sons guturais? Ele era ele. O que podia ser. O possível naquelas paragens. Pensava sim... Confuso, mais por necessidade de reagir. Reagir ao impossível viver. Farrapos no corpo. Molambento. Pele ou couro? Carcaça ou esqueleto? Mas ora poispois... firififi ... (Assobiava o demo?!) queria ver quem se aprumava assim... firififi (de novo) queria sim... queria ver se alguém podia... ele sim! Corpo mamulengo. Espinha quebrada parecia. Espinha curvada lá na gruta, onde a chuva só escorria mas num encharcava. E tirintava. Osso contra osso. Batuque natural. Já nem sabia dormir deitado. Ê bicho! Ê homem! Acocorado. Vivia anssim. Se é que isso é vida. Sol causticante. Vento da noite. Poeirão. Um olho só. O outro vazado. Inda mais escura a madrugada! Cobra deu bote. Pedra no couro, hã... huns... pele arrancada e a carne crua na boca (ou túnel na escuridão?). Ê homem! Ê bicho! De bucho cheio é tudo igual. Dorme.

   Volta pra fora. Sol já vai alto. Chapéu de couro de cobra, que é pra ela aprender. Não se meter com bichos outros. De outra laia. Vá bulir com os seus! Cobra, eu sou um cabra valente... firififi... sou um homem valente... ah...hum...rrrrr esqueci, adesculpe minha gente! Sou bicho valente! E nas quebradas vou indo reto torto enviesado. Num é que hoje vejo parado outro bicho ingualzinho a eu? Bicho com vaso de barro e uns panos compridos enleados escorregando até o chão. Diante do meu espanto se adianta e responde – É uns babado, seu moço!... e eu coço a carapinha, muito do desconfiado! Que bicho é esse? Nunca vi! Vozinha fraca fininha quinem um firififi... e pelas frente é redondo, duas bolotinhas bambas murchas... Tô mais que desconfiado! – Moço, num se assuste cumigo, sou Zefinha, uma cabocla do Sítio dos Encostados. Moço?! Onde está esse tal de moço? É outro bicho também? E eu que vivia sozinho, num segundo, fico sabendo de outros bicho... moço, cabocla. Tô de olho arregalado! Vô voltar para minha toca e o bicho se gruda em mim. Ai ai!... hum hum!... que comichão que esquisito, o animal cai por riba quase me rompe a cangalha, mas agora num quero mais ir se embora... rrrr firififi... parece o guizo da cobra! Assim mudou minha história.

   Fui lá pra junto de outros bichos. Falavam que eram homem e mulher. Eu é que nem acreditava. Pra mim conversa fiada. Mas quando o bicho cabocla se aproximava de mim. Eta coceira da braba! Coça daqui e de acolá!... E foi nascendo outros bichinhos; os mais velhos avisavam... é menino é cabrochinha... e eu sem acreditar! Mas eu num dizia nada, pois nem sabia de mim!... Me chamavam de seu moço, mostraram grotão de água, me levaram nas caçada de calango e de carcará. Pra mim era muita guloseima, eu era bicho do mato das pedra das terra dura só comia cobra morta e crua. De quando em quando um preá. Eles faziam uns assados nuns gravetos espetados. O fogo por baixo aceso. Eu num tinha precisão. Da carne crua sai sangue. Bebida boa!... E eles – Ô mano, ô meu mão, deixe disso! E eu – Que teimosia, nem mano e nem meu mão!... Vassuncês são tudo bicho, da serra inté o chapadão. Mas ninguém me dava ouvido!

 Então foi que tudo aconteceu. Chegaram uns cabras do mato, cobra ruim olho injetado, vermelho sangue veneno.  Com arma de precisão. Metralhadora e parabelo, mais tarde eu vim saber. Funcionava quinem os golpes de pau que eu dava no lombo das cobras. Mas era muito mais apressado e pro chão vi meninins mulés e homes arremessado. Melhor dizendo, ê doidera, tudo bicho estrebuchado! Eu que sou bicho calejado fiquei com água nos olhos... eu que nunca havia chorado! Num entendia o porquê daquela maldade toda pois se quisessem di cumê, ali tinha muito pra toda tropa de bichos se fartar! Foi entonces que aprendi que há bicho de muita espécie – bicho sonso olho de vidro que chega só pra arreliar!

  Eu que vivia sozinho, pele e osso, mas sossegadinho, rrrr...rãrã... Ventania veio brava tudo que é tronco vergava, num sou bicho de mentir! As quatro patas escoiceavam. Pelas narinas punha fogo! Só via cobra pestilenta mas nenhuma resistiu. – Sou filho das matas! Tenho sangue de boiúna – foi ela quem me pariu! Agora a fuga foi em massa e muitos bichos sangraram, lavando toda chapada. Fui simbora. Comigo só a cabrocha e dois vivos mulequins, meus bichos sobreviventes. Ensinei a travessia. Morada boa é na gruta. Noite escura. Proteção. Carne de cobra. Carne crua – sangue bebido...  nem necessita  grotão. E pra quê acender fogo? Pra chamar cabra malvado, bicho de outras laias e lugar? !

   E aqui vamos vivendo. Assim. Desse jeito. Cada um com a sua identidade. A minha é de animal.

 

 

Conheça outros parceiros da rede de divulgação "Divulga Escritor"!

 

       

 

 

Serviços Divulga Escritor:

Divulgar Livros:

 

Editoras parceiras Divulga Escritor