Redenção - por L. A. Tecau

Redenção - por L. A. Tecau

 

Redenção

 

Qual a sua dúvida, Isabela? Tá tudo tão claro no regulamento…Tem que constar sua nacionalidade no título. Tem sim. Tem que ter você lá, Isabela. Lembre de Neruda: começa com uma letra maiúscula, termina com um ponto final. No meio, coloque a ideia. 

Isso não serve, Isabela. Não,não. Esse teu material tá pra concurso infanto-juvenil.  Assim…aquela moça ali, distraída, veio contigo? É sua amiga? Pode chamá-la? Oi, tudo bem?  Preciso de sua ajuda pra mostrar algo pra Isabela, pode ser? Pode ficar em pé no meio da sala, por favor? Tire os sapatos. E não me olhe nos olhos, mire no relógio no centro da sala. 

 

Presta atenção, Isa. Puxei uma folha de papel amassada, dei uma olhada e enfiei de novo no bolso. Parei a três metros da voluntária, que fitava fixamente o relógio. E fiz o que devia ser feito.

 

Veja, contemple, permita-se! A inocência morreu! Venha, vamos cremá-la num ritual ao som de tambores, rodando em torno de uma grande fogueira! Vamos enterrá-la num puteiro, entre gemidos falsos e orgasmos pagos! Beba, embriague-se, vomite a inocência! Solte seus demônios, deixe que eles te seduzam, depois os exorcize para bem longe!

 

Não temos muito tempo, portanto erre o máximo que puder. Estamos no lucro! Aprenda no erro, trapaceie, ganhe e perca. Diga adeus às Marias e aos Pedros, não tente entender tudo, não perca seu parco tempo. Coma com as mãos, goze com os olhos, fira com boca, ame com a alma. Ela é a única que jamais perderá a pureza.

 

Não perca seu tempo precioso ocupando suas duas mãos para segurar uma máscara barata e fina. Mostra esse rosto lindo. Arreganhe dentes e pernas. Faça suas escolhas. Ou jogue roleta russa. Foda-se. O tempo urge, eu estou aqui e você não meu viu ainda? Sento ao teu lado no ônibus, mas não me vê. Grito em seu ouvido, mas bloqueia meu discurso com um fone barato. Apalpo tua coxa, mas não sente meu calor. Te como com os olhos, mas boceja com cabeça apoiada na janela.

AINDA NÃO ENTENDEU? EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ NÃO SINTA O MESMO!


Fiquei em silêncio. Ficamos calados. A voluntária calçou os sapatos, mas não olhava mais para o relógio. Quando dei por mim, Isabela não estava mais ali.

 

 

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