Resenha profissional do livro O OUTRO do autor Mário de Méroe

Resenha profissional do livro O OUTRO do autor Mário de Méroe

A trama da vida, recriada no texto de “O outro”, de Mário de Méroe

 

Por Alexandra Vieira de Almeida 

 Doutora em Literatura Comparada

            

Partindo da etimologia da palavra “texto”, que vem do latim textus, que significa “tecido”, o romance “O outro”, de Mário de Méroe, mostra esta perfeita urdidura textual, em que os fios das palavras se entrelaçam, de forma coesa e coerente, para formar uma unidade, a trama. Todo o enredo, no seu livro, é bem estruturado, os fatos passados no século I, em torno da figura essencial de Jesus de Nazaré, encaixam-se perfeitamente na narrativa da segunda parte do livro, situada no século atual. A trama do texto, paralelamente, reflete a trama da vida.

 O romance apresenta o pleno conhecimento dos saberes em várias áreas de conhecimento, desde o aspecto histórico, passando pela biologia, geografia, literatura, religião, jurisdição, política, revelando um valor “transdisciplinar” (Edgar Morin) na sua obra, pois os conhecimentos não são compartimentados e separados como ligados ao conhecimento clássico, mas interconectados e dialógicos, mostrando mesmo o que foi falado inicialmente, seu livro como tessitura que interliga tudo numa trama bem acabada e perfeita.

O narrador utiliza notas de rodapé para explicar vários destes saberes, inclusive linguísticos, quando cita palavras e expressões latinas, francesas, dentre outras. Não seria apenas um conhecimento erudito, puramente intelectual, mas que cria uma sensibilidade ao trazer à tona o aspecto da “intuição” ao entrelaçar tão belamente e ricamente as partes formando um todo original. “Intuição” esta que será a ponte entre o aspecto do sagrado e sua transposição para o literário.

As personagens são densamente trabalhadas, são complexas e problemáticas, revelando um processo de “aprendizagem” em que elas passam da exteriorização à interiorização e vice-versa. Gestas, por exemplo, o personagem principal aqui nesta obra, tido pela tradição como o “mau ladrão” que foi crucificado do lado esquerdo de Jesus, quando foge para a caverna, tentando se esconder para não ser preso, devido à fama de ladrão; passa por um processo de recolhimento e meditação ao ficar só. A solidão é o primeiro passo para a “reflexão”. E, aqui, o indivíduo se contrapõe à sociedade hipócrita e homogênea, onde cabem os caracteres e não a complexidade psicológica.

Neste livro, “a maior história contada de todos os tempos”, como o narrador mesmo faz questão de mencionar com relação à figura do Mestre de Nazaré é urdida a partir de um personagem secundário, à margem da sociedade e os personagens secundários que caminham à volta dele também são marginalizados, dando estatuto de importância a estes seres imperfeitos, embora todo o “tecido” do enredo se configure como “realização” da promessa do ser mais perfeito e divino, Jesus Cristo.

 Na primeira parte do livro, temos realizada a concepção cristã do mundo que é complementada coerentemente pela visão espírita da segunda parte. O romance também faz um jogo entre “ocultações” e “revelações”. Os personagens estão a todo tempo segredando algo para depois revelar. Na primeira parte ocorre isto, mas mais como “dissimulação”, “mentira” das personagens que representam obstáculos àqueles que passarão por provas para se redimirem carmicamente na segunda parte, com outros nomes, vidas. Um novo enredo se cria, embora a trama maior una as duas partes, que não são fragmentadas, mas complementares. Testemunhas de defesa e de acusação no julgamento de Gestas mostram estes jogos de “verdades” e “mentiras”. A história “real” é desconstruída através das versões sobre um mesmo fato, que demonstram a pluralidade dos sentidos, as várias vozes de que o texto literário se compõe para criar sua rica complexidade.

Na segunda parte, o mesmo jogo aqui se apresenta, mas muito mais interligado ao que se mantém na “interiorização”, no segredo, como podemos ver com relação ao padre Zequinha, que esconde acontecimentos que ocorrem com ele, na sua relação com o mundo sobrenatural e aos fatos que estão ligados a um mesmo acontecimento narrado na primeira parte. A tradução do sagrado para o literário aqui se faz presente, pois, segundo o filósofo Pascal, Deus é o que está oculto, “Deus absconditus”, não sendo revelado claramente pelo mundo sensível, enquanto para a posição calvinista, Deus é o que é revelado, o “Deus revelatus”.

Esta transposição do religioso para o artístico se impõe belamente aqui neste romance, em que a literatura se propõe a ser, na sua tessitura mágica, um jogo de encobrimento e revelação, mostrando como o plano espiritual e o literário se complementam. Os personagens do livro estão a todo tempo se revezando neste pingue-pongue, em que coisas que estavam escondidas no plano sobrenatural ou mesmo no inconsciente aparecem no plano da “conscientização”.

Octavio Paz, excelente poeta e crítico literário, revelou-nos que a “imagem poética” mostra os contrários coexistindo num mesmo plano. Ele disse: “E o próprio homem, desgarrado desde o nascer, reconcilia-se consigo quando se faz imagem, quando se faz outro”. Neste sentido, o título do livro de Mário de Méroe, bem representa esta hipótese, pois o “outro” não é apenas Gestas, este personagem principal, mas todos nós, a humanidade, que passa por inúmeras provas, expiações e resgates, como o livro explica lindamente, para encontrar a sua essência, a sua imagem.

O livro em questão ganhou o Primeiro Prêmio Internacional de Literatura, na Segunda Expo Internacional Coninter, em Estoril – Portugal e, não é por menos, a obra é ricamente trabalhada, apresenta uma profundidade de detalhes em várias áreas do conhecimento, os personagens são trabalhados de forma densa, sem se ater à uma estaticidade e à imobilidade das personalidades, revelando que a religião não é algo sem consistência e complexidade, pois o “Espiritismo” mesmo é a tese que representa a teoria da evolução em ciclos, como ocorre neste romance. Longe de se caracterizar uma postura fraca e unívoca, o sagrado é multifacetado e vário, como podemos ver na caracterização dos personagens que passam por um processo de “reconhecimento” dos erros e posterior evolução.

Giambattista Vico, filósofo italiano de outro século, na sua “história eterna ideal”, mostrou-nos que a história não é linear, como uma postura tradicional entreviu, mas cíclica. Esta visão se casa inteiramente à “doutrina espírita”, sendo o romance aqui uma “obra ensaística” que vai provar esta hipótese a partir do enredo bem articulado, em que fatos do passado se repetem em diferença nas vidas dos novos personagens, na segunda parte do livro. Isto revela, é claro, uma dimensão diferenciadora e plural com relação à norma vigente, desconstruindo a “história tradicional”.

Portanto, este livro magistral de Méroe une o “real” e o “ficcional”, a mescla entre o popular e o formal, pois faz um diálogo entre passado e atualidade, ao citar não só questões antigas, mas trechos ligados a conhecimentos de nosso século, fazendo de seu livro algo circular, que vai desde o antigo passando pelo moderno. A imagem aqui se propõe e o livro deste autor excelente é um rico panorama paradoxal da própria trama da vida que não é nada mais do que a trama do texto.

 

 

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