Resenha profissional do livro O Refúgio do autor Mário de Méroe

Resenha profissional do livro O Refúgio do autor Mário de Méroe

Entre a iluminação descritiva e a complexidade psicológica no romance “O Refúgio”, de Mário de Méroe

 

Por Alexandra Vieira de Almeida

Doutora em Literatura Comparada

 

Encontramos uma tensão forte, rica e complexa neste romance extraordinário do autor Mário de Méroe. Ele consegue a difícil artimanha de unir num mesmo livro, a iluminação descritiva com a complexidade psicológica das personagens, que não externalizam figuras emblemáticas, arquetípicas, mas indivíduos oscilantes; em que temos ao mesmo tempo a preocupação num trabalho de pesquisa histórica, bem fundamentada nas descrições de detalhes existentes na época em que ocorreu a narrativa com a densidade marcante de suas personagens.

Erich Auerbach, no importante texto “A cicatriz de Ulisses”, que abre seu livro “Mimesis”, já localizava a diferença entre a forma de escrita homérica e a tradição judaica, desenvolvida no Velho Testamento. Para este teórico, Homero utilizava a técnica de clarificação dos acontecimentos, referindo-se ao “retardamento” das ações para se reportar ao passado e não deixar nada na penumbra. Por outro lado, o texto bíblico apresenta “segundos planos”, com seu “inacabamento”, principalmente no que se refere à complexificação das personagens, que apresentam muita profundidade. O que percebemos aqui nesta obra estudada é que Mário de Méroe conseguiu forjar uma arquitetura tensa, oscilante, entrecruzando tradições distintas, unindo formas que poderiam parecer inconciliáveis, mas que através de seu livro ganham dimensões até então pouco exploradas. A riqueza de minúcias sobre a época narrada é formidável e esclarecedora para o leitor. O autor tem um vasto conhecimento histórico, que é mostrado ao longo de sua narrativa a partir da descrição para iluminar certas passagens no romance, para que não se crie um vão entre o que vai ser narrado e o terreno anteriormente criado. Quando o autor narra o momento em que Jesus passa pela fragilidade no Monte das Oliveiras, prepara de antemão todo o terreno para o leitor conhecer sobre a região, sobre a localidade que tinha grande número de plantações de oliveiras, passando da etimologia da palavra “Getsêmani”, por seu aspecto geográfico até o econômico. Quando Umberto Eco, no genialíssimo livro ensaístico “Seis passeios pelos bosques da ficção”, cita Ítalo Calvino (“O tempo narrativo também pode ser lento, cíclico ou imóvel.”), para complementar sua visão anterior de que a narrativa de ficção deve ser necessariamente rápida e, extensivamente elíptica, ele diz: “Vamos a um bosque para passear”. “Bosque”, explicado por Eco como metáfora do texto narrativo.

Naquele sentido apresentado por Calvino referido por Eco, Méroe, faz este “retardamento” da narrativa para clarificar a partir das suas descrições, sejam históricas, políticas, etimológicas, jurídicas, fatos que ocorrem durante a narrativa. O que era elíptico torna-se preenchido, extravasado, caudaloso como o rio da iluminação perpetrada pelo sol da inteligência. Por outro lado, o narrador cria uma linda tensão que envolve o leitor nas suas malhas tênues, finíssimas, fragmentárias, entrecortando o véu desta memória seletiva. É a complexidade psicológica tão bem encontrada no texto bíblico, pois a personagem principal, por exemplo, Esther, que passa pela prostituição, mostra uma transmutação em contato com o Mestre Jesus. As personagens não são sempre iguais a si mesmas, apresentam contradições ao longo da narrativa. A própria figura de Jesus passa por esta modificação e transfiguração. O autor deste livro utiliza-se magistralmente da intertextualidade ao se referir à Bíblia como seu texto de base, esta tida como verdadeira pela tradição, para criar uma história ficcional, entremesclada no relato bíblico. Mário de Méroe joga equilibradamente com os dois pesos na balança para questionar as dimensões entre o que seria factual e o ficcional. 

Quando o narrador, no capítulo 5, nos relata sobre o lago de Genesaré, e mais uma vez nos clarifica com suas descrições, ele faz questão de dizer: “...constando ser ou ter  sido, à época desta narrativa, famoso por sua abundância em peixes”.  É como se o narrador nos envolvesse de tal forma em suas palavras para a fé em sua história que tem algo de belo e verdadeiro a mostrar. Ultrapassando as barreiras entre fato e ficção, as suas personagens não se encontram no terreno longínquo do mito, são verdadeiras, mais do que reais, devido à complexidade que se encontra nas suas interioridades. Voltando-nos para Jesus, este revela temor, transpirando sangue. O que era a força do filho do Criador, transfigura-se em fragilidade, mostrando-nos a própria complexidade da vida. Ao Jesus dar a benção a dois personagens ficcionais, “Lúcio e Tércio”, deparamo-nos com esta profundidade da vida, borrando os terrenos do que é real ou imaginário. O narrador relata: “O vazio da incerteza que povoava suas almas fora substituído pela compreensão da complexidade da vida, como Deus a desenhou, com seus contornos nem sempre visíveis e ao alcance do entendimento de todos os homens”. Não é esta a profundidade da vida com seus ocultamentos, que percebemos também no jogo literário?  A partir disto, nos lançamos nas ricas estruturas desta narrativa ficcional, que mistura e tensiona estilos diversos, revelando as múltiplas faces das formas da vida e do texto. O “Refúgio”, como o próprio título do livro indica, não se dobra apenas ao elemento carnal e de prazer na vida anterior de Esther, mas à dimensão paradoxal de Jesus que testifica as oscilações entre a matéria, o mistério da “Encarnação”, com o mistério da transfiguração e elevação espiritual. Mário de Méroe consegue através de seu livro magistral reunir duas realidades tensas e densas, nos revelando o aprimoramento da escrita que se enverga na dobra da realidade complexa e ao mesmo tempo clarificadora.

 

 

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