Resenha profissional - Livro: Sangue Português - Autora: Raquel Naveira

Resenha profissional - Livro: Sangue Português - Autora: Raquel Naveira

Resenha do livro “Sangue Português”, de Raquel Naveira 

por Alexandra Vieira de Almeida -

Doutora de Literatura Comparada

 

 

No poema que abre o livro e dá título à obra de Raquel Naveira o que nos chama a atenção é o fulgor da resistência da memória que perpassa como angústia do presente que quer se libertar da nostalgia do passado, mas que não nega a genealogia do sangue português. O desconhecido que se adentra como imagem de um futuro, a um mais além de si mesma, de sua origem aparece como assombro, como algo grandioso. Neste embate entre passado, presente e futuro, só resta o cultivo do eu da autora que se espraia no coletivo, seja sua família, ou a própria pátria portuguesa.

 Em “Língua Portuguesa”, o concreto e o abstrato se unem através novamente da imagem do particular, do seu eu, que aqui se apresenta como fisicalidade, a “língua”, parte do corpo do eu-lírico que toca o imponderável, a beleza da “língua portuguesa”, que é a criação não só do coletivo como do individual, com seus falares, dialetos, idioletos. Nesta bela metáfora, rica e vibrante, as línguas se tocam num abraço cheio de erotismo e sensualidade, tão bem trabalhada pela poeta neste livro. A mistura das línguas, das suas variações forma a antropofagia cultural que se estabelece nos contatos entre culturas, enriquecendo, por sua vez, os idiomas dos países que se chocam. Este poema fala belamente deste habitar, desta outra margem, da fronteira que ultrapassa os limites do círculo.

No poema “Figueira da Foz”, quando a autora fala de seus bisavós e de sua origem, utiliza encantadoras imagens da natureza para representar a nacionalidade de seus antepassados. A natureza como símbolo, como mímesis de uma origem, de uma genealogia é apresentada de forma peculiar pela autora. Se é costumeiro apresentar a natureza como representação da nação, a poeta, originalmente, mostra-nos a natureza como espelho do sangue, da origem, da genealogia, ultrapassando o coletivo para atingir o individual. Esta fronteira, este entrecruzar entre dois que forma o uno. O múltiplo que forma a unidade, a síntese, condensa-se na obra desta grande poeta. Isto aparece de forma belíssima no seu poema “Bocage”, em que se mesclam não só os estilos do poeta, o satírico e o lírico, o profano e o sagrado, mas num processo metalinguístico, entre vida e obra, a sua vida de devassidão que se parte em dois, seu reflexo em obra, através do viés jocoso, e sua extrapolação, pelo caminho mais refinado. Já foi dito por Terry Eagleton, no seu livro “Teoria Literária: uma introdução”, que ficção e fato não devem ser uma dicotomia ao se falar de literatura, como se esta fosse o reino da pura ficção, sem a mescla da realidade. Este autor desdiz esta máxima. E Raquel Naveira estabelece esta ponte de maneira envolvente entre vida e obra no autor-poeta Bocage. A poeta admira as travessias neste livro, os paradoxos da vida, dos indivíduos, das formas. Utiliza estrategicamente uma sequência em que apresenta um anjo-mulher, no poema “Margarida”, ao falar de uma personagem do escritor Júlio Diniz, uma mulher celeste, pura, com candura e logo após esta placidez, nos mostra um ser turbulento, demoníaco, num lindo contraste, o “anjo negro” Lord Byron no poema que vem logo após “Margarida”, em referência ao poeta britânico.

A ponte entre ficção e realidade aparece mais uma vez no poema “Ricardo Reis no Rio de Janeiro” em um jogo lírico, no qual a poeta nos brinda com o poder de imaginação, de literariedade levada ao extremo. O eu-lírico conheceu de forma visionária Ricardo Reis no Rio de Janeiro. Aqui o poema se revela como “visão”, como profecia que une o passado e o presente. Mas Ricardo Reis não existiu, só no papel, como alter-ego de Fernando Pessoa. Desta forma, a autora joga mais uma vez com nossa percepção ao mostrar Ricardo Reis, o heterônimo de Pessoa, como ser real em sua poesia, ela “realiza” o ficcional, o instaura como real, fazendo o jogo inverso entre vida e obra, entre ficção e realidade. Se a literatura traz o real para o texto ficcional, Raquel Naveira, de forma magistral, cria uma imagem original, traz o ficcional da vida, do real para a realidade-ficção do texto. A poeta se “heteronimiza” como Pessoa, criando a ponte entre a vida ficcional de Ricardo Reis, que teria vivido no Brasil, com seu eu-lírico que pessoaliza este encontro.

O entre-lugar entre nações, entre a pátria de Portugal e do Brasil é vista de forma primorosa no poema “D. Pedro em Queluz”, em que temos um ser bipartido, as nações como partições do próprio eu, o coletivo imerso na interioridade. Como espelhos sagrados, estas duas nações formam a unidade temática da obra desta excelente poeta, que conduz o leitor por um verdadeiro passeio geográfico, histórico, literário, erótico e filosófico.

Nesta obra magistral não poderia faltar a cultura africana, formadora também de nossa identidade, no entrecruzar de matizes, de cores, das raças que elevam a nação brasileira para uma raça múltipla, diversificada. No poema “Navio Negreiro”, uma referência a Castro Alves, a poeta revela a beleza e a dor numa metáfora magnífica, o caixão, a tumba, o sepulcro, que representam a morbidez, a insanidade da escravidão que esquarteja a vida na imagem da nau, do navio “luso-brasileiro”. Nos poemas sobre África, aparece outra mestiçagem, entre o africano e o português, unindo as genealogias, as origens, num entre-mesclar de culturas, que enriquece nossa nação. Além deste aspecto geográfico-histórico e linguístico, a poeta se mostra como engajada, ao falar em seus poemas sobre os países africanos em seus movimentos de libertação do jugo colonialista. Neste viés político, Raquel Naveira se apresenta como plena de si, do seu “papel solidário”, “revolucionário”, “fraterno”, de defesa do irmão, como uma boa cristã deve seguir. Cristo, como imagem deste ser revolucionário, que luta pela “presença do ser”, de sua liberdade frente à opressão se torna figura emblemática nesta poesia de cunho político desta poeta, que não reflete o puro didatismo, mas o ultrapassa através de seu matiz poético-lírico.

Mas não é só no sofrimento que a escritora se move para falar da África, também nos revela suas belezas, a natureza, a candura. O ultrapassar dos limites é uma constante em sua poesia, em que temos a mistura entre o profano e o sagrado, o mais simples e o mais sublime, a união das nações, dos terrenos, das línguas, dos indivíduos, neste livro rico e sugestivo, que vai ficar na nossa história e na “história” da própria autora-poeta.

 

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