Rosa Coelho - Entrevistada

Rosa Coelho - Entrevistada

Por João Paulo Bernardino – Escritor

 

Nascida a meados do século passado, foi baptizada à pressa, para se salvar a sua alma de doença súbita, e ainda recorda o cheiro do pão com omelete  no cesto do lanche do irmão. Tirou o curso de Ciências Farmacêuticas na Universidade de Coimbra, sendo farmacêutica de oficina há pelo menos de 35 anos, deixando assim para trás o sonho de um dia ser ginasta de profissão. Com fama de extrovertida, o que é um disfarce, é profunda em tudo o que sente e rasa em tudo o que faz.

 

“Escrevo tendo como pedra basilar o que vejo mal e gostaria de mudar, o que vejo bem e gostaria de exaltar. Escreverei sempre, mesmo que nunca ninguém me leia.”

 

Boa Leitura!

 

JPB – Estimada Rosa Coelho, os meus agradecimentos por ter aceitado colaborar com a DIVULGA ESCRITOR e dar-nos a possibilidade de a conhecermos um pouco melhor. Diga-nos como, depois de tantos livros publicados, onde prevalecem o amor e o desamor, a negação à rejeição, à traição e violência, apelando aos mais altos valores da vida como a fraternidade e a honestidade, tem ainda em mente a publicação de quatro novos livros (uma narrativa “Vozes do Destino”, um conjunto de contos/poesia, um terceiro de poesia com o nome “Abraços” e um conto infantil). O que pretende confessar aos leitores nesta fase da sua vida e porquê?

ROSA – Desde que o mundo é mundo que está sempre em contante mudança. Há sempre novas coisas a acontecer que despertam os nossos sentidos a que eu, como a maioria das pessoas, não fico indiferente. Escrever faz parte de mim. É uma fonte que jorra água, pingando sempre. E olhando as pessoas, o mundo em que vivo, a crise que a todos afecta, o meu ser tem cada dia mais desejo de continuar a gritar a este mundo o que sinto pelo que observo e dele consigo captar. Há gente que sofre, outra que ri, sucessos e insucessos, violência atroz, pais que o são outros que não sabem sê-lo, fome, miséria…tanto desamor…Como calar tudo isto? Escrevo tendo como pedra basilar o que vejo mal e gostaria de mudar, o que vejo bem e gostaria de exaltar. Escreverei sempre, mesmo que nunca ninguém me leia.

 

JPB – Sempre apreciei a forma como escreve e noto, possivelmente por a Rosa ter criado o Grupo Célula de Evangelização, que Deus está muito presente nos seus textos, sobretudo apelando ao Bem e à Justiça, valores cada vez mais raros neste mundo. Porque razão, os seus livros e trabalhos são um reflexo dessa procura incessante e o porquê de tanto foco Nele nos seus trabalhos?

ROSA – Se não vivermos em estreita comunhão, uns com os outos, unidos em Jesus, que de facto foi Homem e deu a Sua vida por nós, morrendo na Cruz, por vontade do Seu Pai, a vida não terá sentido. Será um fazer por fazer, não sendo mais que isso, segundo o meu ponto de vista católica praticante. Deus está comigo em cada passo que dou, conhece-me inteira, e a todos nós, por completo. Abri-lhe há muito a minha porta, (já que a Dele está SEMPRE aberta a cada um de nós), pois sei que sem Ele a meu lado, nada conseguiria. Preciso pedir-Lhe pelo mundo perverso em que vivemos, por todos que não O crêem, por mim e pelos que amo. Ele é o meu Guia, é Ele que me tem ajudado em todos os momentos dolorosos que tenho vivido, e que têm sido alguns. Mas sobrevivi. Estou aqui, de pé, com Ele a meu lado a dizer-me “escreve, continua”. Só deixarei de escrever se, um dia, sentir no meu coração que Deus procura em mim algo diferente para eu fazer. Sendo assim, como posso deixar de O procurar, através do que tão simplesmente escrevo, relevando o bem, valorizando o que penso ser mais correcto?

 

JPB – É difícil de se encontrar nos escritores em Portugal alguém que retrate tão bem o amor como a Rosa o faz. Será por acrescentar nas vidas dos leitores algo tão maravilhoso e inesperado como o sonho e o desejo de amar o próximo, o seu semelhante, tal como a Rosa sempre o fez ao longo da vida?

ROSA – Isto que diz, é um elogio para mim, não o mereço! Obrigada. Tantos poetas cantaram e cantam o amor de formas tão diversas, maravilhosas e eloquentemente. Eu apenas sou uma escrevente que escrevo o que a minha alma me dita. E ela diz-me que o amor é urgente na alma de toda a gente. Sempre lutei pela paz, por amar e ser amada, compreender e ceder, tentando ser compreendida sem desistir. É o que faço: amo e procuro dizer a todos como o amor é importante nas nossas vidas. Nem sempre a vida é o que desejaríamos que fosse e quem procura o amor, também sofre, por muitas vezes sentir a negação e a rejeição. “Quantas vezes a mãe canta, com vontade de chorar…”. E é isto um pouco. Amar dá dor e lágrimas, encobre muita coisa, não dá só alegria e nem sempre se é correspondido. Mas um homem que viva e morra sem ter amado, sem ter sentido e vivido o amor, não viveu de verdade, apenas vegetou. Amarei tudo e todos, incondicionalmente e sempre, até que a lucidez me habite.

 

JPB – A escritora Anais Nin escreveu que “ajusto-me a mim, não ao mundo”, enquanto o poeta Emily Dickinson disse que “todo o meu património são meus amigos”. A Rosa, que é uma mulher deveras sentimental, mãe apaixonada e ansiosa por um neto que transformará positivamente a sua vida, católica praticante cujo seu livro de eleição é a Bíbilia e onde se baseia para que Deus lhe dê sempre inspiração para escrever, como comenta estas duas frases?

ROSA – Sim, concordo com Emily e revejo-me totalmente na sua afirmação. Que seria de mim sem amigos? Quanta dignidade e amor cabem nessas suas palavras. E que bom seria se todos pensassem assim! Vivemos uma vida que voa. Os bens materiais fazem-nos falta, mas que seria de nós, com eles, se estivéssemos sós. E o amor continua a perseguir-me porque o amor não existe só entre duas pessoas, ele existe de formas e cores. Deus disse, “amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”. Ele amou-nos até à morte e pediu que nos amassemos como nos amouSim, sem os meus amigos eu seria diferente. Depois, sofri um furto de muito valor e continuo a viver. Aquilo que me levaram, foi-se, mas os amigos, esses ficaram. Ficam sempre para além de nós partirmos, pois sempre nos hão-de recordar. Ajusto-me ao mundo e a mim, não só ao mundo, não como diz Anais, que se ajusta só a ela…E os outros? Ela não existe só! Tento viver como numa balança, mantendo o fiel a meio, ora tombando para um lado, ora para o outro, evitando o desequilíbrio completo. Seria o caos, imagino.

 

JPB – Há muito que ouço dizer que “a vida toda é um doer”. A Rosa já sentiu a dor da perda (retratada em parte no livro “O SACO DE NOZES”, que a ajudou a aliviar) e a dor dos sonhos que procurou ansiosamente e possivelmente nunca os encontrou (“AQUI FICA O LENÇO”). Há também uma frase sua que me reteve de que “ninguém vive constantemente repleto de felicidade”. Sabendo disso, considera que os seus trabalhos literários possam atenuar a dor e salvar uma vida apenas com um forte abraço? (“ABRAÇOS” – 3º livro de poesia).

ROSA – Na verdade, para mim, a felicidade existe, sim, mas em pequenos momentos que devemos viver intensamente. Ninguém é, todos os dias, cada segundo do dia, feliz. Não pode ser, senão viveria numa euforia que seria doença. É o que imagino. E na vida sofre-se. Perdem-se amigos, familiares, somos roubados, traídos, temos doenças, algumas muito graves, vemos famílias com fome, sem tecto, assassinatos loucos, guerras, somos confrontados com a fome, o desemprego, a droga, os sem abrigo, a prostituição, o desamor, a crise, a falta de auto estima (seja pelo que for)…como não sofrer? Sim sofro! Fui roubada, em casa, de todos os valores que juntei uma vida e sofri também por isso, mas passou. O amor não me caiu aos pés como o sonhei e sofri. Sou uma irremediável romântica. Desde pequena fui confrontada com muita violência doméstica e sofri. Na escola, talvez porque nunca saía de casa, suponho eu, fui preterida, tal como em casa, onde por ser mulher ficava em 2º plano e sofri. Na escrita encontrei uma porta de libertação, uma aragem que me refrescou e transformou, com a ajuda de Deus, lentamente. Mas contudo ainda sofro…

 

JPB – O que realmente encontra de verdade em tudo o que escreve e publica para que os leitores escolham os seus livros em detrimento de outros?

ROSA – Quando imagino uma história vou buscar o rochedo (enredo) que a sustentará até ao final, a algo que aconteceu no mundo, a alguém que conheço ou conheci e viveu algo que preciso dizer ao mundo por ser muito importante, por ser bom ou mau. Sinto urgência em fazer essa divulgação, ainda que por vezes as pessoas já o saibam mas vivam encobrindo sem reagir. Depois recrio tudo. O ambiente, os personagens, os locais…tudo feito com pesquisa, mas os valores fundamentais que me levaram a escrever aquela história, baseando-me numa situação determinada, estão lá. Não acredite contudo que me escolhem em detrimento de outros, não o creio. A distribuição das editoras é menos boa, e assim só me lê quem gradualmente me vai conhecendo, num boca a boca entre leitores.

 

JPB – Ao escrever com o pseudónimo de INÊS MAOMÉ, pretende realçar a sua revolta para com o mundo onde vive e gritar a sua dor e desamor apenas porque é mulher ou sobretudo porque, enquanto escritora e cidadã livre neste planeta, quer demonstrar o quanto devemos louvar a Deus e escrever com verdade o que sentimos em determinado momento das nossas vidas?

ROSA – Nem por isso. De facto sinto essa revolta e quero realçá-la, assim como Louvarei e sempre darei Graças ao Senhor, por tudo que nos dá, mas Inês Maomé, surgiu de uma forma muito natural. Rosas Marias há muitas…seria mais uma, e como algumas tão boas, eu não iria a lado algum com o meu nome, não querendo com isto dizer que com o nome Inês irei, mas seguindo. Um dia, antes de editar o meu 1º livro, num jantar de família, éramos 6. Cada um escreveu num papel um nome próprio e noutro, um apelido. Na verdade na altura, queria mesmo um pseudónimo, coisa que talvez não fizesse agora. Mas resumindo, Inês teve 4 votos (curiosamente o nome de minha mãe) e eu aceitei. Quanto ao apelido nada aconteceu, pois cada um escreveu um diferente. Então pensei, pensei, e eu que sou uma mãe galinha, imaginei um apelido que tivesse algo a  ver com João, José (meu filho e filha, e mãe…Tanto disse estes nomes que de repente me veio à boca MAOMÉ ( mãe+João+José). E assim ficou.

 

JPB – Num país que atravessa sérias dificuldades económicas, políticas e culturais, o que julga ter de existir ou acontecer para que os escritores como nós possam singrar verdadeiramente neste meio?

ROSA – Se eu soubesse, seguiria esse trilho. Decerto precisamos de apoio do Estado, na área da Cultura. Devia existir uma forma de descentralizar os eventos que acontecem essencialmente na capital. As editoras deviam ser controladas, com legislação igual para todas, para não aparecerem aos montes, cada uma com regras diferentes, levando-nos a assinar contratos que não são cumpridos. Mas penso que o fundamental é acreditar e não desistir pesquisando no mercado a editora que mais nos convém e menos falha. Na verdade só aos famosos, no nosso país se dá valor, se prestigia. Eu sou, e serei sempre, uma ilustre desconhecida. Mas, livre de ambições, espero continuar a escrever, enquanto Deus me ajudar e eu conseguir editar os meus livros, como já disse, mesmo que ninguém me leia.

 

JPB – Gosto particularmente da forma como consegue induzir os leitores a reflectir sobre a vida. Será que consegue chegar a esse nível por ser uma mulher que reza muito e uma escritora preocupada com valores tão reais como o amor e a honestidade, ou existe algo mágico que queira revelar à DIVULGA ESCRITOR?

ROSA – Obrigada mais uma vez. Peço sempre a Deus que me inspire, mas se as pessoas que me lêem gostam, é porque de facto lhes consegui transmitir algo que as tocou, e isso é muito bom e deixa-me feliz. Não tenho nada de mágico em mim. Sou muito simples e a minha escrita singela e muito coloquial é que pode atrair as pessoas pelo facto de perceberem bem o que lhes quero transmitir, pois não utilizo as chamadas “palavras caras”. Claro que será sempre sobre as coisas da vida que falarei, pois do que poderia falar? Como tal peço a Deus que me inspire e diga como hei-de fazer, por onde seguir, para depois melhor ser entendida pelos leitores.

 

JPB – A nossa entrevista chegou ao fim e agradeço toda a sua consideração e amizade, sem que não antes lhe faça uma última questão. Sendo que há um ditado que diz que “as glórias que vêm tarde já vêm frias” e que é a sua própria escrita prazerosa que transforma os seus dias e a sua vida em algo de especial, teme que o reconhecimento dos seus livros e dos seus trabalhos venha longe ou isso é uma matéria de somenos importância nesta fase da sua vida em que está mais concentrada na sua pessoa?

ROSA – Apesar de não estar assim tão concentrada na minha pessoa como refere, como já o referi anteriormente, concordo com o que diz quando refere “que a minha escrita me é prazerosa e transforma os meus dias e a minha vida em algo de especial”. Mas não espero louros, nem ser reconhecida, pois sei bem que pouco valho sabendo bem a mediada do meu valor. Sim, sei que nunca subirei qualquer degrau, mas isso não me preocupa muito. Porque haveria de me preocupar? Precisamos ser realistas no mundo que habitamos. Vivo numa aldeia, até já fui várias vezes à televisão, mas não foi isso que me fez mais conhecida ou vender mais. Precisava ser uma figura pública, fazer algo estranho, como casar com o Pinto da Costa (risos), fazer um disparate qualquer, ou então, e isso SIM, ser mesmo muito boa, coisa que não acontece, para ser conhecida e reconhecida um dia. Mas não! Espero ter netos, pelo menos um, se Deus assim o entender, e nessa altura, escrever sempre a olhar esse presente divino com mais amor e muito maior e melhor inspiração.  

 

Contatos com a escritora:

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Contato com o entrevistador João Paulo Bernardino (JPB)

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