Roubando Melancias - por Rubens Silva

Roubando Melancias - por Rubens Silva

Sempre que chegavam as férias, nos meses de novembro a dezembro, os nossos primos, meu tio Negrinho e amigos vinham para nossa casa em João Alberti [RS]. Para nós era motivo de festa. Era a garantia de algumas semanas de diversão e muita traquinagem. Entre as artes preferidas, estava uma nada legal. Roubar melancias!

Negrinho era irmão caçula de meu pai. Croaci José da Silva era seu nome, em homenagem a um político amigo de meu avô, parceiro de Leonel Brizola, quando ainda vivia e fazia política no Rio Grande do Sul. Tinha a idade de meu irmão Rui. Sempre que podia, vinha passar uns dias na nossa casa. Não tinha muito interesse pelos estudos. Seu negócio era música jovem. Jovem guarda. Possuía a coleção completa de Roberto Carlos e dos Beatles que comprava, invariavelmente, com grana surrupiada da caixa do boteco do meu avô.

Rui gostava de tocar gaita. Pelo menos na sua imaginação, imitando os cantores Teixeirinha, Irmãos Bertussi, Gildo de Freitas e tantos outros. Meu pai nunca pôde comprar uma gaita para ele. Se tivesse comprado, talvez ele fosse músico. Reuníamo-nos no galpão dos fundos da nossa casa onde, ao redor de um fogo de chão, tomávamos chimarrão e cantávamos as músicas gaúchas da época. Imitando com gestos o toque do violão e do acordeão.

O Valdir, primo nosso, tinha uma deficiência em seu braço esquerdo. Quando menino, sofreu um safanão da mãe ao ultrapassar uma vala profunda que havia na frente de sua casa. Torceu o braço. Não foi feito o tratamento adequado e ficou seco. Muito traquina era nosso companheiro de brincadeiras nas férias escolares.

Havia também um garoto que morava na cidade e que era amigo do Valdir. Sempre que possível, estava entre a gente no final do ano. Vivia com caganeira. Era chegar à nossa casa, dava uma diarreia danada no Jaime. Lá ia o Valdir e ele para a sanga de manhã cedo, frio, lavar suas cuecas, que estavam borradas. Os lambaris faziam a festa.
Num desses dias, na volta de uma pescaria no rio “Vaca - caí Mirim”, resolvemos roubar umas melancias de uma lavoura de seu Olício Silveira. Chegamos à beira da cerca, olhamos para os lados para nos certificarmos de que não havia ninguém cuidando e entramos. Escolhemos umas duas melancias boas, as que estavam marcadas com alguns ramos em cima. Reservadas para semente. Começamos a comer. Quando estávamos numa boa surgiu, de repente, do meio do nada, o dono da lavoura.

- Han! Han! Roubando minhas melancias seus moleques! – disse seu Olício, montado num cavalo baio bonito.

Desabamos numa corrida desenfreada, um para um lado, outro para o outro. O Jaime, se borrando todo, bateu com a cara na cerca de arame. Foi aquele desespero danado. Mandamo-nos “a lá cria”, como dizem os gaúchos. Não tinha espinho nem roseta que nos impedissem de fugir. Conseguimos nos safar. No outro dia, veio a queixa de seu Olício, dono das melancias, para o nosso pai, que teve que pagar o prejuízo.

Em geral, nossas férias escolares eram assim, nos campos, junto à natureza exuberante da época. Pescaria, futebol, caçando passarinhos e banhando nas cavas. Saudosos tempos aqueles.

 

 

publicado em 11/03/2014

 

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