Rui Carreto - Entrevistado

Rui Carreto - Entrevistado

Por João Paulo Bernardino - Escritor

 

Depois de ter estudado teatro durante um ano no Instituto de Artes e Espetáculos, optou por seguir filosofia e licenciou-se pela Universidade Nova de Lisboa. Desde então tem realizado alguns projetos, alguns deles culturais, e também aprofundado estudos sobre pensamento oriental, também sobre mitologia a partir do trabalho do americano Joseph Campbell — provavelmente o maior estudioso de mitos que viveu no século XX. A Tribo da Pontuação é o seu segundo livro, um que o autor considera ter uma abordagem mitodológica (tendo mitos como método como afirma o estudioso do imaginário Gilbert Durand). Este seu segundo trabalho — uma obra que nos leva a entrar dentro da geografia interior de um livro e a conhecer uma civilização de seres pontuais — prima pela originalidade, criatividade, imaginação e profundidade, algo com que este autor começa a habituar os seus leitores.

 

“...o leitor entra num mundo povoado não só por livros como por outros seres orgânicos de papel, pois nas cidades de papel, papiro e papel – onde se desenrola a trama da obra –  vivem não só livros  mas também outros seres de papel, como é o caso jornais barulhentos; revistas sedutoras;”

 

Boa Leitura!

 

JPB- Antes de mais os meus agradecimentos por ter aceitado o convite para podermos entrevistá-lo para a DIVULGA ESCRITOR. Sabendo que os dois livros que publicou até hoje são romances metafísicos, despertar a imaginação do leitor é a mensagem principal que procura passar através daquilo que considera ser uma “escrita vital” e fazer-lhes ver o mundo de uma forma diferente?

RUI- Se entendermos a metafisica como o onírico, ou falar do que existe através da liberdade que a ficção literária permite: sim, são. Na realidade e a meu ver: a melhor forma de falar do mundo é através de metáforas, uma escrita conotativa, que nos ponha em contacto com as formas simbólicas do imaginário, e há uma nítida distinção entre a escrita de devaneio e a escrita que nos remete, pela ficção, para os problemas mais concretos do ser humano; e eu pretendo exactamente isso com a minha escrita: utilizar a imaginação sempre tendo como referencial o mundo e a vida humana. Por vezes é preciso isso mesmo que referiu: fazer com que o leitor veja o mundo de uma forma diferente, fantasiá-lo portanto, mas que a fantasia tenha como referência algo que faça o leitor olhar o mundo de um prisma original, novo, e, por isso mesmo, que a imaginação seja uma aliada da reflexão.

 

JPB- Sendo formado em Filosofia e um apaixonado pela mitologia e pelo pensamento oriental, a genuinidade é o seu segredo base para que os leitores acreditem na imortalidade da escrita e possam, assim, entrar… no interior de um livro (como sugere no seu romance “LIVROLÂNDIA- A terra dos livros”)?

RUI - A genuinidade na escrita é importante, ela é como uma flor que nasce depois de um escritor absorver a tradição de toda a árvore da escrita, à qual deve juntar depois as suas questões pessoais; para isso deve pôr de parte qualquer tentativa de imitar seja quem for e seguir o seu caminho e processo criativo. No caso do meu primeiro livro “Livrolândia- A terra dos livros” penso que é um livro muito genuíno, encontramos lá algumas questões platónicas (sobretudo do “Fédon”, que fala sobre a imortalidade alma) aqui postas da perspectiva de uma civilização seres orgânicos de papel, pois o objectivo foi exactamente esse: pôr o leitor na pele (neste caso no papel) de um livro; o leitor entra num mundo povoado não só por livros como por outros seres orgânicos de papel, pois nas cidades de papel, papiro e papel – onde se desenrola a trama da obra –  vivem não só livros  mas também outros seres de papel, como é o caso jornais barulhentos; revistas sedutoras; sebentas imundas; exércitos de perigosos livros de bolso e pérfidos almanaques, entre outros seres orgânicos de papel criados, e que pululam por lá, dando a este universo de livros uma plasticidade imagética muito rica.

 

JPB- Considera que a sua formação filosófica ajuda-o a melhor escrever sobre o ser humano e os mistérios que circundam o facto de estarmos vivos aqui e agora, ou é, sem alguma vez ser esotérico, apenas o primor da sua imaginação aprofundando metaforismos?

RUI - Eu não acredito muito na escrita de alguém que apenas pela sua formação académica faz uma exercício retórico de imaginação para enredar leitores na sua escrita; acho que a maior parte dos grandes escritores nem sequer foram académicos, mas partiram de algo que os perturbava para escrever... e isso depois sente-se na grande qualidade das suas obras. No meu caso sempre fui um apaixonado pelos problemas mais fundamentais com que lidamos no nosso aqui e agora que quase se resumem em três ditames: de onde viemos; quem somos; para onde vamos; por isso utilizo a minha imaginação para criar ambientes onde essas e mais questões possam surgir noutros contextos imagéticos, e só não crio romances mais convencionais porque acho que tenho mais jeito para o que estou a fazer, também porque retiro frutos disso, já que eu mesmo acabo por poder reflectir à medida que escrevo.

 

JPB- O seu primeiro livro, “LIVROLÂNDIA” (editado em 2011), representa, do meu ponto de vista, uma ideia estupenda e original: o de os livros serem imaginados como seres vivos, os clássicos da literatura mundial ganharem vida real. Que clássicos marcaram a sua escrita e se pudesse estar à conversa com um deles (diga qual), o que não deixaria de querer saber?

RUI - Na realidade nunca fui um leitor de todo o cânone de clássicos, sempre fui um pouco investigador, procurei ler mais o que realmente me fascinava sem ter que seguir o que estava institucionalizado, e muitos dos livros que mais me marcaram foram obras de autores meio desconhecidos, mas tivesse eu que escolher um clássico dos que li, escolheria talvez o D. Quixote, talvez por ser tão divertido, profundo e espirituoso; não deixaria de querer saber dele o seguinte tendo em conta a interrogação que percorreu o meu primeiro romance: se são os livros escritos por um autor ou se sempre existiram? Ou se eles se serviram de um autor para ganharem de novo corpo escrito? Em suma: perguntaria a D. Quixote se o universo é na sua essência feito de narrativas que querem ganhar corpo, ou se os autores realmente criam algo de novo e mudam o mundo com isso. Acho que ele ia ficar pensativo com isso... lutando contra moinhos de vento da sua própria imaginação... ou então talvez não, talvez me respondesse a essa questão.

 

JPB- Como é que, tendo estudado teatro no Instituto de Artes e Espetáculos, de se formar em Filosofia e se iniciar na escrita, acaba por se tornar num adepto da mitologia, sobretudo a inspirada dos índios nativo-americanos e na sua relação com o Cosmos? Ao escrever de uma forma imaginária e cinematográfica, que tipo de reflexão pretende que se tire dos seus romances com esse seu interesse?

RUI - A mitologia como diz um estudioso de mitos: é a canção na qual dançam as letras e palavras de toda a literatura. O mito tem várias funções, uma delas é ser transparente e pôr o ser humano em contacto imediato com o mistério do universo, por isso, e como as sociedades vão mudando, é tão necessário irem-se criando novas histórias que continuem a desafiar o ser humano, ajudá-lo a dissolver-se no mistério e a encontrar o herói que existe em cada um de nós, e os meus romances pretendem dar essa vitalidade ao leitor: a continuar na senda do mistério e a procurarem o herói que há dentro deles (que há em cada um de nós). Daí também ter essa dimensão cinematográfica, pois, mais que contar uma história, procuro dar a ver uma história; dar uma sensação de presença ao leitor nos ambientes que crio, a sentir-se envolvido, levá-lo mais pela emoção de forma a que ele tire depois as suas ilações psicológicas.

 

JPB - “A TRIBO DA PONTUAÇÃO”, seu segundo romance, oscila entre uma fábula negra e um luminoso canto de sabedoria antiga. Sei que para si, o ser humano quer viver para sempre, tal como os livros (estes representam a alma humana). Numa altura em que se considera que os livros entraram em decadência e parecem não ter energia vital, considera que este seu romance vem desmistificar essa particularidade ou as metáforas que usa neste livro demonstram que a literatura e os livros em Portugal estão bem e recomendam-se?

RUI - São as duas coisas ao mesmo tempo. No actual momento a literatura está de cama a delirar que é um atleta de alta competição quando já não o é, infelizmente para a cultura humana (só para minorias a literatura é algo essencial), no entanto, e acreditando que a alma humana é mais feita de narrativas do que de imagens comerciais, há sempre a Livrolândia, esse local mágico onde existe o olho primordial (nota: o olho primordial é o Deus dos livros nesse meu primeiro romance) onde os livros podem ser lidos para todo o sempre, e esperarem, esperarem que um dia possam regressar do seu mundo encantado para nos encherem a inteligência de energia vital, tal como nós também às páginas deles, lendo-os com atenção, continuando o caminho sinérgico começado há milhares de anos desde que surgiram os primeiros livros escritos em tábuas de argila, com eles surgiu a tradição da escrita e com ela a civilização tal como a conhecemos.

 

JPB - Em “A TRIBO DA PONTUAÇÃO”, os sinais de pontuação (que funcionam como personagens do romance) acabam por falar da alma humana, colocando o leitor a refletir sobre a aldeia global. Considera tratar-se de uma obra complexa e ao mesmo tempo simples para todas as idades, sem ter um público definido, talvez porque o seu toque onírico e surreal baste para captar o imaginário do leitor?

RUI - No livro “A Tribo da Pontuação – a vida sentimental dos sinais de pontuação”, procurei desde logo cortar com a ideia de ser um livro sobre pontuação, por isso pontuei à minha maneira (o que provocou desde logo polémica, que procurei deliberadamente), é uma obra onde as personagens são inspiradas nas regras de pontuação (e isso é algo completamente diferente e mais interessante a meu ver) tem vários graus de leituras, vários graus de significância, para que possa ser lido como uma simples história de entretenimento ou lida com o hipertexto daquilo que realmente quero fazer passar...; de facto o toque onírico e surreal capta logo muita gente para este romance, mas depois, e se nos lembrarmos de obras como por exemplo “Alice no país das maravilhas” ou “Fernão Capelo Gaivota”, procuro para lá disso, procuro fazer passar para o leitor mensagens, as que procuro transmitir para esta nova Era, a Era global, onde ainda estamos a dar os primeiros passos.

 

JPB - É verdade que ser eclético enquanto leitor e dono de um bom background cultural, além de uma dose elevada de originalidade e genuinidade, é o que o distingue dos demais escritores? Escrever assim de uma forma mais livre faz com que o leitor entre mais facilmente nas suas histórias?

RUI - Depende muito do leitor. Eu costumo dizer que escrevo para adultos que andam na busca da segunda infância. Por exemplo na China, na filosofia Taoista, costuma dizer-se que o ciclo da vida só é cumprido quando o adulto recupera a sua infância perdida, no entanto, desta feita, com consciência dela, pois quando era criança o adulto não tinha consciência da infância (era criança e pronto, não podia ser mais nada), para eles (os taoistas) a maturidade é voltar a ser criança mas de uma forma consciente, uma espontaneidade emerge a quem siga esse caminho, no entanto o regresso à infância não é voltar a ser infantil (um eterno Peter Pan), é sim a maturidade plena do adulto que voltou a encantar-se com o mundo mas à luz da sabedoria adquirida; os meus livros vão muito nessa corrente filosófica, quem os lê precisa de ter vontade de se encantar com os universos que crio, no entanto vai sentir muita seriedade nas metáforas usadas por mim.

 

JPB - Infelizmente chegamos ao fim da nossa entrevista que volto a agradecer ter-nos concedido. Não queria no entanto terminar sem referir que, um dia perguntou a um outro escritor se ele acreditava na literatura como forma de transformação do homem, talvez por o Rui partilhar do lema “o homem é bom, mas os homens são maus”. Eu irei mais longe e pergunto-lhe se acredita, e em que moldes, que a literatura possa transformar definitivamente o mundo e, sobretudo, este nosso país que passa por momentos tão difíceis, em especial na Cultura?

RUI - A literatura poderia transformar o mundo, se o mundo (o homem, entenda-se) deixasse também de transformar a literatura segundo alguns apetites duvidosos. Os escritores são por vezes vistos como marginais ou como excêntricos, e as editoras tornaram-se meras publicadoras do que vende. Ainda para mais em tempos de crise. Se só vender interessa, isso mata a boa literatura, pois deixa a literatura de fazer o seu papel essencial que é, e parafraseando um escritor Português que admiro, o Gonçalo M. Tavares, ele diz mais ou menos o seguinte: que os livros são máquinas de lentidão, que nos permitem entrar num outro registo do tempo, e dialogar com a nossa própria alma, e por isso não estão de acordo com o tempo cronológico que nos instigam a caminhar sempre com rapidez e sem reflexão. Na realidade, e muito pouca gente pensa nisto, a má cultura é tão ou mais perigosa que uma má política, pois é a cultura que forma homens a serem bons homens, entenda-se bons não tanto aqui no sentido moral, mas como homens atentos e interessados na civilização.

 

Contato com o escritor

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Contato com o entrevistador João Paulo Bernardino (JPB)

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