Saudade de Minha infância - por Silva Neto

Saudade de Minha infância - por Silva Neto

 

Saudade de Minha Infância - Por Silva Neto

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Tarde morna de outono, de volta para casa, o garoto carregava sua bolsa escolar pesada. Estava contente, havia se esbaldado de brincar no recreio. Trazia consigo, além dos livros e cadernos, o álbum de figurinhas de heróis, seu inseparável pião e bolas de gudes. Havia trocado bastantes figurinhas com seus colegas e ganho bolas de gudes em disputas de piões. Trazia, também, na sua bolsa, o lanche recebido na Escola, composto de dois pães doces. O copo de leite ele havia tomado e guardava os pães para comer em casa.  Apesar de sua pequenez, caminhava só, para casa, sem a preocupação dos pais, naquela pacata cidade de interior.

Em A Voz dos Canaviais, serviço de som da cidade, Ângela Maria encantava os ouvintes com a música “Cinderela”. O sistema de som, distribuído em megafones denominados de PIC UP, pendurados em postes, levava ao ar as saudosas vozes de Nelson Gonçalves, Orlando Dias, Dalva de Oliveira, Cauby Peixoto, Elvis Presley, Demônios da Garoa, Ataulfo Alves, Trio Irakitan, Bienvenido Granda, Maysa, Dorival Caymmi, Orlando Silva, Agostinho dos Santos, Silvio Caldas, Emilinha Borba, Carlos José, Frank Sinatra, Luiz Gonzaga e me desculpem os demais cancioneiros da época não citados aqui.

O por do sol, as nuvens rosadas, os morros e as matas delineavam o horizonte. As cigarras entoando seus cânticos junto às melodias dos cancioneiros naqueles finais de tardes trazem saudosas recordações.

O garoto ao chegar a casa, tirava seu fardamento escolar e ganhava a rua a brincar. Aproveitava um pouco da claridade do crepúsculo até as seis, quando, sob as ordens de seus pais adentra a casa para tomar banho e jantar. Assim, todos os dias de aula.

Aos sábados e domingos vadiação sem igual. Livre como pombos de metrópoles, só entrava em casa para as refeições e dormir.

Aos domingos, missa obrigatória. Mesmo assim, não dispensava a retreta, após a missa, para correr na roda gigante, no carrossel, no pula-pula, descer nos escorregos e comer pipoca, algodão doce e tomar caldo de cana com pão de ló.

A Praça da Igreja Matriz era o “point” da garotada mais esperta. Após as missas dominicais os jovens postavam-se enfileirados na lateral da passarela, enquanto as jovens desfilavam de braços dados umas às outras sem o preconceito de hoje, oferecendo-se em saudáveis paqueras aos rapazes. Daí surgia os namoricos, namoros, paixões e até casamentos.

Saudade de minha infância! Sem ganância, sem preconceitos, sem medos, sem violência. Onde se podia brincar a vontade com os brinquedos simples e rústicos de própria fabricação. Piões, baleeiras, carrinhos de rolimãs, botões de jogos de futebol de mesa feitos de quenga de cocos, caminhões de madeiras, bolas de meias, petecas, trapézio de lata de leite, ou de madeira. Brincadeiras noturnas de nomes regionais, como: Escravo de Jô, Amarelinha, Passar Anel, Esconde-Esconde, Cabo de Guerra e escutar estórias contadas pelos mais velhos.

Tão simples eram as brincadeiras! Como viver era simples!

Nunca tive um braço ou uma perna engessada quando criança. Quando torcia um pé, minha mãe colocava sal em um saquinho de pano, molhava e ficava batendo no local. Dois dias, estava sarado.

Hoje, passa-se duas semanas com o gesso na perna, escrevendo nomes, frases, poesias e até livretos.

Nossa Senhora!

Tempos modernos esses!

Saudade de minha infância!  

 

 

 

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