Se for andar de barco, não tinja os cabelos - por Teia Camargo

Se for andar de barco, não tinja os cabelos - por Teia Camargo
SE FOR ANDAR DE BARCO, NÃO TINJA OS CABELOS!
 

Nós éramos oito, ao todo.

Primas, amigas de primas, primas de primas. Loiras, morenas, uma ruivinha, altas, baixas, umas mais desinibidas, outras mais recatadas e se uma falava pelos cotovelos,... a outra era caladona e as demais viviam dando risada, mas nesse grupo eclético, heterogêneo e diverso entre si, todas eram muito amigas, unidas e animadas.

As idades variavam na da faixa dos “vinte e poucos" aos "vinte e muitos”. Dentre nós havia aquela que namorava firme, a do casamento precocemente desfeito, as que às vezes engrenavam um namorico que não duravam mais do que uma quinzena, mas o que todas queriam mesmo, era apenas se divertir. Prá valer!

As férias de final de ano eram nosso período de encontro anual, nas casas de praia da família, próximas umas às outras, o que facilitava o trânsito do vai e vem de hóspedes, empréstimos de roupas e acessórios e de vem em quando, uma reunião geral para o bingo noturno ou para as feijoadas memoráveis da tia querida, comum a todas, fosse por parentesco ou por mera afeição.

Quem apenas estudava, aparecia de mala e cuia, logo após o término do período letivo, o que ocorria mais ou menos no começo de dezembro e só ia embora após o carnaval, quando terminava a “temporada de verão”.

Aquelas que trabalhavam, se revezavam entre os meses de janeiro e fevereiro e sempre que podiam, também vinham aos finais de semana. Chegavam sexta-feira direto do trabalho e após um banho apressado, tomavam o rumo da farra, ininterrupta até o domingo à tarde, quando, então, retornavam para a labuta, sofrendo, tanto por deixar para trás quem continuava no ritmo intenso, como pelos excessos cometidos.

Ninguém se drogava, ninguém me embebedava e quando muito se bebia uma cervejinha junto com um petisco, uma dose de uísque para o “esquenta” ou, a preferência geral, se bicava o restante da caipirinha, que era preparada no início de todo santo dia, para acompanhar as manjubinhas fritas que a criançada pescava na tarde anterior, e que seria jogada fora à noite para liberar a garrafa para o dia seguinte, quando começaria tudo de novo.

Era uma rotina deliciosamente estafante.

Acordar tarde era uma regra a ser cumprida e respeita. O café se misturava ao almoço antecipado. A praia, aonde se ia só depois das onze da manhã fosse tempo bom, nublado ou garoa fina, era sagrada, assim como o descanso no final da tarde para se aguentar a “puxada” da noite.

Festas eram organizadas pelos amigos e pelos conhecidos dos amigos. Aconteciam de quarta a sábado. Duas ou três por noite, em locais diferentes, e a frequência se revezava um dia numa um dia noutra, a menos que houvesse show ou evento num dos dois clubes da cidade, quando então, todos migravam para o mesmo endereço.

Conhecia-se muita gente, os rapazes se aproximavam, as amizades se multiplicavam, até que numa dessas ocasiões, numa festa no Iate Clube, reencontramos um antigo vizinho, bom vivant, filho do Comodoro do Iate, que nos apresentou a seus amigos e nos convidou para um passeio em sua lancha na tarde do dia seguinte.

Fazia muito tempo que não acontecia nada tão excitante.

Chegamos mais cedo no ponto da praia, onde a lancha aportaria, para nos apanhar.

Das quatro de nós convidadas, uma, se atrasou um pouco.

Resolveu que tinha porque tinha que escurecer os cabelos castanhos claros. Acordou bem cedo, comprou, na farmácia da esquina, um desses frascos de tinta de marca popular, na cor preta azulada, aplicou em casa e ao sair ao nosso encontro, morena e confiante no sucesso que faria ao aparecer com o novo visual, deixou para trás o banheiro lambuzado e a maioria das toalhas manchadas.

No meio da manhã começou a bater o vento sudoeste, aquele que sopra forte, anunciando a mudança do tempo e que provoca o aumento das ondulações.

Mar encapelado, maré agitada, barco fora da arrebentação, só tinha um jeito: chegarmos a nado.

Ninguém aceitava cogitar cancelar a programação. Imagina se perderíamos a chance de nos exibirmos frente a todas as outras amigas que ficariam da areia assistindo nossa partida na maior e mais bonita lancha do clube. Impensável!

Se fosse necessário boiar, mergulhar, se afogar, não importava o sacrifício, lá íamos nós, porque, a julgar pela beldade que veio, a nado, ao nosso encontro, para oferecer ajuda, o esforço prometia ser compensador.

Deixamos nossos pertences sob os cuidados da conhecida dona do quiosque que frequentávamos, e nos jogamos no mar, atravessando a arrebentação com certo esforço, mas afinal, chegamos naquela lindeza de barco.

Estofados confortáveis, forrados de um vinil branco, como a mais alva neve, onde nos esperava um drinque bem gelado e colorido, daqueles em que se coloca um chapeuzinho aberto na borda.

Algumas nuvens já se apresentavam, mas não o suficiente para esconder o sol quente daquela tarde que prometia ser magnífica.

O vento continuava forte durante o maravilhoso percurso que se iniciaria pelas praias da região dos Lagos, contornadas por suas dunas de areia clara, com vegetação rasteira, e a fantástica companhia dos rapazes simpáticos, gentis e, à exceção do dono do barco, nosso velho conhecido, os outros eram, por assim dizer, lindíssimos.

Cumprimentos, brindes, sorrisos, e fui eu, a primeira a perceber que todos eles tinham os olhos arregalados e curiosos, direcionados para a mais entusiasmada de nós, que sentada, placidamente no banco que contornava toda a popa do barco, comentava sobre a festa da noite anterior.

Banco, aliás, que aos poucos ia sendo maculado pela tinta negra que escorria de seus cabelos molhados.

Foi meu grito de exclamação que desviou a atenção de todos:

- Gente, acho que vi um golfinho!

Os olhares espantados se voltaram para o lado oposto do barco, onde eu fingia estar procurando alguma coisa, enquanto as outras duas correram para se sentar ao lado do motivo da curiosidade dos rapazes.

Aproveitando-se do balançar das ondas, as três esticavam um dos braços para fora, tentando, com o pouco de água que conseguiam buscar com a mão em concha, diluir a mancha que se alastrava e se enraizava pelo piso branquinho, que, aos poucos, ia se transformando num leque de tons, que variavam, desde o preto total até o cinza bem clarinho.

Não obtive muito sucesso em deter o interesse dos jovens no golfinho inexistente e logo estávamos todos nós, baldes, canecas e toda a espécie de vasilhames em punho, debruçados sobre a embarcação, aos gritos, metade do corpo para fora, cada um se equilibrando como podia para retirar o máximo de água salgada que se conseguisse e impedir que a tinta continuasse a impregnar o estofamento e o emborrachado do piso.

Sobre a cabeça da causadora da confusão, foi enrolada a camiseta branca de um dos rapazes convidados, que bufava de cansaço e raiva, ao ver o estrago que a tinta, agora contida pela malha da vestimenta, causara na sua grifada e cara peça de roupa.

Não sei ao certo o que fez o barco dar meia volta, em velocidade total, rumo ao ponto de partida, tão logo terminamos a limpeza do recinto: se o bizarro episódio em si ou se a força do vento conjugada com o aumento do tamanho das ondas que balançavam o barco de forma incessante.

O dono do barco iria precisar de muito mais água do que a que usamos anteriormente, para limpar o resultado do enjoo que contaminou a maioria dos navegantes presentes. O estofamento voltou a se sujar, muito embora nós tentássemos manter nossas cabeças para fora da embarcação enquanto despejávamos no oceano o resultado de nossa náusea.

Passeio terminado - se é que se pode chamar essa lambança de passeio - mar revolto, barco mais afastado da beira-mar do que durante nosso embarque, e, de novo, teríamos que nadar até o firmamento.

A primeira a se jogar foi a mais alta de todas.

Eu ainda me despedia do grupo, envergonhada e um pouco mareada, quando ouvi a risadaria vinda da murada do paredão próximo, onde vários pescadores se aglomeravam em busca do melhor lugar para lançar seus anzóis.

Sem perder o charme costumeiro, nossa amiga, vestindo um biquine sumário, subiu na mureta da embarcação, apertou o nariz com o polegar e o indicador, levantou a cabeça e pulou no mar.

Caiu sentada no banco de areia que se formara com o remexer da maré.

Levantou-se, a água cobrindo apenas seus tornozelos, ajeitou a parte de trás do biquíni e saiu caminhando, até que no segundo passo afundou por completo, engolida pela profundidade que, àquele ponto, ultrapassava os dois metros, não fosse o banco de areia temporário formado pelas intempéries.

Homens ao mar, resgate bem sucedido, todas salvas e à exceção da amizade do antigo vizinho que se desfez antes que chegássemos à terra firme e uma camiseta estragada de um mal educado que não se deu muito por satisfeito com nosso pedido de desculpas.

Eu, da minha parte, quando tinjo o cabelo não saio nem na chuva.

Até mais porque o tom da tinta que passo no cabelo é avermelhado.

Já pensou?

Téia Camargo

 

 

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