Serpente Adormecida - por Regina Alonso

Serpente Adormecida - por Regina Alonso

Serpente adormecida
  
                                                                                                                                                                                                                                 Regina Alonso

 

Nas quebradas maranhenses, as marcas do tempo permanecem. Ruas de pedras de lioz ainda resistem aos passos dos ludovicenses e dos visitantes. Diante dos nossos olhares, morada simples, porta e janela – tão pobrezinha! Alguns passos adiante, dupla-morada, duas janelas... E também morada-inteira... Sobrados de dois ou três andares mostram onde morava o poder. “Sem eira nem beira”, expressão vivenciada literalmente, pois até encontramos telhados com tribeira – ah, o poder querendo mais uma vez, mostrar a sua cara!

No Centro Histórico, grandes sobrados, recobertos de azulejos portugueses rebrilhando ao sol e à luz noturna dos antigos lampiões! Embaixo, negócio. No outro andar, morada e o terceiro para hóspedes. Alguns, como o de Ana Jansen, tinham também um mirante para contemplar o mar, privilégio dos homens é claro, pois as mulheres naquele tempo, nada podiam. Tratavam o marido de “Meu Senhor”... Até as vestimentas femininas pareciam feitas para lhes tolher a liberdade – roupas tão pesadas e volumosas também impediam seu acesso ao mirante e à contemplação do belo mar abrindo-se em fortes ondas! Afinal, ficassem sentadas bordando, abanando-se, inertes, suadas e fedorentas, apesar dos banhos de leite de cabra... As vestes eram completamente inadequadas ao clima como tudo o mais... Vida contemplatória, enquanto os patrões regalavam-se com as negras cheirosas em suas frescas roupas brancas, apesar do trabalho incessante junto às sinhazinhas, que morriam de ciúmes e não raro mandavam espancá-las quase até a morte. Assim foi com a esposa de um nobre desconfiada de traição – mandou açoitar a mucama, quebrar-lhe todos os dentes e muitos ossos!

Passando, hoje, pela Lagoa da Jansen, onde muitos maranhenses viveram em palafitas, rememoro a história da mulher que dá nome ao logradouro. Rica, cheia de propriedades e cruel, muito cruel com seus escravos. Sua perversidade chegava a requintes inimagináveis! Na época, pelas ruas sem calçamento, em dias de chuva, para atravessar a lamaceira, obrigava o escravo que a acompanhava a deitar-se sobre as poças de água e passava por cima de seu corpo com seus saltos à Luiz XV. Em seus negócios, muita trapaça e contrabando. Também conta a história, que debaixo do seu sobrado, passavam túneis que se comunicavam, facilitando o esconderijo de mercadorias e o não pagamento de todos os impostos devidos... Aliás, percorrendo esses subterrâneos, um pároco local, exercia seu poder sobre a população ingênua. De uma igreja, terminada a missa, quando os fiéis chegavam, horas depois, à outra igreja muito distante, o mesmo padre já lá se encontrava celebrando outra missa... O povo comentava “Milagre! Milagre!” – e subjugava-se ao religioso, de corpo e alma, auferindo-lhe poder celestial.

Talvez, por causa disso, ainda hoje, o povo conta que sobre as pedras das ruas de São Luís, vive enorme serpente, crescendo dia e noite, sem parar... Um dia, vai conseguir morder a própria cauda e a cidade ruirá!

Talvez a lenda esteja se referindo ao Juízo Final. Talvez seja apenas mais uma das tantas lendas que se ouvem pelas quebradas maranhenses. A verdade o tempo nos dirá... 

 

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