Sobre Mocinhos e Bandidos - Fabio Diaz Mendes

Sobre Mocinhos e Bandidos  - Fabio Diaz Mendes

 

"Sobre mocinhos e bandidos" é o segundo livro do escritor Fabio Diaz Mendes.

Foi preciso ler somente dois ou três contos para associá-lo a um outro autor, já renomado: Rubem Fonseca. Ademais de detectar certas características literárias de Rubem na escrita de Fabio, outra coincidência me despertou a atenção: ambos são formados em Direito e exerceram várias atividades antes de dedicarem-se à Literatura.

Acredito que o fato de terem atuado como advogados, tenha contribuído para desenvolver em ambos uma aguda percepção acerca da sociedade contemporânea.

Assim como a de Rubem, a escrita de Fabio é direta e retrata a violência em suas mais diferentes facetas. Neste livro, o bem e o mal, o moral e o imoral, o certo e o errado caminham lado a lado, nos fazendo refletir sobre a linha tênue que separa um do outro. Diaz, nos induz com sua escrita a alguns questionamentos: "por que alguém é mau?" ou "por que escolhemos fazer o errado, quando, teoricamente, podemos e devemos fazer o certo?", como propõe na orelha do livro.

Estão presentes em seus textos personagens que foram ligados à criminalidade e à marginalidade por acaso, não necessariamente por serem sujeitos amorais ou violentos. Percebe-se, claramente, a crítica a uma sociedade opressora do indivíduo.

No entanto, ao mesmo tempo em que expõe personalidades corrompidas pelo meio ou situação, Fabio nos brinda com um humor limpo, capaz de arrancar gargalhadas mesmo quando retrata uma situação terrível. É o caso do conto 12, em que dois irmãos totalmente embriagados cometem, por impulso ou acidente, um crime bárbaro. Apesar de mostrar a frieza dos assassinos, também nos revela a comicidade própria da embriaguez:

" Enquanto o fogo crepitava, os irmãos ensaiavam o que fariam. Não estavam de acordo quanto ao método. Evair estava com uma faca de cozinha na mão, mas não tinha coragem de começar. Dito o incentivava:

 

―Vai, é fácil, ouvi dizer que é igual cortar frango.

 

Evair não concordava:

― Eu soube que é igual porco, somos mais parecidos com porcos.

Dito, como irmão mais velho, quis se impor:

― Está louco, que porco, é frango, eu vi na tevê, aquele rapaz que matou a namorada, perguntaram se foi difícil, ele disse que não, que era igual frango.

Evair, contrariado, entregou a faca ao irmão:

―Toma, corta aí seu porco então, quer dizer, frango, você que o empurrou, não eu." (pág. 117)

 

Outra categoria de bandido encontrada na obra é o de colarinho branco, como é o caso do médico do conto 5, que se recusa a realizar o parto antes de receber pelo procedimento, mesmo colocando em risco a vida da paciente.

Apesar dos textos terem sido classificados como contos, poderíamos, facilmente, defini-los como crônicas, seja pela linguagem ou pela verossimilhança impressionante com reportagens lidas em jornais.

O livro é perturbador, no sentido de que transpõe os limites da ficção e nos aproxima da realidade, nos fazendo lembrar das corrupções, injustiças e misérias cotidianas.

A meu ver, é impossível terminar a leitura de "Sobre mocinhos e bandidos" sem ter sofrido uma íntima transformação.

 

Por Michele Pupo - Blog Meus Devaneios

http://profmieseusdesvaneios.blogspot.com.br/2015/05/sobre-mocinhos-e-bandidos.html

 

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