Sonhar Também Dói - por Lígia Beltrão

Sonhar Também Dói - por Lígia Beltrão

Sonhar Também Dói

 

       Quando eu era criança, na casa simples onde eu vivia, os sonhos eram maiores do que eu. O tempo passou, e eu fui acreditando que poderia realiza-los e sonhar outros tantos. Ali, para mim, tudo parecia eterno. Até a própria vida. Aquela eternidade que cuspia na minha cara a crença no existir, ia se petrificando nos moveis, nos detalhes, nas realidades dos dias frios e cinzentos dos invernos da terra.

 

       O canto das folhas zunindo nos talos uma canção de dor deixava-me pensativa e eu fazia silenciosos, os planos mais mirabolantes para mudar a vida. Acreditava neles. E seguia achando que o céu era bordado de ouro, respingado em forma de estrelas e sol e lua. Era uma menina tímida que jurou amar, sempre, a tudo e a todos independente de qualquer coisa que se apresentasse contra. Tenho seguido, assim, o coração que criei em sentimentos maiores para a vida que se descortinava além.

 

       A estrada do tempo confundia-se com os meus mais puros anseios, e eu precisava busca-los, não sei onde, para cumprir as promessas de vida. Vida que se eterniza a cada amanhecer. Careço do resplendor dos instantes e da voz interior do meu corpo frágil para encharcar-me de esperança. Faço-me de forte e sinto-me capaz de salvar o mundo, das maiores tempestades. As pedras do quintal enlodado brincam de bater uma na outra quando os meus pés confiantes, pisam o chão molhado da garoa que o umedece.

 

       Há risos de pássaros no ar. Mas dentro, as paredes gemem com alguma dor que os meus olhos não queriam ver. Era preciso ser forte o suficiente para acreditar em mim. Só em mim e mais ninguém. E assim, rugiam trovões em tempestades cruéis arrebentando a minha alma. Eu encolhida escapava, não sem experimentar as dores terríveis que a tristeza e a solidão trazem às criaturas.

 

       Os dias passavam lentos, pois quando se é criança tudo é eterno, até mesmo os dias molhados dos choros incontidos. O carrossel do tempo rodava lento, num soluço salgado e o mundo não mudava, continuava estático e perverso na sua ousadia de ser. Tantos sóis e tantas luas passaram pela minha vida... De repente vi-me crescendo. Os sonhos mudando e a realidade me fazendo amadurecer prematuramente. Casada, parti. Precisava desbravar o mundo que me metia medo. Ia vencê-lo. Prometi a mim mesma.

 

       A grande metrópole me recebia engasgada de trânsito e de promessas de felicidade. Imaginei a quantidade de milhares de coisas que eu faria, mas quis o destino e o medo, que eu me deixasse aquietar e guardar os sonhos no profundo da dor que era os perder de vista. E assim, sonhos outros foram sonhados... Realizados... Outros tantos morreram antes de nascer, e assim a vida caminhava sem descanso e sem tréguas. Viver resumia-se nisso. Lutar lutas muitas vezes inglórias e chorar sorrindo para não desanimar da luta.

 

       Retornei ao recanto solitário de outrora e as mesmas paredes continuavam gemendo, sabe-se lá o por quê? Ouvi vozes que por mais que tentasse eram desconhecidas e vazias, como se fosse o vento sibilando alguma frase desconexa. Esforcei-me para entender coisas que nunca conseguira. Vi os meus sonhos de menina ali, espalhados por aquele chão, vermelho e lustroso, onde refletia as angustias, e agora pisoteados pelos pés de ferro da desilusão. Catei-os. Machucados soluçaram a dor do esquecimento. Corri os olhos molhados pelos cantos, onde me escondia de mim mesma e vi o vazio de tudo. Quis retomar o passado nas mãos, mas ele pesava e ficara inútil qualquer tentativa de levá-lo comigo. Eu precisava reviver. 

 

       Olhei ao derredor tentando guardar alguma imagem que me desse um momento de alegria e me fizesse recomeçar. Não encontrei. O tempo havia matado tudo. O pouco do que restava soluçava agora, sem esperanças de continuar vivo. Dentro de mim tinha a certeza que sonhar também dói. E como dói, porém, a realidade dói muito mais. Encontrar-me-ei em algum lugar do futuro. O gerúndio me espera. Afinal, vivemos nele. Mas preciso do presente, urge.  

 

Dirigi-me à porta de saída e sem olhar para trás disse adeus a tudo o que ficou.

 

Aprendendo estou. Finalmente!

                                                                               

                                                              

                                                                                 

        

      

       

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