Taca Quebrada - por Silva Neto

Taca Quebrada - por Silva Neto

Por SILVA NETO

 

Quinta Feira, início de feriadão, quatro dias para descansar. Que maravilha! Assim pensava ao volante quando em direção a Serra onde se localiza minha adorável chacarazinha. Lá chegando, após atender ao caseiro dispensando-o pelo final de semana, fui à adega pegar um vinho para o consumo da noite, aliás, quatro garrafas para o consumo no feriadão. Coloquei-as no freezer, e começo atualizando as notícias no Notebook. Era final de tarde, céu nublado, temperatura em queda no topo da serra, sem dúvida, ideal para o consumo de vinho. A noite prometia!

Quando se está só em locais como esses a mente sugere pensamentos, os quais, não sendo interrompidos por vozes se estivéssemos acompanhados, o cântico de pássaros silvestres, das aves domésticas ou o vento forte nas folhagens das árvores não incomodam por serem elementos naturais. Fiz algumas ligações confirmando a vinda de alguns amigos e familiares à chácara para o final de semana. Na certa iria dormir só, ou ficar acordado por toda a noite escrevendo. O MSN convida-me a um toque, que de pronto atendi pela vontade de comunicar aquela expectativa de liberdade e felicidade que estava sentindo. Era uma voz feminina... Arrisquei: ­_oi! Do outro lado, solícita como sempre, _oi, querido! Estendemo-nos naquele papo gostoso de final de expediente quando, ao lhe afirmar que iria tomar vinho à noite, ela deixa escapar: _ Ah!... Que delícia, John! Toma pensando em mim! Aquilo me tocou profundamente, não sei se pelo clima favorável de liberdade interior que estava sentindo, ou pelo tom da voz com que ela exclamaria aquela frase ao meu ouvido se estivéssemos ao telefone. Após finalizarmos o papo corro em direção ao frízer, pego uma garrafa de “Saint Louis, 14 anos”, uma taça de cristal e começo o ritual de abertura do gargalo, louco para ingerir o precioso líquido. Banho a taça em dose descomunal, degustando e solvendo devagar, sentindo o aroma do levedo acre da safra envelhecida a roçar nos lábios suavemente tal qual um beijo de louca paixão. O pensamento voa envolvido em tramas de amor, viaja sobre nuvens brancas, indo ao encontro de um firmamento azul, infinito, inatingível, inimaginável. A noite cai fria e sombria em doses repetidas, o sangue sobe às orelhas, às mãos, ao rosto. O pensamento filtra momentos inigualáveis de desejos e quimeras tão reais que tudo ao redor emudece. O silêncio descomunal é dominado por figuras em transe sonambúlico, formadas por troncos de árvores ao longo da estrada. Doses e mais doses noite adentro. As falanges cedem ao relaxamento, cansadas pela posição de segurar a taça, cujo movimento repetido de vai e vem aos lábios, pesa nos dedos, deixando por vezes afrouxar à mão. As pálpebras cerram, entre o sono e o sonho acordado alçando voos ao imponderável, quase cedendo ao relaxamento exaurido. Não mais que meia dose restante, roça inebriante a taça nos lábios em último impulso sem que a mão obedeça, a taça afrouxa entre os dedos e rola peito abaixo, quebrando o silêncio em meio à noite gélida ao som estridente de cristais em pedaços. Ao sofá ébrio e vencido, mal me deu conta do barulho, nem do peito molhado, relaxando em sono profundo para a continuação do sonho dormido.

 

Publicado 25/01/2014

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