Torcendo pelo temporal - por L. A. Tecau

Torcendo pelo temporal - por L. A. Tecau

 

O inverno estava começando. A previsão do tempo anunciava muita chuva naquele fim de semana, o que preocupava  grande parte da população. Grande parte, a grande maioria temia o prejuízo, o grande transtorno  causado pelas enchentes que castigavam com freqüência aquela região. A cidade ficava ilhada, as ruas inundadas, o comércio fechava, as pessoas se trancavam em abrigos nas partes mais altas ou então se alojavam no ginásio de esportes. Repartições públicas, bancos, postos de saúde, tudo ficava inoperante na pequenina cidade.  As escolas fechavam durante a enchente, e depois que o rio voltava ao seu leito normal, a escola permanecia fechada por mais três dias para limpeza e remoção da lama. Por isso que quase todos, quase todos detestavam a cheia. Menos Sinval.

                                                                             
Aquele moleque torcia pela chuva, chuva forte, chuva intensa. Gostava tanto de enchente que estudava as marés, as luas, fazia uns mapas estranhos, casava dados dos anos anteriores nas épocas de chuva. Chegou até a instalar uma régua pra medir o nível da água no rio que cortava o sítio de seu avô. Sinval morava na área rural da cidade, num sítio com poucos animais, um grande pomar e a plantação de milho. Na cheia, ele e seu avô se isolavam de todos no sótão do celeiro. Os demais familiares são removidos pelo pessoal da defesa civil, que faz o resgate de lancha. Os dois, precavidos, se deslocavam para o sótão assim que a água começava a subir . Montaram um verdadeiro abrigo no sótão: lá havia um fogão de duas bocas a gás, uma caixa de 250 litros de água, uma despensa com alimentos não perecíveis como enlatados, biscoitos e leite suficientes para passar duas semanas isolados, esperando a água baixar. Uma cama de armar, onde dormia o ancião, e um colchonete, que Sinval deixava bem perto da janela para observar mais rapidamente o movimento das águas. Lá, os dois conversavam, o velho homem contava histórias e mais histórias para o garoto, que se deliciava com a narrativa. Histórias da infância, das brincadeiras, a pesca no açude, as expedições que organizavam para roubar cana e goiaba nos sítios vizinhos, a quermesse na vila, a missa aos domingos, o cinema nas matinês, filmes de bangue-bangue que faziam a diversão da garotada da região.


 Ficava horas assim, prestando muita atenção em cada palavra do avô,  viajando com a narrativa, imaginando cada cena, o rosto de cada pessoa das histórias, suas roupas, trejeitos...Quando então o avô adormecia, Sinval abria a mochila que preparava sempre as vésperas da cheia. Nela, muita coisa pra ler: revistas velhas, gibis, livros pegos na biblioteca da cidade. O garoto não gostava muito da escola, não passava nem perto do que conhecemos por um CDF, mas simplesmente adorava ler. E então pegava seus livros e ficava assim, por horas, lendo, comendo biscoito, tomando chocolate, sem ter que se preocupar com carpir o quintal, recolher estrume, dar banho no cachorro, ir a escola, fazer os deveres...Sentia um pouco a falta da TV, mas a companhia do avô e a falta de regras compensavam isso.

O garoto estava na janela observando o céu, e o que viu o agradou bastante: um céu carregado, nuvens negras, prenúncio de chuva forte. Logo começaria a chover, mas a estiagem tinha secado muito o leito do rio, ia ser preciso chover muito para inundar o sítio e provocar a fuga para o sótão. Mas só pelo barulho forte de chuva no telhado, pelas grandes poças e pela impossibilidade de ir pra escola e ficar o dia inteiro deitado, lendo e vendo TV, já era um grande negócio essa tempestade.


Veio a noite, com ela a chuva. Choveu forte, por meia hora.  Depois uma chuvinha intensa, só mais fraca. O rio voltou ao nível normal, pois estava seco, mas não ameaçou a cidade, nem a fazenda. Quando o dia amanheceu, o sol já brilhava intensamente. Sinval acordou, não ouviu barulho da chuva. Manteve os olhos fechados, na esperança do tempo estar fechado, ou de ter ao menos uma garoazinha que impossibilitasse tarefas fora de casa. Abriu a janela, o sol ofuscou sua visão. Suspirou fundo, lamentando a enchente que não veio.  Mas não se abalou. Correu pelas escadas rumo a cozinha para tomar seu café da manhã. Dos males, o menor: aquela era uma manhã de sábado. Sem escola, sem tarefas, dia livre pra brincar. Nada como uma manhã ensolarada de sábado.

Publicado em 27/02/2014

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