Travesseirinho de plumas - por Regina Alonso

Travesseirinho de plumas - por Regina Alonso

     Num tempo sem tempo, sem dia nem noite, conta a lenda...

     Luz diáfana sobre o vale perdido entre as montanhas. Ali vivia um povo eternamente criança. Melhor dizendo, os seres envelheciam sem perder o viço e a inocência dos pequenos. Nos ritos de celebração à vida, os habitantes agradeciam a alegria de estar juntos compartilhando em harmonia, o teto e o alimento. Eram casas translúcidas, paredes de rocha, que a luz atravessava como que por encanto. Teto de flores que caíam e trançavam-se naturalmente ao sabor dos ventos, formando uma trama impermeável ao gotejar da chuva.

     No vale, plantações cultivadas por mãos de pele enrugada ou lisa garantiam alimento frugal e o doce mel de abelhas escorria abundante das colmeias. O perfume de flores coloridas impregnava o ar atraindo insetos e enlevando o coração dos habitantes. As obrigações eram naturalmente divididas. Aos adultos os trabalhos mais pesados – arar a terra, construir moradas, açudes, moinhos de vento... Os jovens aprendiam com os velhos a semear e a colher no tempo certo, apropriando-se dos segredos do bom cultivo da terra para garantir a sobrevivência. Todos colaboravam na seleção e armazenamento da colheita.

     O preparo das refeições era um rito. Na imensa cozinha coletiva construída no centro da comunidade com as moradas ao redor, o clã preparava a comida entoando canções ao som da música que emanava do pilão, das facas amoladas cortando num golpe certeiro, legumes e verduras e do  vaivém dos grãos balançando nas peneiras...

     O riso, a paciência, a quietude, o prazer de estar juntos era privilégio de todos. Nas cirandas, ao entardecer, era difícil distinguir os mais velhos das crianças, pois todos se compraziam em girar e girar entregues de corpo e alma ao prazer dos folguedos.

     Conta a lenda também, que certa vez, a luminosidade do espaço foi invadida por uma nuvem densa, cor de chumbo, trazendo a escuridão e a imobilidade. Os habitantes transformaram-se em pedras que somadas às rochas construíram escarpas inacessíveis. E o segredo da eterna inocência foi sepultado.

     Até que veio o dilúvio. Sobre a rocha trincada ao espocar de um raio, a ponta de um caule delgado estendeu-se sobre a encosta. Uma folha tenra somou-se a outra e mais outra verdejando o vale. De repente, ouviram-se passos furtivos e corpos delinearam-se em procissão solene. Ao sopro do vento, bandeiras hasteadas por crianças. E nas mãos do ancião mais velho, o pergaminho. Ali o segredo lavrado em dialeto antigo. Os símbolos decodificavam-se naturalmente diante dos olhos daqueles que acreditavam em lendas e sonhos. O mistério agora estava desvendado:

     Caminhar até a mais alta das montanhas. Aguardar a brisa que sopra ao entardecer, exatamente quando o dia some para dar passagem à noite. Nem antes. Nem depois. E quando as plumas de pássaros esvoaçarem pelo ar, apanhá-las, antes que toquem o chão... Deixar o corpo solto livre centrado no desejo de apanhá-las. Entregar-se ao toque suave das penas na palma das mãos. E encher os travesseiros tecidos com fibras de folhas, pétalas e raízes secas. Sem pressa. Ouvindo o canto das aves e apreciando a coreografia do voo da arribação. Deixar os travesseirinhos cheios e plenos de leveza, privilégio dos que entregam sua alma ao que fazem. Fechá-los com delicada costura em fios de teias orvalhadas. E nesse momento receber das mãos das crianças o bule ancestral. Fumegando em água fervente o hibisco, a pitada de gengibre, o pó de maçã seca, um pedaço de casca de laranja, cravos da índia, paus de canela e o puro mel de abelhas para adoçar. Nas cabaças secas, o chá será servido aos velhos entre risos e o murmúrio da prece: Senhor dos ventos, da Terra e dos Mares! Senhor da Luz, Deus da Unidade! Trazei-nos a Paz da Vida na Alegria!

     Neste exato momento, repousar solene a cabeça sobre o travesseirinho, repetindo três vezes: Senhor, livrai-me de ser grande!

     Adormecer em suave descanso. Acordar no mesmo corpo, termina a lenda, mas agora abrigando a inocência e alegria da eterna criança.

publicado em 28/03/2014

 
 
 

 

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