Tribunal de rua - por L. A. Tecau

Tribunal de rua  - por L. A. Tecau

Tribunal de rua

 

Seu nome era Fabiane Maria de Jesus. Por ironia do destino, carregava Jesus no nome e tinha 33 anos, tal e qual Cristo, quando morreu. Viveu até sábado, quando um bando a amarrou num poste e a espancou até a morte. Morreu na segunda-feira, dia 5 de maio. Não vai receber o presente, a lembrancinha do dia das mães de seus filhos, agora órfãos. Fabiane está morta. Mais uma vítima da estupidez humana. Covardemente espancada. Foram socos, golpes de madeira na cabeça, chutes. Quando estava desacordada, alguém ergue sua cabeça pelos cabelos. E depois solta, queda livre ao chão. Outro passou com a roda da bicicleta sobre a cabeça. Quando gemeu, ainda foi ironizada: "uh é o caralho, filha da puta", um dos  justiceiros disse a ela. Algumas pessoas ainda tentaram ajudar, pedindo que parassem com o massacre. Em vão. A multidão enfurecida queria sangue. Tudo devidamente registrado pelas câmeras de dezenas de celulares. Uma mulher agonizando, muitos batendo, poucos tentando defender, alguns filmando. Nesse faroeste caboclo versão 2014, a via crucis virou circo.


O massacre de Guarujá teve como origem um boato. Alguém espalhou que uma pessoa estaria fazendo rituais de magia negra. Sequestrando crianças para sacrificá-las. Uma página do Facebook, chamada Guarujá Alerta, postou um retrato falado da tal mulher que estaria cometendo os crimes, vitimando crianças indefesas. Alguém achou que se tratava de Fabiane. Esse alguém falou para outra pessoa, que falou para outra pessoa. E ninguém checou a informação. Simplesmente acharam a vítima parecida com a mulher do retrato falado, curtido, comentado e compartilhado aos montes, no Facebook. Foi o bastante para que o tribunal de rua a condenasse a morte e a executasse ali mesmo, aos gritos de "assassina", "vagabunda", "safada". Sem apelação. Sem chance de defesa. Uma multidão contra uma mulher. A inquisição voltou. A idade média é agora.



Amanhã pode ser eu. Você. Seu irmão. Sua filha. Basta alguém gritar "bandido", "ladrão", "pedófilo" , “estuprador” e apontar o dedo na tua direção. Você ou seus parentes, vizinhos, colega de trabalho ou conhecido será amarrado no poste, xingado, acusado, espancado, talvez  até  possa perder a vida. Sem chance de defesa, sem poder se explicar, sem ninguém para te amparar. A que ponto chegamos?  Essa é a cara da sociedade hoje em dia. Melhor então deixar de lado a hashtag somos todos macacos. Não ofendamos os primatas. Nenhum animal faz isso com um semelhante. Devíamos usar uma que realmente expresse o momento que vivemos:                                                                 

                                                                                                                                                                   
#somostodosbandidos

 

Pense nisso na próxima vez que compartilhar algo em uma rede social. Não fomente o ódio.

Um simples clique pode causar danos irreversíveis.

 

Publicado em 23/05/2014

 

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