Troca de Papéis - Uma crônica filosófica e de conveniências - por Mirian Menezes

Troca de Papéis - Uma crônica filosófica e de conveniências - por Mirian Menezes

TROCA DE PAPÉIS

(UMA CRÔNICA FILOSÓFICA E DE CONVENIÊNCIAS)

 

Mudanças de ciclos sempre são dolorosas, de uma forma ou de outra, embora devam ser encaradas como situações naturais, das quais podemos extrair situações pitorescas e engraçadas.

Antes de chegar ao segundo parágrafo desta crônica, pensei em intitulá-la “Mãe e Filha”, mas, no início do rascunho, já mudei de ideia e achei que “Troca e papéis” seria mais interessante (Talvez com um subtítulo indicativo do assunto!)

Na verdade, o que abordo não oferece nada de novo, mas como o olhar individual sempre acrescenta algo ao “universal”, arrisquei esboçar simples expressões, retomando um fato bem engraçado, ocorrido no verão passado.  Penso ser engraçado agora, pois, na época, a adrenalina foi a “mil”.

Imaginemos a seguinte cena: “Mãe e filha encontram-se de mãos dadas na areia da praia; caminham até o mar; banham-se e retornam de mãos dadas às cadeiras, sob o abrigo de um guarda-sol”.

Temos algumas expressões-chave aqui:

1.      Mãe/ 2. Filha/ 3. Mãos dadas.

Podemos arriscar que se trata de uma crônica, cujas personagens são: uma garotinha e sua mãe!

(...)

Erraram (ou acertaram!). Não há problema algum!

Trata-se de uma crônica intimista, da vida real, cujas personagens principais, acredito, são: mamãe e eu.

Sim! Mãe e Filha...

Ressalto que escrevi essas linhas por insistência de mamãe: uma pessoa maravilhosa, que, possui limitações físicas diversas, mas, em compensação extrema lucidez, agilidade mental e teimosia!

Sabe-se, que, com o passar do Tempo, Chronos oferece poder de persuasão e “comando” a alguns idosos, que fazem e falam o que querem, pouco se importando, com opiniões externas! Considero isso muito bom! Mamãe é uma dessas pessoas, que já ultrapassou a barreira dos melindres e se manifesta com a maior facilidade, sem se apavorar diante de críticas e posicionamentos contrários aos seus.

Só que Chronos é “devorador de seus filhos” e, com o passar dos anos, coloca, eventualmente, alguns empecilhos na locomoção dos corpos físicos. A limitação liberta-se, ocasionalmente, através do cérebro. (Só para esclarecer, talvez esta teoria seja só minha e não podemos nos esquecer que temos aqui um solilóquio, talvez sem importância para outras pessoas!)

Enfim, por possuir algumas dificuldades de locomoção, mamãe tem de ser “apoiada”, em algumas situações. Em relação às atitudes, o Tempo lhe conferiu mais irreverência e impetuosidade... talvez, teimosia, mesmo!

Ufa! Teimosia de criança, articulada à autoridade de mãe... Combinação perfeita!

Vamos aos fatos... Estávamos contemplando o mar, aproveitando a calmaria do momento e, a alguns metros, uma família “confraternizava-se” tranquilamente...

Cenário perfeito: praia tranquila... barulho das ondas... pássaros voando... mas... dois carros, repletos de pessoas animadas, cheias de energia, instalaram-se à direita de nossos apetrechos de praia e “quebraram” o silêncio das duas famílias, com músicas agitadas.

Nada contra a agitação, nem contra o estilo de música! Sou eclética!

Pelos intensos decibéis, pensei que os integrantes dos carros tivessem problemas de acuidade auditiva. A situação ficou incômoda, pois desestabilizou a aparente calmaria. Tínhamos a alternativa de nos retirarmos dali, mas esperávamos dois integrantes da família, que foram buscar refrigerantes e petiscos. Por perceber o incômodo de minha mãe, poderia explicar, polidamente, a situação aos animados banhistas e pedir que abaixassem o volume, mas confesso que fiquei com certo receio. O nível alcoólico dos rapazes estava um pouco alterado... só um pouquinho (Se é que me entendem!)... mas, quem sabe, com jeitinho... poderia explicar aos garotos, o quanto estavam atrapalhando.

Pela rápida leitura da situação, percebi que o jeito era esperar um pouco e fingir que nada estava acontecendo. Seria refém da situação, mas era o mais prudente a fazer. Depois de algum tempo, poderíamos procurar um lugar calmo. Era só questão de paciência.

Paciência?

Impetuosa, minha mãe levantou os dedos até os ouvidos e fechou-os “descaradamente”. Olhei pelos cantos dos olhos e vi que a situação desconfortável já havia sido instalada. Acho que, quando as pessoas estão muito alcoolizadas, nem pensam em Estatuto do Idoso. Com certeza!

Os rapazes estavam muito alcoolizados e temendo situação pior, pedi entre os dentes:

_ Mãe, por favor! Todo mundo está olhando!

Minha mãe “deu com os ombros” e me ignorou.

Nesse momento, um Senhor (com S maiúsculo!), que pertencia à feliz família “confraternizante” levantou-se  altivo, dirigiu-se até os rapazes e disse com voz autoritária:

_ Vocês não percebem que estão incomodando AQUELA senhora? – e apontou para nós.

“Oh, Meu Deus”!

Nesse momento, todos olharam para nosso “quadrado”, com uma cara de “Vamos matar vocês”!

Abaixei a cabeça, fingi-me de morta e rezei, para que não houvesse qualquer mal estar desproporcional. Para completar o quadro, o Sr. Altivo, com cara de famoso, chegou até nós e bateu, suavemente, nas costas de minha mãe, falando, como se estivesse anunciando em um megafone:

_ Agora ninguém mais vai incomodar a senhora, viu?!

Muito sem graça, com todos os olhares voltados para nós: “Vamos matar vocês”! – olhei para o Senhor Altivo e disse:

_ Obrigada por se preocupar com minha mãe!

Ele me virou as costas com desdém, como se fosse a pior filha do mundo e se retirou.

“Preocupado com minha mãe?” – pensei – “Preocupado consigo próprio!”

É horrível dizer isso, mas a situação instalada era conveniente à família “confraternizante”, que também se encontrava incomodada com os terríveis decibéis.

Eu deveria estar feliz pela atitude corajosa do Sr. Altivo, mas confesso que vivi um paradoxo naquele momento: se de um lado, o som abaixou, de outro lado as ondas cerebrais “nervosas” aumentaram a frequência e vivi grande tensão!

Não sei expressar em palavras o que senti... Só sei que minha mãe, com a maior “cara de pau”, olhou para mim e disse:

_ Desculpe! Não pensei que o moço fosse fazer isso! – e tirou os dedos dos ouvidos – É! Foi bom o homem ter falado com os rapazes, mas agora todos estão olhando para nós!

(Pensei, antes de responder! Acho que o Sr. Altivo e nós estávamos com a razão, mas...)

_Não olhe, mãe! Vai que eles resolvem nos bater de verdade!

Que situação! Eu só tinha a opção de olhar para frente,  ainda bem que a vista era o mar!

Visualizem! À esquerda, havia uma família “confraternizante”, repleta de boas intenções, defensora dos fracos e oprimidos, embora concorde com o dito popular, que o inferno está repleto de boas intenções! (Isso é um detalhe apenas!)

Não posso negar que o representante da bela família nos fez um favor... Eu deveria estar profundamente agradecida, mas o medo da confusão foi maior... O ato de minha mãe foi conveniente, a todos os que se encontravam incomodados!

Só sei que, além da família feliz do meu lado esquerdo...à direita, havia um batalhão de pessoas, querendo nos fuzilar, como se fôssemos, as únicas incomodadas... e os petiscos não chegavam!

Minha mãe me soprou aos ouvidos:

_ Acho que eles não gostaram e estão morrendo de raiva de nós!

Respondi entre os dentes:

_ Tudo bem, mãe! Só que agora temos que brincar de “estátua”, pois eles não vão entender meus argumentos e nem os do Estatuto dos Idosos! Confesso que me sinto aliviada pela atitude do Sr. Altivo, entretanto, estou com dor no pescoço, porque tenho medo de olhar para eles e “apanhar”!

Ficamos, por quarenta minutos, congeladas, petrificadas... brincando de “estátuas”!

Após tantas dores musculares, os petiscos chegaram e, imediatamente, minha mãe e eu desarmamos as cadeiras de praia e o guarda-sol.

Meu sogro perguntou-me inocentemente, mas em voz alta, para não fugir do padrão:

_ Aconteceu algo?

Respondi entre os dentes:

_Vamos embora, que depois explico tudo!

Guardamos os apetrechos, retiramos o “lixinho” e, nesse momento, usei minha autoridade, trocando de papéis com minha mãe.

Peguei, delicadamente, sua mão e disse:

_ Vamos, filha! Está na hora!

Minha mãe, com a maior cara de sapeca, disse:

_ Juro que não faço mais isso!

Ri, peguei a menina, com traços do tempo, mas alma de criança, e fomos embora!

Chronos, você me apronta cada uma!

 

(Observação: Fui intimada por minha mãe a escrever esta crônica, pois pelo que parece, ela é uma das protagonistas! Esperta, não?!)

 

MIRIAN MENEZES DE OLIVEIRA

 

 

 

 

DADOS BIOGRÁFICOS

Mirian Menezes de Oliveira, nascida em Guaratinguetá-SP, filha adotiva de São José dos Campos-SP,  lançou, em 2011, o livro de poesias “O cientista e a poeta”, pela Editora TRIOM, com patrocínio do CETRANS (CENTRO DE TRANSDISCIPLINARIDADE).

Acadêmica correspondente da ACADEMIA DE LETRAS DE GOIÁS; é também Vice-Presidente do Conselho da UBT (UNIÃO BRASILEIRA DE TROVADORES) – Diretoria da Seção – São José dos Campos – SP, membro associado da ALB (ASSOCIAÇÃO DE LEITURA DO BRASIL – roda de pesquisadores), com vários artigos publicados em Seminários e Congressos Nacionais e Internacionais.

Mestre em Semiótica, Tecnologias de Informação e Educação – UBC – Mogi das Cruzes – SP; Especialista em Leitura e Produção de Textos pela UNITAU – Taubaté – SP; é membro da REBRA (REDE DE ESCRITORAS BRASILEIRAS). Com o fotógrafo Gilmar Dueñas  e com a artista plástica Tita Selicani possui o Projeto “TRILHA DE OLHARES”, projeto que será exposto no MUSEU do LOUVRE - França (coordenação de Diva Pavesi – REBRA) – 2º semestre de 2014.

Alguns links para consulta:

MIRIAN MENEZES DE OLIVEIRA – REBRA

http://rebra.org/escritora/escritora_ptbr.php?id=1794

http://portalconexaopb.com/jornalista-shirley-m-cavalcante-smc-entrevista-escritora-mirian-menezes-de-oliveira/

http://www.adrianacaccuri.com.br/artes/artesgraficas/o-cientista-e-a-poeta/

 

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