Um dia Da Mulher assinalado no FEMININO - por Lúcia Gonçalves

Um dia Da Mulher assinalado no FEMININO - por Lúcia Gonçalves

Um dia Da Mulher assinalado no FEMININO

 

Decorridos já 106 anos desde o acontecimento que levou Clara Zetkin, em 1910, a propor um dia de luta Internacional da Mulher, em homenagem à luta travada em 1857 pelas operárias de uma fábrica têxtil, em Nova Iorque, a igualdade de género continua a ser um oásis no deserto.

Nos fundos das gavetas ou escondidos em poeirentas prateleiras está a legislação, os estudos, os relatos e os factos históricos que deveriam estar presentes na sociedade. Pergunto-me por que razões factos históricos sobre a igualdade de género são o parente esquecido ou a ovelha negra dos programas escolares? E, aqui, falo como profissional de Educação. Pelo Plano Anual de Atividades das Escolas proliferam as atividades (todas elas dignas) para o Dia do Não Fumador, O Dia da Ciência, O Dia da Alimentação, O Dia do Animal, O Dia da Música, O Dia dos Castelos, O Dia da Água… eu sei lá tanto Dia de… e ainda até há temas que têm direito a merecerem uma Semana completa de atividades ou mesmo serem designadas de Feiras: A Semana da Saúde, A Semana da Leitura, A Feira do Livro, a Feira dos Produtos da Terra… SOCORROOOOO! Não me venham argumentar que não é estranho que numa profissão essencialmente desempenhada por mulheres as atividades para celebrar o seu Dia sejam nulas, na melhor das hipóteses, escassas e esvaziadas de espírito de luta e incentivo à reivindicação.

Como tal, continuamos sem encontrar uma forma digna de celebrar esta data que reflita o papel da mulher na sociedade atual. Com tantas lutas que diariamente temos de travar nos diferentes espaços em que somos agentes intervenientes para que a igualdade de género seja um reflexo do carácter de cada um, e não um favorzito com o qual umas vezes se concorda, outras nem por isso. Do tipo um rebuçadito que se dá ou se esconde conforme a pressão da opinião pública vai cobrando a quem a quer agradar e faz disso profissão.

Atualmente, nesse dia, deveria reivindicar-se que a igualdade de género ainda está longe de atingir o âmbito legislativo, mais longe ainda, o âmbito social.

Ao invés disso, proliferam cada vez mais, ano após anos, os festejos que, na minha opinião se resumem a pobres imitações do que são as manifestações masculinas de jantaradas, consumo de álcool, shows de strippers e afins. Mais caricato ainda, e muito mais moderno, é que, nesse dia os homens supostamente “abandonados” por elas também se juntam, coitados (que me perdoem a expressão) para se consolarem, em jantaradas exclusivamente masculinas. As localidades assumem, pelo menos uma vez no ano, a tão tradicional divisão “para um lado as mulheres, para o outro os homens”, como se nos convívios latinos não fosse quase sempre assim: elas sentam-se de um lado da mesa de convívio e eles do outro. Ousadamente comparando, as localidades, nesse dia em particular, parece que caminham para a aceitação de um tal muro de Berlim que ao invés de dividir posições e ambições geopolíticas, aos olhos de uma feminista assumida, apenas se trata de afundar ainda mais o já tão longo precipício que separa a utopia do que é na realidade a igualdade de género na sociedade moderna.

Mais grave ainda, é que ludibriadas com discursos políticos, também elas estão a contribuir para que isso aconteça, ao invés de se unirem e continuarem a luta.

Eles, em suas atitudes romântico / benevolentes vão disfarçando as vitórias que vão reconquistando.

Elas, ofuscadas com as flores, as caixas de bombons, lingerie (eu cá também gosto desses mimos) aceitam a liberdade disfarçadamente concedida de uma noitada de copos, baixam os braços e vão cedendo as conquistadas alcançadas em séculos de conflitos ideológicos e físicos. Numa época em que a informação prolifera cada vez que nos conectamos ao mundo, parece-me que caminhamos como ovelhas num rebanho deslumbrado pela paisagem que nos deixam enxergar e não pelo que ela camufla. Reflito o que pensariam destas celebrações personagens feministas que deixaram gravado na história o seu nome pela coragem, por terem pago o preço mais elevado que um ser poder pagar por uma causa: A VIDA! Sem dúvida alguma a mulher atual será uma desilusão para todas elas.

No meu jeito observador / critico pergunto: mas o que se passa? 

Nada tenho contra ou a favor desse tipo de celebrações. Mas pergunto: porquê esperar trezentos e sessenta e cinco dias para nelas participar?

Deveras que, entristece-me constatar, vêm aumentando anualmente o número de mulheres que, para celebrar um dia em que deveríamos assumirmo-nos como o lado feminino da nossa sociedade, opta-se por adotar comportamentos tipicamente masculinos, dando o sinal à sociedade, especialmente às jovens mulheres, que a forma mais meritória de reivindicarmos a igualdade de género seja a das jantaradas e a de uma ida madrugada dentro, às urgências dos hospitais devido ao excesso de álcool consumido. Transmitimos a ideia de que o que reclamamos é única e exclusivamente o direito à diversão noturna. Para ser sincera esse para mim sempre foi um direito assumido!

Mulheres! É só isso que nos falta conquistar? Numa sociedade onde a grande maioria dos homens ainda olha com paternalismo para uma mulher que desempenha cargos de chefia? Em que a nossa participação ativa na sociedade civil é sempre olhada com desconfiança? Em que quase que sentimos vergonha por manifestar a nossa sexualidade? Que tenhamos de disfarçar a nossa sensualidade para não sermos tidas como “disponíveis” ou causadoras de violência sexual? Tenhamos de disfarçar o nosso sentimento para não sermos conotadas de oferecidas? Em que as jovens aceitam a violência doméstica quase como vulgar ou “porque as relações são mesmo assim”? Que quando queremos que nos escutem, nos cargos que desempenhamos, tenhamos de nos erguer em bicos dos pés e que eles comentam entre si que deveríamos era estar em casa a tratar dos filhos em vez de estar a participar nesta ou naquela reunião! Mesmo quando a mulher tenha conquistado o direito por mérito próprio?

Não me conformo que a carga simbólica e concreta que deste dia, tenha ardilosamente sido transformada num apelo ao consumismo com que a sociedade capitalista nos tem vindo a roubar as mais variadas festividades. Vejamos o exemplo do desaparecimento da tradição de pedir os Santinhos com a imposição mercantilista do Halloween, o apelo ao consumismo no Dia dos namorados… e vai dai…. entra também neste saco os festejos do Dia da Mulher. Tenho para mim que esta ideia das jantaradas foi ideia de algum homem!

Repito! Não me conformo!

Se discordo do encontro em massa das mulheres nesse dia? Não! Discordo da motivação. Se alguma vez me associei a jantares de grupo nesse dia? Claro que sim.

Mas entretanto pus-me cá a pensar no que motiva esses ajuntamentos massivos de mulheres! Qual a razão? São movidos por alguma causa? O que se pretende com eles?

Pois é! Quando olho para artigos que abordam essa temática e constato, por exemplo, que a violência no namoro está a aumentar, mais grave ainda que é aceite por elas; que poucas são as mulheres que são nomeadas para cargos de chefia quando paralelamente são elas que em maior percentagem terminam os cursos superiores e em maior número; que são elas que adiam os seus sonhos em nome da família; que numa esgotante ginástica física e mental tentam conciliar a maternidade / casamento / sexualidade / profissão / hobbies / a gestão da casa (aqui não importa a ordenação dos exemplos)…  Ainda se ouve com frequência a expressão que me enriça os pelos, “entre marido e mulher não se mete a colher”. Mais vergonhoso ainda, dita normalmente por mulheres, talvez para justificarem para si próprias a falta de coragem em enfrentar o macho alfa que têm em casa que lhes consome a energia ao ponto de nem terem forças para sonhar. Constato que há ainda tanto caminho para percorrer. Mas ao olharmos para as motivações que fazem sair as mulheres nesse dia de casa sinto-me desapontada.

Mais uma vez deixamo-nos enganar pelo brilho da luz. Pelo caminho fácil. Julgo que as verdadeiras feministas devem-se sentir mais hostilizadas entre os pares do que entre os homens. 

Na atualidade penso que a maior luta de temos de travar é junto das próprias mulheres. Sugiro que nos unamos para revelar a nossa forma feminina de interpretar o mundo e de nele atuarmos com o nosso poder de decisão, a nossa determinação, a nossa tenacidade, a nossa capacidade para desempenhar os mais variados papeis na sociedade, a nossa maternidade que nos torna mais sensatas e ao mesmo tempo mais firmes, a nossa resistência a horas consecutivas de trabalho, o nosso poder de concentração… o nosso romantismo… o lado feminino do planeta Terra e que não permitamos que a data seja transformada numa ninharia de uma vez no ano as mulheres se juntaram para fazerem coisas de homens.

Não julguem que com isto tudo defendo que homens e mulheres devam viver em mundos à parte. Não. Que às mulheres devam ser dadas determinadas tarefas ou lugares só porque são mulheres. Não! Mas que não lhe sejam vedadas oportunidades quando têm capacidades para as conquistarem em pé de igualdade com os homens. Que consigam investir em suas profissões e sonhos sem que as façam sentir negligentes face à família. Que as tarefas domésticas sejam partilhas quotidianas e sem preconceitos. Que sejam repudiadas todas as formas de violência que tornam as mulheres prisioneiras em suas relações. Enfim, que as mulheres tenham direito a ter direitos.

 

(Lúcia Gonçalves – fevereiro de 2015)

 

 

 

 

 

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