Um fim de ano - por José Lopes da Nave

Um fim de ano - por José Lopes da Nave

UM FIM DE ANO

 
 

No final de 1979, em Angra do Heroísmo, Açores, fomos fazer a passagem de ano, em casa de um colega e nosso amigo. Foi das melhores passagens de ano que lembro. A festa durou até de madrugada, já dia. Com muita comida, bebida e dança. E alegria. Levantámo-nos já tarde, e fomos todos almoçar a um restaurante, na cidade da Praia da Vitória. Começámos a almoçar pelas três da tarde. O almoço decorria já adiantado. Às quatro e vinte, começou tudo a abanar. Era um tremor de terra, o sismo de 1 de Janeiro de 1980.

O restaurante era sólido e não apresentou estragos. Reparámos num casal de americanos que almoçava também e que se levantou. Estavam de braços erguidos a tentar segurar um arco abatido de alvenaria. Até nos rimos

Ao tomar café, veio a primeira réplica. Pagámos a conta e fomos dar uma volta para verificar as consequências. Havia bastantes estragos, mas continuava a crer que não era grave. Regressámos a Angra e, ao chegarmos a uma vila, comecei a duvidar. O lado direito da rua principal tinha as casas todas caídas sobre a estrada. Uma falha geológica fora a razão.

Quando avistámos Angra, reparámos numa grande nuvem de pó sobre a cidade. Foi então que me assustei a sério. Chegámos a casa e verificámos que felizmente não havia danos, apenas tinha caído algum estuque dos tectos. Todavia, toda a cidade fora muito atingida. Perguntavam uns aos outros se a casa sofrera muito. Respondiam com humor que não, caíra de repente.

 Dada a gravidade da situação, deixei a família com os amigos e fui apresentar-me no Gabinete de Crise que começou a funcionar nas instalações da Polícia de Segurança Pública. Não havia telefone e as comunicações só eram possíveis através da rede de radioamadores, o que facilitou muito os contactos nos primeiros dias. Sabendo que no Continente as famílias estariam preocupadas, tive o cuidado de pedir que um deles, meu funcionário, difundisse a informação de que todos estávamos bem. E, de facto, assim aconteceu, pois no Continente as rádios transmitiram mesmo esta informação. Deste modo, a família, tanto em Lisboa como na aldeia, teve notícias nossas nesse mesmo dia.

A cidade ficou praticamente destruída. Após as obras de reconstrução, foi classificada como património mundial da humanidade.

 

 

 

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