Capitulo 9 - Um Homem Atribulado: Pôncio Pilatos e a decisão sobre Cristo - por Mário de Méroe

Capitulo 9 - Um Homem Atribulado: Pôncio Pilatos e a decisão sobre Cristo - por Mário de Méroe

Mário de Méroe

 

Um Homem Atribulado: Pôncio Pilatos e a decisão Sobre Cristo.

(Excertos de O Refúgio, capítulo 9 )

 

O mandato do procurador da Judeia nunca foi pacífico. Desde sua entrada teatral em Jerusalém, ostentando as insígnias imperiais, fato que ofendeu princípios tidos por sagrados pelos judeus, até os atos comuns de sua administração, sempre foram emoldurados por forte reação popular e/ou política.

Ora desgostava os habitantes, com sua postura intransigente e arrogante em relação aos líderes da comunidade; ora irritava os governantes e seus superiores na escala estatal de então, com sua postura pouco política.

Até sua esposa, a bela e inteligente Cláudia Prócula, não o poupava de suas críticas e sugestões, as quais eram sistematicamente repelidas.

Pilatos encontrava-se isolado, mesmo quando, dentro do palácio do governo ou de sua residência, era cercado de uma chusma de aduladores e, muito raro, alguns servos leais.

Mas naqueles dias do ano 33 de nossa era, suas preocupações aumentaram.

Um clima tenso e sinistro parecia apropriar-se do ar da localidade desértica.

O motivo: uma prisão. A simples prisão de um agitador e blasfemo, segundo os membros do Sinédrio. Ou a prisão de um profeta, inofensivo pregador de boas novas e benfeitor dos fracos e dos humildes, que havia curado enfermos, devolvido os movimentos e a fala aos deficientes, e que, com isso, havia caído em desgraça perante a classe dominante, que se sentia abalada em seu prestígio religioso por aquele pregador sem-cerimônia, que sequer respeitava o sabat judaico, quando se tratava de atender a algum necessitado ou doente. Na versão do povo humilde, era pura perseguição política, motivada por intolerância religiosa. Cada facção o descrevia conforme seu entendimento, ou seus interesses.

O caso reunia características contraditórias, religiosas e legais. Se o acusado era profeta ou não, se curava os enfermos ou não, nada disso interessava ao Império Romano, que permitia, ou melhor, por razões estratégicas, tolerava aos povos cativos cultivarem suas tradições, desde que não fossem perniciosas ao seu domínio.

Aliviado, Pilatos pensou: então a competência para julgá-lo é do Sinédrio, e não do governante romano.

Mas havia um sério complicador: percebendo que os assuntos meramente religiosos não sensibilizariam o representante de Roma, os espertos acusadores forjaram um “crime” de lesa-majestade: acusaram-no de alta traição:

— Ele se intitula filho de Deus, disseram.

Pilatos deu de ombros:

— E eu com isso? Decidam vocês, religiosos!

— Mas ele também se diz rei dos judeus, e é acompanhado de grande multidão, que o apoia nesse empreendimento, e isso atenta contra a soberania de César, remataram.

Então Pilatos ficou pensativo: ignorar a denúncia equivaleria a ser conivente com um subversivo, possível insuflador de revoltas, o que representava sérios perigos para seu cargo e até para sua segurança pessoal.

Pilatos era leal ao Imperador e aos demais coparticipes do governo imperial. Em toda sua carreira, sempre demonstrou lealdade, mesmo que, às vezes, deixasse extravasar algo de cruel e intolerante. Mas não era traidor.

Então, pensava o procurador, se esse acusado é uma ameaça a Roma, assim deve ser tratado. Haverá audiência e uma decisão justa, digna da Justiça romana.

Os poderes de Estado, dos quais Pilatos fazia parte naquela época e naquele local, estavam assim dispostos:

No topo do poder encontrava-se o Imperador (na época, Tibério); a seguir, o Senado, o poder “legislativo” da corte; O Corpo Diplomático, as legações das regiões mais importantes, como a Síria, e outros potentados que pertenciam ao intrincado mosaico do poder. O Procurador romano, mais propriamente, o prefeito de uma localidade com menos de um milhão de habitantes, como autoridade civil que se reportava a Roma, era o último na hierarquia de então.

O Sinédrio judeu, por essa ocasião, já se encontrava reduzido pelos romanos a uma mera instituição religiosa, sem o antigo poder sobre o destino dos cidadãos. Ciosos de sua autoridade, os romanos davam a palavra final sobre os processos civis e criminais.

Ao que indicam as fontes Pilatos foi nomeado governador da Palestina no governo do imperador Tibério César, por volta do ano 26 da era cristã, que permaneceu até o ano 37. Sua jurisdição estendia-se apenas sobre três províncias pequenas, pobres e turbulentas, nas quais eclodiam revoltas frequentes e sangrentas, como a Idumeia, a Samária e a Judeia.

Sobre essas províncias, Pilatos desfrutava de grande autoridade civil e militar, mas com modus operandi submetido ao governo de Cesareia, seu superior imediato na hierarquia imperial. Coube-lhe, nesse mister, dirigir e sentenciar sobre o processo do acusado. Ele, o menor em importância e em autoridade. Os demais escaparam do crivo da História, pelos mais variados estratagemas, permitidos pelo Direito Romano.

Com sua decisão, o processo exauriu-se, pois, o acusado era tido como andarilho, sem residência fixa e sem o status de cidadão romano, o que lhe daria o direito de apelar para as autoridades superiores, como faria o apóstolo Paulo, na sequência da difusão cristã.

Assim, somente a figura de Pilatos foi estigmatizada, pela Igreja e pela História, como responsável pela condenação de Jesus, pois sobre as demais autoridades não recaiu nenhuma responsabilidade legal ou moral no episódio. O Procurador romano, entretanto, foi o único que fez algum esforço para salvá-lo da morte.

Sua atitude no julgamento mais famoso da história, até hoje divide opiniões: para uns, foi um covarde, ao “lavar as mãos” e eximir-se da responsabilidade pelo resultado. Para outros, entretanto, havia uma predestinação: a história de Cristo estava prevista nas antigas Escrituras, e nada poderia mudá-la. Ao considerarmos essa posição, Pilatos foi protagonista de um episódio adrede planejado, para dar continuidade às profecias dos antigos. Se procedesse de outra maneira, um dos fios da História bíblica ficaria solto.

Retornando às preocupações de Pilatos, temos que sua esposa, que acompanhava os acontecimentos, o havia alertado, dizendo que não se envolvesse naquela questão.

Pilatos sentia-se enredado pelas manobras dos sacerdotes, e pressionado pela falsa ira demonstrada pela multidão, notoriamente mercenária.

Teve ímpetos de dar uma demonstração de força e dispersá-los com suas tropas. Mas temia a influência dos sacerdotes e a repercussão negativa de seu ato, perante os grandes do Império.

Outra força ainda maior o deteve: a sensação de estar cumprindo um papel difícil, ingrato e doloroso, mas que lhe fora imposto pelo destino.

Recordou-se, com inquietação, de um sonho que teve quando ainda cursava o colégio militar romano, e que muito o impressionara na ocasião.

Naquele sonho apareceu-lhe um velho escriba, segurando um rolo de pergaminho que, com ar profético, leu para o jovem: “Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca. Da opressão e do juízo foi tirado; e quem contará o tempo da sua vida? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; pela transgressão do meu povo ele foi atingido”.

O ímpeto de soldado romano logo assomou o espírito do jovem:

— A quem se referem essas coisas? – inquiriu.

— Essa profecia relata um episódio da vida de um homem, muito corajoso, que, por ser justo e semeador de bondade, provocará a ira dos poderosos e padecerá até a morte pelas mãos deles – respondeu o velho.

— Não em minha presença; minha espada protegerá esse justo, respondeu, entre arrogante e convicto, o jovem Pilatos.

— Você o protegerá, mas não pela força. Ao contrário, você usará o poder para deixar que seus inimigos o executem, embora injustamente.

No devido tempo, ser-lhe-á destinado um cargo importante no Império, por força do qual seus destinos se cruzarão. Então essa profecia cumprir-se- á, com a morte violenta e ignominiosa de um inocente.

Pilatos não se conteve:

— Você está louco! Se ele for inocente, os juízes o absolverão e punirão seus detratores. A justiça do Império Romano é íntegra!

O velho sorriu, dizendo:

— O Império poderá até dominar o mundo todo, mas não domina nem dominará o coração humano. A maldade sempre norteou a atividade dos homens, especialmente os que utilizam a credulidade e o fanatismo alheio para atingir seus objetivos escusos. Você comprovará isso pessoalmente; no devido tempo e lugar, vocês se encontrarão e a profecia se realizará. Nada poderá impedir que se cumpra o que está escrito.

— Tentarei impedir essa maldade, insistiu Pilatos.

— Claro que tentará, mas sua ousadia lhe custará caro! Você será difamado, perseguido e humilhado, assim como antes de você, Ele o será.

Seus papéis na história do mundo já estão delineados há milênios, por desígnio superior, e nada poderá mudá-los. Ele deverá sofrer morte hedionda, sem culpa nenhuma, para quitar uma milenar dívida humana.

Prosseguiu o ancião:

— Cumprindo o papel que lhe foi destinado, na ocasião sua autoridade, deverá coonestar a morte de um inocente, para que tudo se cumpra como está escrito. Não tenha medo; Ele nunca o condenará por cumprir seu dever! Mas, na história dos homens...

Pilatos acordou, assustado. Não era dado a sonhos, mas esse muito o impressionara. Após profunda reflexão, convenceu-se de que fora apenas um pesadelo, originado, talvez, por excesso de exercícios ou vida social.

Agora, décadas depois, ele estava ali, frente a frente com um homem, no qual não vislumbrava o menor traço de maldade ou crime. Mas os sacerdotes açularam a multidão para pedir sua morte.

Um suor frio inundou a fronte de Pilatos:

— Será este o momento anunciado no sonho? E se for, devo observar, passivamente que se cumpra a tal profecia? Mas se tiver sido apenas um sonho, este homem poderá morrer injustamente.

Nesse exato momento, Pilatos sentiu sobre sua pessoa um olhar fixo: Jesus olhava para ele como que sabendo o que se passava em seu espírito.

Apesar do rosto desfigurado e sangrento, o olhar do prisioneiro lhe transmitiu uma sensação de paz e amor. Parecia abatido fisicamente, mas não preocupado ou zangado. Ele compreendera!

Mas Pilatos, hesitante, ainda tentou impor sua autoridade, e disse a Jesus:

— Defende-te dessas acusações absurdas. Posso mandar soltá-lo, se o fizer, pois estou convencido de sua inocência. Mas, se mantiver o silêncio, a palavra de seus acusadores prevalecerá, e terei de mandar executá-lo!

Jesus, então, lhe disse:

— Nenhum poder terias contra mim, se de cima não te fosse dado; mas aquele que me entregou a ti maior pecado tem.

Desconcertado com a firmeza do acusado, e como única providência legal que poderia adotar, pois o julgamento atingira um ponto de decisão, Pilatos propôs a escolha popular, que era o tradicional perdão concedido por ocasião da Páscoa judaica. Surpreso, verificou que a multidão preferiu libertar um famoso salteador e homicida, detestado por todos eles.

Com a desilusão de um personagem que finalmente compreendeu que sua representação naquela peça estava encerrada, Pilatos aparentemente resignou-se e o entregou aos seus algozes.

Ele quis, entretanto, deixar a marca de sua personalidade e respeito pelo acusado: mandou gravar e fixar na cruz uma tabuleta com os dizeres: “Jesus Nazareno Rei dos Judeus”.

Pensava, com isso, sensibilizar a multidão ou, pelo menos, registrar que reconhecia o quanto aquele homem poderia ter feito pelo povo humilde da região.

Mas também por esse motivo, foi alvo de chacota e de sérias denúncias perante os seus maiores.

*******

Cenas comoventes se sucederam: a execução, o pedido extraordinário de um alto dignitário para que seu corpo lhe fosse entregue, os boatos que se seguiram sobre uma suposta ressurreição e posterior aparecimento do Nazareno a algumas pessoas. Informações demais, tranquilidade de menos para o pobre Pilatos, que se recolheu ao seu gabinete de trabalho, dando ordens expressas para não ser incomodado sob nenhum pretexto.

Já vinha alta a madrugada, e o Procurador permanecia sozinho em seu escritório, em profunda meditação. Toda sua carreira, militar e política desfilava-se diante de seus olhos. Nada de importante havia, nada de que orgulhar-se, e uma sensação de vergonha ao lembrar-se da autoridade de que dispunha e da acomodação de seu espírito diante dos últimos acontecimentos.

Que juízo de valor Jesus faria sobre ele? Em sua humildade, Ele fora digno e sereno. Já Pilatos, não conseguia mais conter o desespero, e cogitou suicidar-se.

— Preservar minha honra como romano, que foi a única coisa que me restou, pensou Pilatos.

Já havia empunhado sua adaga quando, de repente, uma luz suave, que se confundia com o luar, inundou o recinto. No centro dela, Jesus vestido com um manto dourado, o semblante sereno, ladeado por dois arcanjos, sorria para o atribulado Pilatos:

— Minha paz lhe dou, caro irmão!

Pilatos, completamente atordoado, abandonou a arma e ajoelhou-se.

Jesus aproximou-se e disse-lhe:

— Você sofreu muito tentando salvar-me. Mas isso não lhe seria possível, pois as sagradas escrituras devem cumprir-se integralmente. Nada poderia mudar o que estava previsto no plano superior de Deus.

— Fui um covarde; eu poderia convocar meus soldados, dispersar a multidão, prender os sacerdotes e mandar soltá-lo! Nunca me perdoarei por essa fraqueza, disse Pilatos, em lágrimas.

Jesus colocou a mão direita sobre a cabeça do Procurador:

— Esse papel lhe foi imposto, não lhe foi dado escolhê-lo ou recusá-lo. Você é apenas um homem, Pilatos, apesar de seu cargo e autoridade. Mas esses atributos são transitórios; ao mudar a política, os homens também mudarão suas posturas e opiniões. Somente Deus é eterno!

— Perdoe-me, Mestre!

— Perdão se dá a culpados, Pilatos. Em você, nada há a perdoar, pois não cometeu crime nenhum; cumpriu sua missão, para que se realizasse a profecia. Você desempenhou um importante trabalho para minha missão.

E Jesus continuou:

— Entretanto, suas tarefas não terminaram ainda: você as completará em lugar distante, frente a pessoas hostis, e muito sofrerá por mim. Isso também faz parte do plano divino; nós dois fomos escolhidos para viver esses dois controvertidos personagens: o de condenado injustamente coube a mim; o de juiz, a você. O escriba supremo assim o determinou.

— Sou apenas um homem, e nunca poderia ter ousado julgar o filho de Deus, desesperou-se Pilatos.

— Como já lhe disse antes: nenhum poder você teria, se não tivesse sido permitido pelo Altíssimo, por sua vontade e conforme seus planos. Quem somos nós para alterá-los? Agora, fique em paz, você precisará de muita energia para cumprir o restante de sua missão; a minha, ao menos na terra, já findou.

A seguir, Jesus o abençoou e partiu. A luz misturou-se com o clarão da manhã e os personagens celestiais desapareceram, deixando uma sensação de paz e renovação espiritual. Importante etapa, do plano original de redenção humana, já fora terminada. E nova esperança nascia, então, para toda a humanidade.

Pilatos permaneceu de joelhos ainda por algum tempo. Depois se levantou, sentindo-se revigorado com a imponderável visita, e energizado com a inesperada bênção, concedida por quem ele havia condenado à morte!

Logo pela manhã, mais cedo do que de costume, banhado, alimentado e vestido com apuro, compareceu ao trabalho com renovada energia, o que surpreendeu seus auxiliares, pois o imaginaram extenuado face aos últimos acontecimentos.

Cláudia, sua esposa, que não conseguiu conciliar o sono, amargurada e exausta, também estranhou a postura do marido. Ele parecia completamente restaurado, que aparentava não se lembrar sequer da terrível experiência do dia anterior. Teria enlouquecido?

Pilatos mandou vir um artesão ao seu gabinete. O artífice ouviu um pedido extraordinário: o Procurador lhe encomendara um pequeno pedestal, no qual seria fixada uma cruz romana. Pregada sobre ela, uma figura humana, encimada por um pequeno listel, no qual se lia as abreviaturas I.N.R.I.

— Que significa isso, senhor?

— É uma advertência para todos os juízes. Espero que sirva para alertá-los que o aparato da Justiça, mesmo dirigido por pessoas íntegras, pode servir de manto legal para as maiores iniquidades! Que seu uso seja estimulado doravante em todos os recintos onde se processem julgamentos, nos quais se decida sobre a pessoa humana.

O artesão realizou a obra, e Pilatos mandou colocar esse símbolo sobre sua mesa de trabalho.

Ele agia com absoluta calma e inabalável autoridade, como se nada de anormal houvesse acontecido naquela região.

Apenas seu semblante parecia mais sereno, humanizado, e seu olhar, antes penetrante e enérgico, às vezes quedava-se tristonho quando olhava em direção ao monte Gólgota, especialmente por ocasião dos julgamentos, aos quais presidia, desde então, com o crucifixo à sua frente.

Segundo a história, Pôncio Pilatos permaneceu nesse mister até o ano 37, quando mudanças no governo do Império afetaram sua carreira política, forçando-o a afastar-se daquela região, após o que desapareceu para sempre nas brumas da história.

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