Um pindaíba nunca está sozinho - por Maria Estela Ximenes

Um pindaíba nunca está sozinho - por Maria Estela Ximenes

 

Popularmente, é dito que uma pessoa está na pindaíba quando se encontra sem recursos, impossibilitada de honrar as suas dívidas, No entanto, pouco se fala sobre a planta Pindaíba que habita regiões de matas e em nada se assemelha com indivíduo na condição de pindaíba.

Enquanto a planta medra durante alguns meses do ano, as ações de uma pessoa na pindaíba perduram indefinidamente, expondo seu estado vexatório. Uma, amplia-se em solo drenado, propaga-se por sementes, pode atingir vinte metros de altura. A outra, em estabelecimentos comerciais da cidade, explodindo cartões de crédito, atingindo o topo da míngua. Ambas possuem características peculiares: uma pela aparência rústica e esguia, a outra pelo ar indefeso, atarracado.

A planta pindaíba tem seu crescimento lento; ao contrário de um indivíduo falido, cujas dívidas crescem rapidamente à medida que chegam os boletos de cobrança.

Descendentes de famílias abastadas não sentem as dores de se estar na pindaíba, tampouco carecem de um punhado de notas para aliviar a condição de penúria. Um indivíduo na pindaíba depende essencialmente do suor de seu trabalho para sobreviver. O luxo é uma afronta para os seus olhos; sentem-se desafiados. Alguns chegam a apostar no jogo, subtraindo os parcos trocados.

A pessoa na pindaíba usa com frequência a conjunção “se” – se eu ganhasse muito dinheiro, pagaria uma viagem  espacial, compraria uma Ferrari, diria adeus ao salário mínimo. Se eu fosse rico, viveria esparramado no sofá, conectado à internet, saboreando variadas iguarias. Se a minha conta bancária fosse ilimitada, teria status e meu ego seria alimentado, ou massageado.

Talvez a única semelhança entre a fruta e o indivíduo é que, conforme vai amadurecendo, a fruta pindaíba adquire a cor de sangue – tão vermelho quanto à situação de um endividado.

Consta em livros específicos que a planta está em extinção. O mesmo não acontece com o indivíduo na pindaíba; esse prolifera na ânsia de adquirir bens.

Uma pessoa na pindaíba nunca está desacompanhada – pode ser encontrada em inúmeros lugares – bares, supermercados, lojas, cinemas, restaurantes, feiras, ruas – tem em comum o hábito de contar moedas e distribuir cheques sem fundo.

Assim como a planta pindaíba convive com outras plantas nas matas, a pessoa na pindaíba não é um ser isolado; existem milhares de bolsos vazios ao redor do mundo. No universo da pindaíba, feliz é quem consegue desgarrar de tão vasta comunidade.

 

Publicado em 22/02/2014

 

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