Uma comemoração e Tanto - por Silva Neto

Uma comemoração e Tanto - por Silva Neto

Uma Comemoração e Tanto – Por Silva Neto

 

Este texto, talvez, não expresse ao leitor o sentimento pelo qual são carregadas as frases contidas nele vindas do âmago do meu coração. Tão forte quanto o sentimento da perda, as lembranças revividas há uma semana, quando da visita a Cidade de Garanhuns, especialmente ao Colégio Diocesano, berço de minha educação secundária, ficaram marcadas para sempre em mim. Ao mergulhar no passado o que não pude rever com os olhos físicos revi com os olhos d’alma, num olhar atendo a todos os detalhes daquela comemoração de cem anos de fundação do referido Colégio.

Foram muitas as lembranças rememoradas, especialmente, aquelas, onde o tempo, predador natural e impiedoso, as ocultou durante esses cinquenta anos passados.

A faixada do Colégio a mesma, incólume no seu estilo clássico secular, de cor cáqui, tal qual aquele velho fardamento conservado até hoje. As paredes internas, revestidas e pintadas da mesma cor transpiram saudade. A recepção, os corredores, o assoalho, as escadarias e sacadas, exalando o mesmo odor do verniz de seus móveis de madeira de lei. As mesmas salas, os mesmos bancos escolares, os mesmos jardins frontais, a mesma praça, as mesmas flores, tudo em seu lugar dantes, há cinquenta anos.

Em sua quadra coberta, assisti às múltiplas comemorações dos atuais alunos, onde foram encenadas peças teatrais alusivas aos antigos professores e à impoluta figura do mais ilustre de seus diretores, Mons. Adelmar da Mota Valença, (in memoriam), que conduziu os destinos daquele tradicional educandário durante sessenta e quatro anos. A extensa programação das comemorações nos trinta dias que antecederam ao dia doze de Outubro, data magna de encerramento àquelas festividades, culminou com o desfile cívico dos alunos e ex-alunos presentes, uma verdadeira apoteose de saudosismo, congratulações e agradecimentos. Apostos, em fila, os ex-alunos deram um show de civismo, cantando o hino do Colégio ao som e cadência da Banda Marcial, além de desfilarem pelas principais avenidas da Cidade, sob os aplausos da população assistente. Eram senhores como eu, cinquentenários, sexagenários, septuagenários, octogenários com feições de crianças sorrindo e chorando de emoção. Todos irmanados ao grupo dos ilustres desconhecidos vindos dos quatro cantos do Brasil, mas que, ali, eram unidos pela causa, abraçando-se e memorando os tempos saudosos de adolescentes naquele colégio.

Visitei, também, o Mosteiro de São Bento, naquela cidade, não como turista, mas, como ex-oblato daquela ordem religiosa. O termo “oblato” vem do latim “oblatus” (oferecido). São meninos oferecidos pelos pais à vida monástica. Nos Mosteiros vivem a vida religiosa com a intensão de serem Monges, desde que tenham vocação. Lá, tive aulas de latim, civilidade e ensinos religiosos atinentes à ordem. O ensino escolar era fora, no Colégio Diocesano, o qual recebia alunos tanto externos como no sistema de internato.

Revi aquelas paredes grossas, corredores silenciosos, capela, claustro, cripta, biblioteca, sala de estudos, dormitório, salões de recreio daquele Mosteiro, onde adolescente vivi.

 

Em frente ao Mosteiro, o velho prédio da Estação Ferroviária, hoje, Centro Artesanal. Fechei por um instante os olhos e vi, através dos olhos da alma, o Trem, aquela mesma composição puxada por uma locomotiva Maria Fumaça, ali, parada, baforando fumaça branca de lenha verde.   De um de seus vagões descia um menino, uma mulher e um homem segurando uma enorme mala de couro. Era eu, a Diretora de minha Escola e meu pai em direção ao Mosteiro. Meu pai vinha me oferecer àquela Ordem Religiosa para me tornar Monge. Lembrei-me, por um instante, da partida do Trem da Estação da minha Cidade:

“Um saudoso e entoado apito longo e repetido; rolos de fumaça branca saindo das manivelas tornava a paisagem densa cortada por vultos imperceptíveis à medida que se distanciava da Estação. Barulho ensurdecedor, acenos de mãos, sorrisos e lágrimas; coração batendo tão forte quanto aqueles impulsos da locomotiva. Cabeça fora da janela, braços estendidos em um adeus a perder de vista. Estava indo estudar em Garanhuns”.

 

Cinquenta anos passaram, os ex-professores partiram só as lembranças ficaram vivas naquele lugar onde a memória vislumbra as marcas deixadas por mim e que me conduzirão à eternidade.

 

João Bezerra da Silva Neto – Ex-Aluno

Email: Joao.digicon@gmail.com

 

19/10/2015

 

 

 

 

 

 

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