Uma questão de persuasão - por Antonio Eustáquio Marciano

Uma questão de persuasão - por Antonio Eustáquio Marciano

Uma questão de persuasão

 

Eu já tinha cinco anos e continuava gostando de mamar Bico ou Chupeta, como dizemos hoje, apesar dos insistentes apelos de minha mãe, para que eu deixasse disto. A pobre mulher já não sabia mais o que fazer. Havia cansado de fazer o que muitas pessoas aconselhavam, ou seja, passar algo de sabor amargo ou ardente e nada resolvia, pois eu tinha sempre a disposição de lavar tudo e, pacientemente, retomar minha chupeta. Ela argumentava que “menino que mamava Bico não crescia inteligente e que, nenhuma moça se interessaria por mim, pois eu teria os dentes puxados pra frente. Eu seria considerado um menino bobo e ninguém me daria crédito”. Mas nada disto adiantava, eu não trocaria meu Bico por nada. Minha mãe desistiu, aparentemente. Eu nunca levara a sério estas conversas dela porque eu não conseguia me imaginar sem o meu Bico. Era ele que me fazia esquecer o tédio que era aquela casa silenciosa, numa rua e cidade silenciosas, de segunda feira a domingo. O silêncio só não era pior porque ouvia-se o som do maquinário de uma pequena beneficiadora de arroz ao longe, que mais parecia um lamento no decorrer dos dias. Mamãe se punha a costurar num pequeno quarto, ao lado da sala, e, às vezes, entoava um canto que contava alguma estória extraordinária que se passara naquelas campanhas. Ela tinha predileção por canções que falavam de amor e solidariedade, tão necessários naquelas terras de precárias condições de vida para o ser humano. Vez por outra, um som diferente quebrava a monotonia. Era o barulho da pequena Roca, na qual minha mãe punha-se a fiar. Antes ela pegava o algodão colhido no quintal, depurava o da sujeira, usando objetos que ela chamava de Caldas, que eram duas tabuinhas cheias de pontas de arame e com cabo. Colocava entre elas pequeno fardo de algodão e, esfregando uma na outra, transformava aquilo em um canudo muito branco e limpo. Os canudos eram ligados às engrenagens da Roca e, com habilidade, usando as duas mãos para controlar o material e os pés para tocar a Roca, mamãe os transformava em cordões que eram enrolados e guardados para deles se fazerem colchas que usávamos para, nos cobrir em noites frias. Mamãe tinha habilidade também para, a partir de pequenos retalhos de tecidos, confeccionar bela colchas. Este trabalho de minha mãe tinha minha admiração, principalmente porque quebrava a monotonia. Era muito bom quando ela terminava e mostrava-nos o trabalho de suas mãos.  Meu pai, eu só o via à noite e ele, às vezes, dormia no trabalho. Contudo, no domingo, ele estava sempre por perto. Ele se levantava cedo, ia à missa. Depois se dedicava a algum trabalho manual. Ele tinha sempre uma rocinha precisando ser cuidada ou uma cerca precisando de reparos. Quando estava livre ele cortava bambus verticalmente em quatro partes e fazia cestos, balaios, peneiras, muito úteis no dia a dia de nossa casa.

Voltando ao assunto com o qual iniciei este texto, minha mãe tentava, por tudo, me convencer a deixar a chupeta, sem nenhum sucesso. Foi aí que entrou em cena outro personagem: meu irmão mais velho. O pirralho, com apenas oito anos, se revelou um excelente estrategista e bolou um plano, junto com mamãe, para fazer me deixar, de vez, o Bico. Como eu disse antes, tudo ali e nas redondezas, salvo raros momentos, era silêncio. Em minha rua, raramente passava um automóvel. Um belo dia, por volta das quatorze horas, ouvi o som que pareceu do motor de um Ford 1929, popular Furreca, que se aproximava. Percebi que o veículo parou próximo à minha casa, por não mais do que meio minuto, depois se foi, voltando a prevalecer o monótono e melancólico silêncio de sempre. De repente, meu irmão, pentelho, chegou pra minha mãe, que costurava no quarto, ao lado da sala onde eu brincava e, meio esbaforido, disse a ela insistentemente:

- Mãe, esconde o Tonho! ... esconde o Tonho!

Tonho era eu. Tratei de escutar a conversa sem deixá-los perceber e ele continuava pedindo a mamãe que me escondesse.

- Por que eu haveria de esconder seu irmão, meu filho?

- Mãe – respondeu meu irmão – parou um carro ali na rua agora, só por um instante e nele havia dois homens fortes que me chamaram e me perguntaram:

- Ei, menino, venha cá! Você conhece, nesta rua, algum menino que mama Bico?

Eu me lembrei do Tonho, mas pressenti algo e falei que não conhecia. Então, o homem mais medonho me disse que estavam procurando meninos que mamam Bico para capá-los todos e que se eu soubesse de algum era pra contar imediatamente para eles que voltarão amanhã.

Meu irmão parecia tremer e dizia:

- Por favor, mãe, esconde o Tonho!

Mas, minha mãe respondeu secamente:

- Ah, filho, eu não vou escondê-lo não. Já cansei de falar pra ele deixar o Bico e ele não me ouve. Deixa ele pra lá!

E assim terminou a conversa entre os dois, que eu fingi não ter ouvido. Deixei passar alguns minutos, para que não percebessem que eu tinha ouvido tudo. Então, procurei minha mãe:

- Mamãe, toma o meu Bico, não o quero mais.

Minha mãe, “toda consternada” me indagou:

- O que é isto, meu filho? Você está entregando algo de que gosta tanto?

- Mas, mamãe – disse eu, com ar de pessoa decidida – resolvi que não quero mais e pronto.

E entreguei o objeto a ela.

 

 

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