Úrsula, a Esnobe, ou Uma das Lições de O Vermelho e o Negro - por Pedro Irineu

Úrsula, a Esnobe, ou Uma das Lições de O Vermelho e o Negro - por Pedro Irineu

Úrsula, a Esnobe, ou Uma das Lições de O Vermelho e o Negro.

 

Úrsula só me disse sim depois que eu passei a lhe dizer vários nãos.

Eu até me considerava um sujeito de qualidades interessantes perante às mulheres, antes do olhar de Úrsula, dos seus gestos, da sua indiferença em relação a mim, colocarem isso em dúvida. E não foi porque eu cheguei nela mais com arrogância do que confiança, mais com prepotência do que autoestima.

Desde a primeira vez em que me insinuei para Úrsula, não recebi a mínima atenção. Em quase todas as conversas que tentei ter com ela, Úrsula permaneceu quase que monossilábica a qualquer pergunta minha demonstrando interesse nela. Ponderei que ela talvez fosse comprometida, embora não usasse aliança, ou que talvez gostasse de beijar garotas e desprezasse rapazes. Mas não era nenhuma dessas razões, ou qualquer outra, a não ser aquela revelada pelo olhar dela. Frio, incontornável, cheio-de-não-me-toque. Se ela não fosse a mais nova sócia advogada do escritório, responsável pela montagem da equipe de Direito Empresarial, talvez eu não tivesse tido a oportunidade de insistir. Já havia recebido indiferença de outras garotas, é óbvio, mas essa indiferença de Úrsula era, digamos assim, diferente. Criei em minha mente a ideia de que essa indiferença precisava ser vencida.

Assim, usei com Úrsula de todas as táticas que já havia usado com as outras, inclusive a tática de não ter tática, de ser espontâneo, de ser eu mesmo - A tática que às vezes me doí mais, porque a sinceridade para um poeta quase sempre vem acompanhada da dor, por isso que é melhor fingir e mentir – Mas nem isso funcionava.

Um sorriso de simpatia. Um ligeiro agradecimento. Gestos desconhecidos por Úrsula. Mas o olhar blasé a cada tentativa minha, isso ela sabia fazer bem. E o pior é que ela era tão fria, tão inatingível, tão difícil de impressionar, que nenhuma das minhas tentativas foi retribuída com uma recusa acalorada do tipo: “Sai garoto!” - Uma vez, eu conquistei uma garota ao perceber que nesse grito havia paixão demais para que o seu real significado estivesse nas palavras. Encostei a garota na parede bem firme e pedi para ela dizer aquilo de novo. Ela até se assustou, mas não repetiu o grito. Pouco a pouco foi amolecendo e eu consegui beija-la. Acho que ao encostá-la na parede eu realmente demonstrei que estava interessado nela. Uma loucura, pois ela podia ter chutado meu saco pra se defender, mas o que importa é que funcionou.

Mas voltando a Úrsula... As minhas tentativas estavam se esgotando. Desistir? Entregar os pontos? Não, jamais. Vê-la todo dia no escritório e saber que ela tinha resistido a mim significaria um sinal de vergonha. Além disso, todos os outros também estavam se dando mal com ela. Nesse ponto, a minha vaidade também não me fez desistir. Imaginem a vantagem que eu contaria perante todos os outros advogados. Eu tinha que conquista-la.

Foi lendo O Vermelho e o Negro que finalmente percebi ainda não havia usado uma tática com Úrsula. Ah... Os bons romances, como eles são inacabáveis, atemporais....

Pois bem. Vou direto a parte que interessa do livro para ajuda da minha causa com Úrsula. Me desculpem o pequeno spoiler. Tenho certeza, contudo, que ainda valerá a pena ler o livro só pela brilhante narrativa de Stendhal.

 

“ O caso entre Julien Sorel e Mathilde de La Mole.

Mathilde ama e despreza Julien. Ama-o porque enxerga nele a altivez, a ambição heroica, e as meritocracias dos antepassados dela, cuja ascensão social era respaldada por essas características. Mas também o despreza porque se foi o tempo, depois da queda de Napoleão, em que essas características devam ser exaltadas, além da perturbação que lhe causa a ideia de que esteja amando alguém sem o seu título e a sua nobreza. Após alguns encontros românticos e amorosos com Julien, o desprezo vence. Em breves linhas, ela confunde esse amor por uma paixonite, uma mera fantasia juvenil, que teve como sujeito alguém que havia julgada peculiar dentre os homens que normalmente a cortejavam, mas que, no fundo, também não a livraria do tédio de ter que conviver com as cortesias e as virtudes desgastadas do seu tempo.

No entanto, e aqui se chega à parte mais importante, Julien ainda quer ter para si Mathilde, mais por vaidade do que por amor, eu acredito.  Mas se vê sem saída, porque avançar em direção a Mathilde seria alimentar o orgulho dela, e consequentemente aumentar o despreza dela por ele. Então, numa viagem para resolver assuntos clandestinos do pai de Mathilde, para quem trabalha, ele se encontra com um velho amigo russo, que lhe aponta o caminho para ter de volta o coração da moça aristocrática.

Mulheres orgulhosas não suportam ser preteridas, ainda que não desejem verdadeiramente certo homem. Foi esse o conselho que o velho amigo russo deu a Julien. Assim, ele passa a dirigir a sua atenção a outra mulher, no caso, a Sra. de Fervaques. Ele troca longas cartas com essa dama, passa a visitá-la na casa dela, corteja-a na frente de Mathilde, que não consegue suportar estar sendo esquecida e deixada para trás, e passa a buscar Julien para demonstrar que o ama, que havia se enganado a respeito do que sentia por ele. No entanto, Julien se lembra de mais um detalhe da lição do velho amigo russo... E assim continua a desprezar Mathilde em todas as oportunidades possíveis, até que ela não é mais capaz de resistir, e finalmente se entrega louca e apaixonadamente a Julien.”

Esse caso romanesco se passa no início do Século XIX, mas dois séculos depois, e ele continua atual, tanto que me deu a ideia para conquistar Úrsula. Não sei se o perfil de Úrsula se assemelhava exatamente ao de Mathilde, tão pouco me arriscaria a dizer que Úrsula sequer tivesse chegado a ter uma paixonite por mim, mas decidi seguir o conselho de Stendhal, contado pelo velho amigo russo de Julien Sorel.

Dessa forma, em todos os happy hours, em todos os almoços entre os advogados dos escritórios, em suma, em qualquer ocasião que fosse conveniente, eu aparecia perante Úrsula com uma garota linda, com aparência de bem-sucedida, e com as outras qualidades que eu julgava capazes de causar admiração na generalidade das pessoas. Nesse ponto, certas amigas minhas, umas mediante pagamento outras não, ajudaram a minha causa.

Era fundamental que Úrsula não percebesse que eu queria mostrar a ela que estava com uma garota, como quem dissesse diretamente “Olha o que você perdeu ou está perdendo”. Isso só aumentaria o orgulho dela, e consequentemente o seu desprezo por mim. Assim, cuidava para que ela me visse com a acompanhante, mas sempre de um ângulo ou de uma maneira que despistasse qualquer propósito de me exibir para Úrsula com ela. Também repelia qualquer contato visual com Úrsula, sequer lhe dirigia a palavra. Devolvia o seu desprezo passando a falsa mensagem de que eu havia desencanado dela completamente. Além disso, eu mostrava à garota que me acompanhava todos os agradáveis atributos da minha personalidade, e ao fazer isso, também mostrava esses mesmos atributos indiretamente a Úrsula, que parecia percebê-los com mais nitidez agora que não estavam sendo dirigidos para ela, mas para outra garota.

Pouco a pouco, eu fui percebendo que minha tática passava a surtir efeito. Úrsula procurava olhar mais para mim, até começou a fazer alguns comentários buscando a minha atenção, geralmente demonstrando interesse em saber como eu havia conhecido uma ou outra garota em particular, ou perguntando até mesmo sobre meus processos ou o que eu andava fazendo nas horas vagas.

Sorrir. A esnobe, a indiferente Úrsula, estava começando a sorrir para mim. Até em seu olhar frio eu percebia um pouco mais de calor. Mas eu não podia ficar desatento e fugir do meu plano, pois era muita incipiente a simpatia que ela me mostrava. Sentia que ainda não havia desfeito todo o orgulho dela, e mostrar reciprocidade àquela sutil simpatia poderia me fazer voltar à estaca zero.  

Tal qual Julien Sorel em relação a Mathilde, eu teria que continuar a minha total indiferença em relação a Úrsula. Assim, respondia a qualquer pergunta, a qualquer comentário dela, quase como quem quer demonstrar que está respondendo por mera educação, ao mesmo tempo em que dá sinais de que está sendo perturbado e não tem interesse em manter um diálogo.

Além de não fraquejar, tive que dar o melhor de mim como ator, pois eu realmente gostaria de abrir uma conversa casual que fosse com Úrsula, para de fato passar a conhecer a mulher que estava por detrás de todo aquele orgulho. Mas ainda não era a ocasião. Ela precisava sucumbir, enlouquecer de amor, seguindo o exemplo de Mathilde, mas aqui eu confesso meu medo de que Úrsula perdesse aquele ligeiro interesse demonstrado por mim, em razão de eu estar lhe fechando as portas tantas vezes - Talvez Stendhal não tivesse tanto domínio sobre os atos de Úrsula, para que sua lição se aplicasse a ela, ao contrário do que aconteceu a Mathilde.

Mas me mantive fiel ao plano, embora tenha estabelecido para ele um prazo. Depois de dois meses, se Úrsula persistisse demonstrando simpatia, eu passaria a retribuir da mesma forma. Minha lista de amigas disponíveis já estava acabando, as pagas já corriam o risco de se repetir e estavam esvaziando a minha carteira, e catar desconhecidas na noite, para apresenta-las logo assim de cara aos colegas de trabalho, estava se mostrando trabalhoso. Foram esses os motivos que me fizeram estabelecer o prazo.

Que, no entanto, não precisou chegar ao fim para que meu objetivo com Úrsula fosse cumprido.

Aconteceu quando eu caminhava sozinho à noite pela orla da praia, despretensiosamente, escutando música e com os pensamentos elevados na próxima ideia do meu mais novo romance. Caminhei o tempo todo distraído, até o momento em que reparei que ia cruzar com Úrsula, que vinha na direção oposta da orla. Era tarde demais para fingir que não havia reparado nela. Nossos olhares se prenderam, se comunicaram, e passarmos um pelo outro sem se sequer dizer um Oi ia ser extremamente mal educado e desconfortável, para ambos, acredito. Mas Úrsula não quis dizer apenas um Oi.

Conforme estava acontecendo ultimamente, ela quis puxar assunto, travar uma conversa. Até chegou a tocar em meus ombros, passar as mãos pelo meu peito, sorrindo, se insinuando, se facilitando, enquanto fazia perguntas sobre a minha vida num tom baixo e sedutor.

A esnobe e fria Úrsula estava mais doce que brigadeiro naquele momento. Por alguns instantes, que mais tarde eu veria que foram vitais, eu fiquei em silêncio. Acho que ela interpretou esse meu silêncio como mais um sinal de desprezo, quando na verdade eu estava apenas refletindo sobre como me comportar. Pois bem. Ela me abraçou subitamente, e eu por reflexo também a abracei. Foram gestos estranhos e inexplicáveis não só naquele momento, como para sempre, pois jamais buscamos a explicação para aquele abraço repentino.

Depois de tomarmos uma água de coco e termos a nossa primeira conversa livre e alegre, que durou por um bom tempo, ela me chamou para o seu apartamento. Estava muito curioso para conhecer a Úrsula que existia por trás de toda aquela aura esnobe que eu havia conseguido desfazer. A expectativa era muito grande. Era provável que existissem bons motivos para ela ser bem esnobe. Ela já era uma boa profissional, mas por detrás disso com certeza devia haver mais atributos, a ponto de torná-la uma mulher singular e explicar um pouco a razão de tanto orgulho.

Terminou que Úrsula era ordinariamente interessante, e só. Ela havia tido um bom gosto para montar e decorar seu apartamento na Avenida Boa Viagem, com uma fenomenal vista para o mar. Era bem versada nos assuntos de arte em geral. Tinha uma prosa descontraída e agradável, e um talento desconhecido para fazer refeições gourmet, que eu descobri naquela noite. O sexo também foi bom, saboroso, cuja satisfação, para mim, finalmente foi alcançada quando eu coloquei aquela mulher esnobe de quadro, para assim poder deliciar melhor o sucesso de ter desfeito o orgulho dela, ao vê-la nessa posição.

Talvez se não tivesse criado tantas expectativas assim em relação à Úrsula, eu não teria tido a sensação, no dia seguinte ao nosso encontro, de que nada demais havia se passado. O meu prazer com ela se esgotou no momento em que atingi o objetivo de dobrar o seu orgulho. Depois disso, a vontade que eu tinha era de limitar o nosso relacionamento aos ligeiros cumprimentos de elevador ou de corredor. Sequer sabia se ela continuaria a ser agradável comigo, talvez ela voltasse a ser esnobe, o que facilitaria as coisas.

Mas não foi bem assim.

Depois de receber tanto desprezo e indiferença da minha parte, Úrsula desenvolveu uma paixão quase que irracional por mim, tal qual Mathilde havia desenvolvido por Julien. Procurava-me no escritório para flertamos discretamente, sugeria escapadas durante o almoço para irmos ao motel, buscava ocupar as minhas horas vagas com a companhia dela... Eu acolhi as primeiras abordagens dela, com uma frieza calibrada para que ela fosse percebendo aos poucos que não teríamos mais estórias. Eu não gostaria de ser indiferente com ela mais uma vez, ou até rude ou grosseiro, para evitar magoá-la, por isso que optei por essa estratégia, que, no entanto, não funcionou em razão de ela aparentemente não ter se tocado das mensagens sutis que eu lhe mandava, comunicando que não desejava mais ficar com ela. Depois, passei a ser claramente apático e insensível, mas Úrsula interpretava a minha apatia e insensibilidade como sinal de que ela precisava fazer mais, ousar mais, e eu, como vil e pervertido homem, até me aproveitei de tanta entrega para realizar algumas fantasias incomuns com ela, como foi a vez em que sugeri (para ela, uma ordem) que ela passasse o fim de semana completamente nua em meu apartamento, quase que como uma empregada francesa, meio que sob meu total domínio. Mas eu realmente queria dar um fim a Úrsula, não conseguia sequer ter mais desejo por ela, apesar dos atrevidos esforços da sua parte. Passei a ser rude e grosseiro então, jamais cheguei às vias de fato, por óbvio (em parte por consciência, em parte por medo da Maria da Penha), o que fez Úrsula, paradoxalmente, quase se jogar aos meus pés para que eu a amasse.

Foi então que em minha mente se iluminou uma ideia. Pouco a pouco, eu passei a ser mais amoroso com Úrsula, mais gentil, mais afável, a preenchê-la completamente de dedicação, carinho e afeto, e estava quase acreditando que depois de tantos desprezos, havia alguma sinceridade nessa minha dedicação, nesse meu carinho, em relação a ela. A paixão louca e alucinada de Úrsula foi se normalizando à medida em que eu me ocupava de suplantar os acessos amorosos que antes pertenciam somente a ela. Depois de tantas demonstrações amorosas minhas - às vezes, até mesmo piegas - reapareceu aquele olhar de Úrsula, o primeiro que conheci, e o que marcaria a despedida do nosso relacionamento. Frio, incontornável, cheio-de-não-me-toque. Nunca esperei com tanta alegria para que esse olhar reaparecesse.

Meus laços com Úrsula finalmente se desfizeram, com amizade suficiente para continuamos com os cumprimentos habituais dentro do escritório, mas sabíamos que a nossa estória havia chegado ao fim.

Algum tempo depois, tive essa impressão a respeito de Úrsula: Ela não era apenas uma mulher esnobe; ela também pertencia àquela miríade de mulheres que só são capazes de amar, por algum motivo fundado no inconsciente desconhecido, homens que não a amem ou a desprezem.

 

Publicado em 20/05/2014

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