Vinicius não quer ovo de páscoa - por Marcelo Garbine

Vinicius não quer ovo de páscoa - por Marcelo Garbine

Vinicius não quer ovo de páscoa

 

Deixa eu ver que livro eu trouxe… Hum… nada mal: Nelson Rodrigues, “Elas gostam de apanhar”. Saí, às pressas, de casa e nem havia notado qual obra eu havia lançado para dentro da minha mochila surrada. Um livro de contos é o ideal para matar os torturantes minutos numa sala de espera de oftalmologista. Tirando a velha senhora, com o seu netinho, que me olhara com fisionomia de escória de esgoto em estado putrefato e mudara de lugar, pondo-se mais cinco assentos de distância desse que vos escreve, não existia mais nada rançoso no recinto. O clima estava leve. Um livro e ar para respirar era tudo o que eu precisava. Após algumas linhas discorridas e o fim do doce silêncio, minha atenção teve que começar a ser dividida entre as célebres páginas publicadas em 1974 e os atuais discursos entre uma sábia criança de uns cinco anos e sua zelosa vovó, exatos quarenta anos depois.

- Vó, por que o coelhinho me deu esse ovinho de chocolate?

- Porque é páscoa.

- O que é páscoa?

- Quem é esse barbudinho aqui da foto? A vovó já não falou que o nome dele é Jesus? Então, a páscoa é uma festa pra mostrar que a gente gosta de Jesus.

- Quem não come chocolate não gosta de Jesus?

- Cadê o seu brinquedo? Vai brincar, Vinicius.

- Coelhinho bota ovo de chocolate?

- Não, Vinicius. É a galinha que bota o ovo. O coelhinho espera a galinha dormir, vai lá no galinheiro, pega os ovos e coloca chocolate.

- O Jesus sabe que o coelhinho da páscoa é ladrão?

- Você tomou o seu leite, hoje, de manhã, Vinicius?

“Sábio Vinicius” – pensei. Talvez sua precoce inteligência seria melhor aproveitada se o primeiro barbudinho para quem ele tivesse sido apresentado fosse Karl Marx. Trinta anos atrás, não tive uma sorte muito diferente daquela inocente criança. Na idade do Vinicius, eu queria saber por que existiam tantas religiões se Deus era um só. Queria que me levassem, a cada final de semana, em uma igreja diferente, para descobrir qual falava a verdade. Mas a minha mãe não deixou: “Quando você crescer, você faz isso, enquanto você for criança, você é CA – TÓ – LI – CO”. Enquanto proferiu a sentença que vigoraria para o restante dos meus dias pueris, seu dedo apontou, em riste, bem para o meio do meu nariz. Tive que engolir o abuso do mátrio poder. Fazer o quê?

Aos meus oito anos, na segunda série, a professora tia Márcia, durante a aula de Estudos Sociais, mandou que abríssemos o livro numa página em que estavam dispostas duas gravuras: a gravura “A” era um terreno árido e inclinado. A gravura “B” era um terreno arado e plaino. A pergunta que vinha abaixo era: qual dos dois você escolheria para fazer a sua horta? Todos os alunos tiveram que responder a questão oralmente, após redigi-la, um por um, diante de toda a classe. Depois de uma meia-dúzia de fedelhos convocados, foi a vez do mini Mingau Ácido:

- Marcelo, qual dos dois você escolheu?

- Óbvio que seria o terreno “B”, mas se deve levar em consideração uma característica muito interessante do terreno “A”: a sua inclinação. Talvez isso seja proveitoso para a irrigação, levando-se em conta que a água despejada sobre a plantação, no topo, escorreria para as demais áreas.

Claro que não usei “ipsis litteris” essas palavras. Respondi justamente isso com o vocabulário de um menino de oito anos de idade. Mas a tia Márcia não gostou nem um pouco.

- Marcelo, que bobagem é essa que você escreveu aí? Você escolheu o “A” ou o “B”?

- Escolhi o “B”.

- Então apague a sua resposta e refaça. Seja mais objetivo. Beatriz, qual você escolheu?

- Escolhi o terreno “B” porque a terra é fofinha e boa para plantar.

- Isso mesmo, Beatriz. Perfeito. Parabéns.

- Eu respondi a mesma coisa, tia. – disse o menino que sentava atrás da Beatriz.

- Parabéns, Henrique, você também é muito inteligente.

Apaguei a minha resposta e fiz minha as palavras da Beatriz e do Henrique.

- Quem escolheu a gravura “B”?

A classe toda levantou a mão, inclusive eu.

- Alguém escolheu a gravura “A”? – perguntou a tia Márcia, olhando de rabo de olho para mim.

Ninguém levantou a mão.

- Ah, bom. – finalizou a pedagoga.

No fim da tarde, naquela nobre escola em que os estudos eram em tempo integral, era a hora do livro. Cada criança escolhia um livro e lia. As opções não eram muito interessantes. Eu não queria ler “O tatuzinho feliz” nem “Rita foi para a escola”. Eu preferia o livro que eu li, uma semana antes, na casa do meu primo: “A revolução dos bichos” de George Orwell.

- Muito legal esse seu livro. – eu disse para o meu primo, quatro anos mais velho.

- Legal nada. É um livro idiota. Porco não fala. – ele respondeu, bravo.

Depois de alguns anos, descobri que se tratava de uma crítica ao totalitarismo. Não entendi tudo no momento em que li, com oito anos, mas o conteúdo evoluiu concomitantemente ao meu crescimento e amadureceu junto comigo. Foi muito mais proveitoso do que os ensinamentos prontos que eu fui obrigado a meter pra dentro de mim, impostos por uma sociedade decadente, com sérias dificuldades para atualizar os seus métodos pedagógicos. Se eu tivesse um exemplar desse livro, aqui comigo, daria de presente de páscoa para o Vinicius, mesmo sob os olhares tortos da sua avó.



Mingau Ácido (Marcelo Garbine) – @mingauacido – mingauacido.com.br

 

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